(Salsipuedes, PAN, 2016)
Drama
Direção: Ricardo Aguilar Navarro, Manuel Rodríguez
Elenco: Elmis Castillo, Maritza Vernaza, Jaime Newball, Lucho Gotti, Samir Flores, Alina Rodriguez, Katia Semacaritt
Roteiro: Manuel Rodríguez
Duração: 95 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

No Brasil é comum ver o material de minisséries adaptado à produções cinematográficas, como O Auto da Compadecida, um dos filmes que marcou a volta do interesse do grande público no cinema nacional, e o mais recente Serra Pelada. Enquanto o primeiro se resolve bem como cinema, o segundo sofre bastante com o efeito picote.

A trama não é fluida, os personagens não têm tempo para se desenvolver e há uma dependência maior da narração, o que, de maneira geral, empobrece a experiência cinematográfica. Outro exemplo do efeito picote, esse ainda mais extremo, é a adaptação da novela Os Dez Mandamentos para o cinema. São 172 capítulos transformados em um filme de aproximadamente duas horas de duração.

Salsipuedes, longa-metragem panamenho selecionado no 26° Cine Ceará, está entre Serra Pelada e Os Dez Mandamentos. Não há informação de que o filme tenha sido feito com essa intenção, mas é como se uma série televisiva tivesse sido adaptada, já que seu principal defeito está na montagem do material, que deixou de fora coisas importantes para a montagem da trama. O que sobra é uma história meio sem pé nem cabeça que não consegue chegar a lugar algum.

Andrés é mandado pela mãe ainda criança para estudar nos Estados Unidos. Ao saber que seu avô morreu e regressar a Salsipuedes, bairro onde morava na Cidade do Panamá, ele reencontra o seu pai, um pugilista bandido que está preso desde que era pequeno.

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Com poucas informações na cabeça, o público se diverte involuntariamente com o que vê na tela. A trilha sonora desequilibrada e mal posicionada, a falta de variação na expressão facial de Elmis Castillo como o protagonista, e uma primeira cena de ação para lá de esquisita transformam o thriller panamenho em uma comédia.

Não que seja fácil assistir, mas pelo menos é possível se divertir um pouco. A falta de conexão entre as passagens é bastante problemática e faz com que cenas graves, como a visita ao túmulo do melhor amigo – que poucos lembram existir – com “um tiro que veio do céu”, tornem-se risíveis de cara.

Entre conflitos mal elaborados, mal desenvolvidos e que não fazem muito sentido, estão ainda a vida oculta da mãe e a questão do protagonista com o pai. Há um desejo de conhecer o pai e receber o afeto paterno? Ou há uma vontade de largar os estudos nos EUA e tornar-se bandido para seguir a tradição familiar?

Sem entender direito o que acontece, resta ao público acompanhar o desenrolar da trama aleatória, com vários personagens rasos e irrelevantes. Se nem o protagonista tem um arco dramático estabelecido, não tem porque o roteiro perder tempo com os que o cercam.

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E, assim, Salsipuedes se ancora em fotografias reveladoras, mortes insignificantes e tentativas de emocionar. Em sua última cena, quando se afasta do bairro da periferia para mostrar o lado rico da cidade ao longe, deixa uma pista de sua intenção de denúncia social. Ou seja, é preciso chegar na última cena para saber o porquê de tudo que foi visto.

Além de ser um daqueles inexplicáveis casos de seleção em festival, o que fica de Salsipuedes é o humor involuntário. A fuga no cemitério, o resgate do pai e a bandinha no enterro vão fazer rir muito tempo depois de o filme ter acabado.

Um Grande Momento:
Faltou.

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