FBCB-Abertura

Terminada a 48ª edição do Festival Brasileiro de Cinema Brasileiro, a mais tradicional e antiga vitrine do cinema nacional, é preciso discutir a curadoria deste ano. Como a seleção do ano anterior chamou a atenção pelo caráter fortemente autoral e não foi recebida bem pelo público da cidade e nem por parte da crítica, que chegou a dizer que o festival tinha se tornado uma espécie de segunda edição da Mostra Tiradentes, a curadoria procurou entregar neste ano uma programação mais eclética, misturando estilos e temas.

A variedade, porém, deixou a desejar, talvez mais do que a do ano anterior. Com uma competição que envolvia seis longas metragens, o que se viu em 2015 foi a fragmentação, com apenas três filmes concorrendo aos prêmios principais: o longa paulista Fome, de Cristiano Burlan; o paranaense Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba, e o pernambucano Big Jato, de Cláudio Assis. Bastante superiores aos outros selecionados, foram os únicos filmes que receberam alguma menção do júri oficial do festival.

Analisar as outras três escolhas é uma tarefa difícil e talvez só mesmo a vontade de ser variado possa entregar alguma conclusão a quem tente. Dentre eles, o melhor em questão de cinematografia talvez seja o drama infanto-juvenil A Família Dionti, de Alan Minas. Embora não seja um filme que tenha a cara do Festival de Brasília, por ser destinado a um público específico e por usar uma linguagem mais lírica, tenha conseguido seu lugar.

Os outros dois longas-metragens, porém, não tem qualquer justificativa de estarem lá. Fracos em cinematografia, Santoro – Um Homem e Sua Música e Prova de Coragem não têm nada a ver com o festival. O primeiro é um documentário sobre o famoso maestro e compositor Cláudio Santoro, e o segundo é uma ficção pasteurizada que pouca coisa tem a dizer.

Chapa-branca até a raiz do cabelo, Santoro faz de seu personagem principal uma espécie de homem perfeito. Usando o método mais quadrado de se fazer documentários, traz informações pouco importantes e não perde uma oportunidade de ser óbvio. Claro que Cláudio Santoro merecia um filme que divulgasse a sua história e sua música, mas não esse, e isso não deveria ser motivo suficiente para que um filme integrasse uma seleção.

Mal escrito, mal dirigido e mal atuado, Prova de Coragem, de Roberto Gervitz, é um filme que se perde na pretensão de seu diretor. Não há nada no filme que faça com que ele tenha força para representar alguma parcela significativa do atual cinema brasileiro. Talvez tenha sido a vontade de colocar na seleção um filme mais comercial, mas entre os 130 inscritos, não é possível que nenhum outro fosse melhor resolvido.

Além da repercussão, os prêmios concedidos pelo júri oficial do festival comprovam o equívoco da seleção para a mostra principal. Santoro, inclusive, já estava selecionado para a Mostra Brasília, destinada a produções exclusivamente do Distrito Federal, e ganhou seus troféus Câmara Legislativa. Precisava mesmo estar na Mostra Competitiva? Nenhum dos outros 130 inscritos era melhor do que ele?

O estranhamento aumenta quando se sabe que o diretor, John Howard Szerman estava presente no anúncio dos selecionados pela imprensa. Como se fosse um filme previamente determinado na seleção. Uma postura talvez política que prejudica enormemente um festival com o número tão restrito de filmes concorrentes.

No final das contas, o festival, que queria ser eclético, acabou esvaziado, dividido e menos interessante. Talvez mais real no retrato do novo cinema brasileiro, onde realmente muita coisa é produzida, de todo jeito e com todo tipo de qualidade. Porém, faltou a sensibilidade de perceber que uma seleção de um festival como o de Brasília precisa sempre buscar o que há de melhor e não apenas pegar um de cada exemplar, sem muito critério.

Outra história

Se a decepção com os longas-metragens é uma realidade, o mesmo não pode ser dito da seleção de curtas e médias exibida este ano. Eclética, trouxe filmes de qualidade de vários lugares do país e, embora nem todos sejam unânimes, não há nenhum título que se afaste da experimentação do cinema.

Seguindo o caminho oposto da curadoria de longas, aqui o que se viu foi um apanhado geral de filmes que vêm chamando a atenção por onde passam e que têm algo a dizer. Seleção finíssima, com muita coisa que merecia realmente ser revista ou descoberta.

Além da escolha

Outros pontos que precisam ser cuidados para as próximas edições no festival dizem respeito à própria realização do evento. Neste ano, mostras paralelas exibiram ao público filmes que têm se destacado ou têm potencial de se destacar. O espaço escolhido para a exibição, o Cine Cultura do Liberty Mall, porém, não estava a altura dos títulos. Com imagem e som ruins, as projeções apresentaram problemas graves, independente da presença do diretor na sala.

O Festivalzinho, mostra destinada aos filmes infantis, deixou o Cine Brasília esse ano, fazendo com apenas o público das três cidades satélites escolhidas tivessem acesso às produções. Talvez seja uma medida para dar tempo aos testes das produções ali exibidas em horários posteriores, mas será que é a melhor saída?

Mais grave do que tudo, ainda há problema com as sessões no Cine Brasília. O som está excelente, mas o mesmo não pode ser dito da projeção. Em todos os longas-metragens da mostra competitiva sobrava uma faixa lateral que, segundo os realizadores, não estava presente nas exibições do mesmo DCP em outros festivais e nem no teste.

A falta de teste dos DCPs, enviados com bastante antecedência, também gerou confusão na mostra competitiva. Com apenas seis longas em competição, esse tipo de erro, além de frustrar o realizador e sua equipe, fragiliza a imagem do festival.

São muitos problemas, mas, como sempre, o Festival de Brasília sobreviverá. Que se aprenda com eles, para que não aconteçam novamente. Que se escute o que está sendo dito. E que o festival retome sua relevância, trazendo ao Cine Brasília o que há de melhor por aí.

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