(A Serious Man, EUA/GBR/FRA, 2009)

Quem conhece o cinema dos irmãos Coen sabe que uma das qualidades dos irmãos é aproveitar as mais diversas fontes e referências. Sem deixar a ironia e o sarcasmo de lado, seu novo filme, Um Homem Sério, é uma miscelânia de memórias biográficas, religião e o modo de vida estadunidense nos anos 60.

Larry Gopnik é a versão dos irmãos para Jó, personagem bíblico do Antigo Testamento. Na bíblia ele era o mais importante homem de oriente e que teve a fé testada pelo diabo que lhe tirou mulher, filhos, bens materiais e a saúde. No filme, ele é um professor de matemática nem tão importante e que não entende tudo que o está acontecendo: sua mulher quer o divórcio para casar-se com seu melhor amigo, seus filhos o enganam, ele deve um dinheiro que não pode pagar, um aluno o chantageia e sua melhor companhia é o cunhado viciado em jogo e que precisa drenar um ferimento no pescoço de tempos em tempos.

Diferente de Jó, Larry questiona o que acontece e sai em uma divertida e infrutífera jornada a rabinos sem nunca chegar a lugar algum. Mas, assim como Jó, tem a fé como sua aliada para consolar o cunhado em uma crise contra Deus ou para sustentar o bar mitzvah de seu filho como um respiro de paz em sua vida.

O roteiro propõe um jogo interessante ao relacionar e diferenciar claramente religião e fé, assim como se diferencia razão e emoção. A não economia nas desgraças e maus acontecimentos na vida do pobre Larry, nos aproxima da história e faz com que queiramos seguir a jornada junto com ele para descobrir como terminará tudo aquilo que talvez seja fruto de uma espécie de maldição após antepassados terem recebido em casa um provável dybbuk (defunto que anda entre os vivos), uma provação de Deus ou má sorte mesmo.

A boa história e o roteiro cativante, cheio de personagens memoráveis, são suficientes para garantir uma daquelas experiências que ficam na cabeça muito tempo depois de assistidas. Detalhes pequenos como um “Jesus Cristo” no meio de uma celebração judia, a conversa sobre o estacionamento e os sonhos de Larry são brincadeiras deliciosas que sempre caem bem em filmes dos Coen.

A boa estrutura vem acompanhada de um acabamento que não fica nada atrás. O prólogo do filme, encenado pelo trio Allen Lewis Rickman, Yelena Shmulens e Fyvush Finkel é fantástico, assim como a conexão com o tempo atual do filme, por um fone de ouvido, com uma música pop que dá uma boa idéia do que veremos pela frente.

O elenco está muito à vontade, com destaque para as atuações de Michal Stuhlbarg como o atormentado Larry, Richard Kind como o confuso cunhado e Fred Melamed como o melhor amigo traíra. A fotografia de Roger Deakins consegue manter a linha Coen de planos e manter sua personalidade e traz um resultado bem interessante.

A montagem, também assinada pelos irmão Coen (como Roderick Jaynes) e a direção de arte de Jess Gonchor, Deborah Jensen e Nancy Haigh também não podem ser esquecidas.

Com tudo no lugar e sem problemas e arestas a aparar, a história desse Jó do século XX é uma aventura tragicômica em busca de um sentido naquilo que não tem sentido algum. Mais uma prova de que escutamos aquilo que queremos ouvir e nos forçamos a acreditar. E nada como o mais sábio dos rabinos recitando Jefferson Airplane para comprovar a teoria.

Mais um filme que demonstra toda a genialidade e desenvoltura desses dois irmão que longe de serem amados por todos, vêm conquistando cada vez mais público, sem abrir mão de seu estilo e sem deixar de usar as referências que querem, onde bem entendem.

Um Grande Momento

São muitos, mas o momento da ida ao Canadá é sensacional.



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Comédia
Direção: Joel Coen, Ethan Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, Adam Arkin, Michael Lerner, George Wyner
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen
Duração: 106 min.
Minha nota: 9/10