(Bal, TUR/ALE, 2010)

Drama
Direção: Semih Kaplanoglu
Elenco: Bora Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen, Alev Uçarer
Roteiro: Semih Kaplanoglu, Orçun Köksal
Duração: 103 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆
Embora visto inteiramente pela perspectiva de uma criança, Um Doce Olhar não é um filme particularmente divertido, como “O Pequeno Nicolau”, ou trágico, como “A Vida é Bela”. Ele segue, na verdade, um ritmo lento, tímido e introspectivo. Dirigido discretamente, entrega a obra aos personagens e suas personalidades e relacionamentos. E isto é o bastante. Afinal, mesmo sem oferecer momentos da grande catarse emocional, Um Doce Olhar nos traz um entristecido sorriso aos lábios – adocicados, ao fim da projeção, pela beleza do que vimos ao longo dos últimos 100 minutos: a dedicação de um pai, a admiração de um filho e a transformação de uma criança que se prepara para ser um grande ser humano.

Uma jornada que, mais do que emocionante, é fascinante.

Parte final da trilogia formada pelos filmes “Ovo” e “Leite”, que acompanham o protagonista na maturidade e juventude, respectivamente, “Um Doce Olhar” (ou apenas Mel, tradução do original Bal), conta a história do jovem Yusuf, um garotinho de seis anos que tenta estar sempre com o pai, por quem tem uma clara admiração de herói, e mal disfarça, durante as aulas, sua ansiedade para ler em voz alta e ganhar uma estrela de parabéns acompanhada de invejados aplausos dos colegas.

Quando é finalmente convidado pelo professor a ler um texto desconhecido, Yusuf gagueja e tropeça em palavras, incapaz de concluir sequer a leitura do título e revela que sua prometida habilidade era apenas memorização – e uma natural tentativa de mostrar-se melhor do que é.

Inseguro e ciumento, Yusuf permanece longe dos colegas na hora do recreio e parece não se preocupar sequer com a própria mãe, jamais obedecendo suas ordens e a deixando sozinha sempre que ouve o pai chegando. Assim, é natural que o garoto queira aprender tudo o que o pai faz e fique decepcionado quando é obrigado a ficar para trás ou quando o vê dando um presente a outra criança.

Por sua vez, o bondoso e rígido pai revela-se um homem de bom coração, mas que não hesita quando precisa falar gravemente. Tão dedicado à tarefa de apicultor quanto à paternidade, o personagem é responsável pelos momentos mais sensíveis e intensos da produção, como quando cochicha com o filho sobre sonhos, bebe seu leite ou conversa sobre os sabores dos méis de determinadas flores – e principalmente na cena que abre a narrativa, e que termina numa tensa reticência.

Esta sequência, aliás, já nos prepara para boa parte do filme. Em planos abertos que revelam a grandiosidade inesperadamente claustrofóbica do interior de uma floresta, vemos o personagem se preparando para subir ao topo de uma árvore enquanto seu cavalo de carga se diverte comendo grama e minúsculos gravetos lambuzados de mel.

Segundos depois, a narrativa volta no tempo. É quando conhecemos Yusuf e seu relacionamento com o pai, assistindo a tudo sabendo que um destino incerto os aguarda. E se mencionei no início deste texto que também esta cena poderia pertencer à visão do garoto, é porque isto sempre foi uma capacidade humana: nós podemos ver claramente, através da imaginação, acontecimentos que não presenciamos. E fica claro ao longo da projeção que, independentemente do desfecho, aquele episódio marcaria Yusuf para o resto de sua vida.

Elegante, encantador e carinhoso, Um Doce Olhar é esteticamente fascinante, exibindo quadros belíssimos que poderiam ser emoldurados – como os planos que mostram Yusuf deitado e cercado por verde e lama, ou a insuspeitadamente emblemática imagem do garotinho em pé ao lado de uma árvore, olhando para cima.

A direção de arte nos conduz por caminhos acidentados e ambientes humildes, nos apresentando a uma região pobre mas aconchegante, acentuando o carinho do relacionamento entre aquelas pessoas. Enquanto isso, a fotografia explora ao máximo a beleza das luzes dentro da floresta, mas abusa um pouco da escuridão em algumas cenas internas.

Reservando um pouco de tensão para os minutos finais, quando alcançamos o momento que abre a projeção, este episódio final da trilogia de Yusuf encerra (ou inicia) de forma comovente a jornada que o rapaz seguirá em sua vida. E se falo às cegas, já que ainda não assisti aos outros filmes, é porque ter testemunhado um episódio tão importante na formação deste sujeito é prerrogativa suficiente para ao menos imaginar como ele seguiu diante os desafios da vida.

Mas não posso ir muito longe com a imaginação. Afinal, quem nunca experimentou o modo drástico como nossas vidas podem mudar em um curto período de tempo? Para todos nós, sempre chega o momento em que precisamos encarar nossas responsabilidades…

E beber todo o leite.

Um Grande momento

Yusuf brincando com a luz da cozinha.

Links

No IMDb