(Tatuagem, BRA, 2013)

Drama
Direção: Hilton Lacerda
Elenco: Irandhir Santos, Jesuita Barbosa, Rodrigo García, Sylvia Prado, Sílvio Restiffe, Nash Laila, Rafael Guedes, Ariclenes Barroso
Roteiro: Hilton Lacerda
Duração: 110 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Difícil não perceber o movimento que acontece hoje no cinema nacional. Depois de uma realidade de abandono e privação, um número elevado de produções conseguem chegar às telonas. É verdade que a manutenção dos filmes em cartaz ainda é precária e que muitos títulos ainda ficam esquecidos, mas é um começo importante. E já trouxe com ele uma maior qualidade.

Fugindo da tradição do eixo Rio-São Paulo, de uma região específica saem hoje os filmes mais ousados, inventivos e de grande potencial. Esta região é o Nordeste. Cineastas como Marcelo Gomes, Cláudio Assis, Karim Aïnouz, Paulo Caldas, Kleber Mendonça Filho, Lírio Ferreira e o próprio Hilton Lacerda se destacam com produções que trazem o cinema em sua alma e fazem de seu regionalismo um grande diferencial.

O Recife, nesta realidade, parece funcionar como uma grande capital criativa, que faz da arte seu principal meio de contestação. Filmes como A Febre do Rato e o badalado O Som ao Redor, por exemplo, ganham o Brasil pela ousadia com que encaram a realidade do país. Sem amarras, ou pudores, tudo vai parar nas telas com detalhes poéticos e visuais que fazem toda a diferença, dando ainda mais força ao discurso.

Tatuagem é mais um exemplo desse cinema que sai gritando (ou cantando) aquilo que quer dizer sem, nem por um momento, se distanciar da arte em seu estado mais bruto e impressionante.

A história se passa nos anos 70. O Brasil vive uma realidade contraditória: a ditadura militar está instalada, mas a sociedade vive o eco da revolução sexual e dos novos modelos familiares. É nesse contexto que um grupo teatral alternativo, independente e meio mambembe monta um novo espetáculo. Criativa e liberada, a nova trupe não se importa em criticar a realidade política pela qual o país passa.

O filme de Hilton Lacerda se divide entre os espetáculos do grupo e a vida sentimental e o cotidiano de seus integrantes. Contando com atuações memoráveis de Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa e Rodrigo García, aquilo que se vê na telona dialoga tão bem com o público que a sensação é a de que todos na sala já são frequentadores do Chão de Estrelas há muito tempo.

Temas como paixão, censura, homossexualidade, militarismo, educação dos filhos e novas estruturas sociais se misturam com muita naturalidade aos números musicais e teatrais apresentados.

Interessante em todos os aspectos, Tatuagem só perde pontos pela má distribuição de seus momentos. Há algumas cenas longas demais e outras deslocadas do interesse do espectador, como se o que se quisesse ver fosse diferente do foco de atenção que o diretor resolve dar. Falhas no desenvolvimento dos personagens, que vão perdendo espaço a medida que a trama vai ganhando corpo, também incomodam um pouco.

Mas nada que não se recupere com alguma facilidade e muito envolvimento daqueles que acompanham a sessão. Uma excelente história e um retrato de uma democracia ausente, que não existia naquela época e ainda não existe de verdade.

Destaque para a trilha sonora sensacional de DJ Dolores e para a direção de arte de Renata Pinheiro.

Dois Grandes Momentos:
“Esse Cara” e a apresentação final.

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