(Xingu, BRA, 2012)

Aventura
Direção: Cao Hamburger
Elenco: João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Adana Kambeba, Tapaié, Totomai Yawalapiti, Maria Flor, Augusto Madeira, Fábio Lago
Roteiro: Helena Soarez, Cao Hamburger, Anna Muylaert
Duração: 102 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

O Brasil é cheio de histórias que o Brasil não conhece, mas deveria. A exploração da região central do país é um poço delas e a mais importante talvez seja a dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas. Depois de se alistarem como peões na Expedição Roncador-Xingu, de vanguarda, e tornarem-se chefes da mesma, os três irmãos foram os principais responsáveis pelo desbravamento das terras e pelo contato e preservação das tribos indígenas da região.

Com uma posição diferente em relação à civilização pacífica daqueles povos, pregada pelo Marechal Rondon, os Villas Bôas defendiam a manutenção do isolamento, pois acreditavam que o índio só sobreviveria em sua própria cultura. Foi por esse motivo que os irmãos brigaram pela criação do Parque Nacional do Xingu, hoje Parque Indígena do Xingu, além de se tornarem conhecidos no mundo todo pelo modo como lidavam e respeitavam a cultura e a tradição indígena, chegando a serem indicados, inclusive, ao Prêmio Nobel da Paz.

Inexplicavelmente, toda a fantástica história do desbravamento de terras, descobertas geográficas e do respeito a seus habitantes naturais, com o reconhecimento de uma estrutura social e hierárquia que contrariava toda a crença na selvageria indígena, só é realmente conhecida por estudiosos das áreas científicas específicas e não chega a merecer um capítulo nos livros didáticos brasileiros.

É assim que chega aos cinemas agora, num misto de desconhecido com “já ouvi falar” e poucas informações espaçadas dadas por programas de televisão e pequenas matérias jornalísticas. Produzido pela O2 filmes, a pedido do filho de Orlando Villas-Bôas – que temia que a história se perdesse – e dirigido por Cao Hamburger, Xingu tenta dar conta de toda a história, passando pela exploração do terreno, os primeiros contatos, os problemas políticos e familiares e a criação da maior reserva indígena das Américas, preservada até hoje.

A história é tão boa e tão cheia de significado que seria difícil que não ficasse boa como filme. Ainda que tenha alguns problemas de realização, rever a descoberta do brasil por brasileiros é, de certa forma, emocionante. Principalmente quando o trio de atores escolhidos para viver os papéis dos irmãos Villas-Bôas entrega-se completamente ao papel, como fazem Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat (Orlando, Cláudio e Leonardo, respectivamente).

A fotografia de Adriano Goldman é favorecida pela beleza natural das locações e conquista o espectador logo nos primeiros momentos de projeção, mas o deslumbramento com o visual não acontece só com o público e algumas vezes há excesso em travellings circulares e aéreas. Ainda assim momentos visualmente poéticos, como na cena em que Cláudio aprende a língua com o cacique em contraluz, e tensos, como a emboscada dos índios no acampamento, surpreendem.

O roteiro escrito a seis mãos por Hamburger, Helena Soarez e Anna Muylaert consegue condensar os acontecimentos sem grandes problemas, mas não resite à narração em off e algumas vezes parece meio perdido. Obviamente, pelo tempo limitado, alguns fatos são tratados de forma mais superficiais do que gostaríamos e os personagens não conseguem ser totalmente desenvolvidos.

Mas nenhum desses defeitos é capaz de impedir o encantamento que o trio de atores principais provoca, em especial João Miguel, sublime como Cláudio Villas-Bôas. Magnético e envolvente, o ator soteropolitano é fundamental para guiar o público em uma outra jornada, pela consciência dos três irmãos ao perceber que se eles estavam, ao mesmo tempo, permitindo o conhecimento e provocando a dizimação. “O veneno e o antídoto”, como acreditavam.

O dilema é o ponto mais forte do filme, pois mesmo respeitando as tradições, o modo de vida dos índios e resguardando o seu espaço, os três irmãos sabiam que cada contato seria o primeiro passo para um futuro incerto. “Tem alguma coisa nelas que morre assim que a gente enconsta”, dizia Cláudio.

Entre erros e acertos, Xingu tem suas qualidades e um significado histórico inegável. Revivendo a memória de alguns e apresentando fatos fundamentais ainda desconhecidos a outros, o filme foi escolhido pelo público como o melhor do Festival de Berlim e tem recebido elogios por todos os festivais estrangeiros onde passa. Tomara que não se perca aqui em sua própria terra, com a história que se propõe a contar, e leve muita gente para conhecer as aventuras dessa descoberta dos três irmãos sertanistas e indianistas que conheceram o nosso país antes de todo mundo.

Professores, está aí uma oportunidade para uma atividade extraclasse.

Um Grande Momento

Cercados pelos índios.

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