(V for Vendetta, EUA/GBR/ALE, 2010)

Ação
Direção: James McTeigue
Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, Stephen Fry, John Hurt, Tim Pigott-Smith, Rupert Graves, Roger Allam, John Standing
Roteiro: David Lloyd (quadrinhos), Andy Wachowski, Lana Wachowski
Duração: 132 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Uma ideia não morre. Nem que se passem 400 anos. Uma vez que a semente é plantada, a forma como ela é regada determina o que será colhido: as rosas ou apenas os espinhos. É sobre isto que se trata V de Vingança, a realização cinematográfica dos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd, dirigida por James McTeigue, que se passa numa Inglaterra futurista caótica, regida pelo medo imposto por um ditador. Contra este cenário, um homem mascarado tentará vencer a opressão com a arma que possui: seus pensamentos.

V, interpretado por Hugo Weaving, é o (anti)herói deste roteiro adaptado pelos irmãos Wachowski, que se inspira na Conspiração da Pólvora, ocorrida na Inglaterra em 1506, para traçar e executar seu plano de vingança contra todos aqueles que o perseguiram. Seu intuito é ser bem sucedido naquilo que o soldado Guy Fawkes (rosto da máscara que usa) não conseguiu durante a conspiração: explodir o parlamento inglês em 05 de novembro. Nesta jornada de vingança, o destino de Evey (Natalie Portman) cruza com o de V quando ele a salva de uma tentativa de ataque da polícia secreta do governo. Este é começo de uma amizade que se solidifica na medida em que pontos em comuns entre suas histórias são descobertos. Evey é funcionária da estação de TV mais importante de Londres, filha de ativistas mortos pelo regime totalitário e dominada pelo medo. Ela encontra em V um tutor que a ensina, através do amor e da dor, como nos rendemos aos mecanismos de submissão e como não se entregar a eles.

Construído propositalmente às feições de Hitler, o Chanceler Adam Sutler (John Hurt) é quem governa esta nação. Segue à risca a cartilha dos ditadores. Possui uma polícia secreta, faz uso dos meios de comunicação como arma política, persegue as minorias e espalha o caos a fim de legitimar suas atitudes mais severas. Abaixo do Chanceler estão os leais membros do partido, cada um com sua função, mas todos com o objetivo de manter a ordem e a longa vida do regime ditatorial. Dentre eles destacam-se a figura de Peter Creedy, vivido por Tim Pigott-Smith, chefe dos “Homens-Dedo” (uma espécie de gestapo) e braço direto de Sutler e o investigador Eric Finch, interpretado pelo sempre ótimo Stephen Rea.

O roteiro é brilhantemente escrito e não deixa nenhuma questão sem resposta. Os motivos que levam V a planejar sua vingança são muito bem explicados, desde a sua ida à prisão de Larkhill até a busca incansável pelos seus algozes. Tudo bem ilustrado com cenas em flashback e ricas nos detalhes. Na trama não faltam personagens secundários que dão peso à obra, recurso muito bem usado pelos irmãos Wachowski que souberam conceder a cada uma destas figuras uma história com começo, meio e fim. Este artifício engrandeceu e manteve a cadência do filme ao logo da sua exibição.

A fotografia sombria, recheada de lirismos e referências poéticas, casa perfeitamente com a plasticidade impressa nas cenas de luta e violência. V de Vingança é um arrebatamento audiovisual.

Mas estas não são as únicas qualidades deste trabalho. Afinal de contas, o cinema não serve apenas como entretenimento. Uma de suas funções é nos fazer refletir. Em paralelo a crítica a regimes, formas de governo e ao papel da população, o enredo mostra que mais do que subtrair a identidade do personagem, a máscara é a representação das personas sociais que encarnamos. Estamos todos lá no filme. Seja na hipocrisia do Bispo Lilliman (John Standiman), na demagogia de Lewis Prothero (Roger Allam) ou na vida secreta de Gordon Dietrich (Stephen Fry). Não é do 05 de novembro que devemos nos lembrar. O que precisamos é de nunca nos esquecer de quem somos apesar de todas as máscaras que somos obrigados a usar.

Um Grande Momento

As cenas finais.

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