(The Hunting Ground, EUA, 2015)

Documentário
Direção: Kirby Dick
Roteiro: Kirby Dick
Duração: 103 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

The Hunting Ground vai tocar em um problema estritamente relacionado com o machismo. O abuso sexual nos campi de universidades dos Estados Unidos. Sejam elas de renome internacional ou não. O problemas está longe de ser exclusivo dos EUA. No Brasil, embora não haja estatísticas, o número de denúncias de estudantes só aumenta, assim como as investigações do Ministério Público a respeito.

A coisa funciona por lá do mesmo jeito que aqui. Meninas são tratadas como objetos. Depois de festas, com consumo de álcool, ou simplesmente por estarem sozinhas em algum lugar, são violentadas por colegas. As universidades, ao invés de dar apoio e segurança a suas alunas, estimulam o silêncio e preferem não punir os agressores.

Dirigido por Kirby Dick (The Invisible War) e produzido por Amy Ziering, o documentário teve uma versão editada exibida na CNN no ano passado e tem como foco principal a batalha das estudantes Andrea Pino e Annie Clark contra a Universidade da Carolina do Norte. Elas encontraram no Título IX da Reforma Educacional de 1972 dos EUA, que trata da discriminação em instituições que recebem assistência financeira federal, um meio de serem ouvidas.

Para contar a história das duas, o longa-metragem faz uma vasta pesquisa e colhe diversos depoimentos de outras vítimas de agressões sexuais. Em todos os casos, de alguma maneira, as vítimas foram culpabilizadas pela agressão.

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Apesar do começo interessante, com vídeos caseiros que mostram a alegria de ter sido aceito na faculdade dos sonhos, The Hunting Ground segue a trilha do típico documentário de cabeças falantes, com inserções gráficas de estatísticas, algo bastante comum em produções para televisão.

A força do filme vem com a temática, pesquisa e a criação de um ambiente seguro para entrevistas tão difíceis. O diretor não segue uma ordem nos depoimentos, fazendo com que eles apareçam por toda a trama, como se acompanhasse as denúncias na mesma aleatoriedade com que elas acontecem nas reitorias.

Alguns alunos conseguem falar ao diretor com mais distanciamento sobre o que os aconteceu, outros estão mais feridos e outros ainda parecem ver no documentário sua chance de expurgar o mal causado pelo acontecimento.

É enojante acompanhar aos depoimentos sobre o modo como as denúncias foram tratadas pelas universidades. Há casos em que foram apenas ignoradas, o que já é um absurdo completo, e outros em que há toda uma movimentação da instituição para minimizar estatísticas, com entrevistas jocosas e uma enorme burocracia.

As providências contra os agressores são como novas agressões às vítimas que, muitas vezes, têm que continuar dividindo a sala e os espaços de convivência com seu agressor.

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Kirby Dick faz questão de ouvir vítimas mulheres e homens, já que há casos de violência sexual contra ambos e, muitas vezes por vergonha, os alunos deixem de prestar queixas do gênero. Ele ainda ouve pais de alunos e administradores das instituições. Entre os depoimentos, está o de Pat Cottrell, ex-segurança do campus da Universidade de Notre Dame.

Além de explicitar o problema, o diretor tenta encontrar explicações para o comportamento das universidades. Além de reputação, há todo um jogo de interesses financeiros que pode explicar as atitudes. O nome da instituição defendido por seus atletas bolsistas e as enormes contribuições de membros de fraternidades estão entre as possibilidades.

Entre as universidades citadas em The Hunting Ground estão Harvard, Notre Dame, Universidade da Flórida e Amhest College. A fraternidade Sigma Alpha Epsilon, conhecida pelo apelido Sexual Assault Expected (agressão sexual esperada), também é investigada pelo filme.

Algumas das universidades citadas, muitas hoje investigadas pelo governo estadunidense, pronunciaram-se contra o filme. Alegando o uso de estatísticas controversas e a citação a um dos supostos agressores de Harvard considerado inocente, já que nem a polícia ou a universidade encontrou provas contra ele.

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Nada inesperado depois de tudo o que se viu no documentário. É como se o acesso das mulheres às instituições de ensino superior fosse um grande estorvo para esses empresários de um dos mais lucrativos negócios.

Eles têm que aceitá-las, mas nunca deixam de tratá-las como alguém que não deveria estar lá. Afinal de contas, no pensamento machista dominante, meninas quietinhas, de boa família e que não bebem ou vão a festas não “querem” passar por isso. Meninas que não fazem o curso superior também não.

É triste.

Um Grande Momento:
Contar aos pais.

Oscar-logo2Oscar 2016 (indicações)
Melhor Canção Original (“Til It Happens to You”, de Diane Warren e Lady Gaga)

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