(Super 8, EUA, 2011)

Suspense
Direção: J. J. Abrams
Elenco: Joel Courtney, Kyle Chandler, Elle Fanning, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills, Jessica Tuck, Joel McKinnon Miller, Ron Eldard, Glynn Turman, Noah Emmerich, Bruce Greenwood, David Gallagher
Roteiro: J. J. Abrams
Duração: 112 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Não existe no mundo sensação melhor do que a de voltar a se sentir criança. Voltar aos que foram os melhores anos de nossas vidas, onde as preocupações eram insignificantes, a imaginação estava a mil e a magia poderia estar em qualquer lugar. Super 8 faz isso por nós e nos remete a estes velhos e bons tempos.

Antes da facilidade das gravadoras digitais e até das câmeras portáteis de VHS, os filmes caseiros, em sua maioria, eram feitos em super 8. As películas tinham que ser reveladas e demorava um tempo até que víssemos o resultado das gravações, projetadas por um segundo aparelho na sala de casa. Ainda sem entender o que estava acontecendo, meu pai dizia que estava filmando e eu ficava imóvel na pose que achava mais legal. Mais tarde fazíamos filmes, transformava meu irmão em papai noel, dançava, inventava histórias, criava personagens.

Uma mesma câmera de Super 8 é o nosso bilhete de viagem para a infância no novo filme de J. J. Abrams. Com ela um grupo de crianças filma uma divertida história de zumbis. Na gravação de uma das cenas, em uma estação, eles presenciam um acidente colossal de trem, com muitas explosões, descarrilamento, estranhos objetos e a intervenção do exército americano.

Diferente da maioria dos diretores que resolvem homenagear ou refilmar clássicos infantojuvenis dos anos 70/80 e se perdem em meio a tantas novas tecnologias, Abrams sabe como ser sutil e se aproveitar do que é novo. A cena da explosão, assim como outras que requerem mais efeitos visuais, é absurdamente bem feita, mas no final das contas é só mais uma cena em uma história tão requintada e bem pensada.

Impossível não identificar logo de cara a relação com filmes que deixaram a infância muito mais divertida, como Conta Comigo e Goonies. Fácil também perceber a influência do escritor Stephen King, que sempre soube como criar suspenses incrementados, e as homenagens ao diretor Steven Spielberg, que quando não está fazendo dramas bélicos/terroristas sabe usar muito bem o medo do desconhecido e encanta com aventuras deliciosas, como E.T., Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Tubarão e os três primeiros Indiana Jones.

Apesar de um começo meio arrastado, a ação crescente depois do acidente recupera os espectadores desinteressados e mantém os mais pacientes garantindo a presença de todos nessa jornada rumo a uma época específica do cinema. E vale lembrar que somos muito bem guiados por um elenco infantil sensacional, com atuações excelentes de Elle Fanning (Um Lugar Qualquer), Zach Mills (A Loja Mágica de Brinquedos), Ryan Lee (Lambs) e Gabriel Basso (Alabama Moon) e dos estreantes Riley Griffiths e Joel Courtney, como protagonista.

Para provocar ainda mais nostalgia, os anos 70 são a década escolhida para ambientar a história e a reconstrução da época fica a cargo do desenhista de produção Martin Whist (A Última Cartada), que conta com a ajuda de David Scott (Tron: O Legado) e Domenic Silvestri (A Vida É Dura: a História de Dewey Cox) na direção de arte, Fainche MacCarthy (Substitutos) na cenografia e Ha Nguyen (O Máskara) no figurino. A nostalgia sonora é criada pela trilha de Michael Giacchino (Up – Altas Aventuras).

A viagem é uma delícia, mesmo com alguns pequenos tropeços, como o exagero na homenagem a Spielberg que poderia ter ficado na aventura e deixado cenas chorosas e clichês como a do medalhão menos importantes, e uma certa falta de coragem por não acreditar que a imaginação do público seria suficiente para inventar uma ameaça muito mais interessante do que a que é vista. Mas nada que comprometa o resultado ou invalide todo o trabalho de recuperação de memórias que são comum a todos, independente da idade que tenham hoje.

O filme inteiro é uma grande homenagem à infância e à nostalgia. E as recordações vêm sem esforço, seja pelo comportamento dos personagens e suas feições de antigamente (sempre achei que Kyle Chandler tinha cara de tempos idos), pela construção de uma história parecida com as que víamos ou pelo simples uso de uma Super 8 para fazer um filme.

O passado está nas citações, no poster de Guerra nas Estrelas na parede e no filme dos meninos, que lembra George Romero e seus zumbis, que os pais proibiam de ver mas víamos mesmo assim. Sem falar na melhor de todas as referências, a Além da Imaginação, aquele seriado que fazia sentir medo, mas adorávamos. A operação das forças armadas na cidade de Lilian (que não por acaso é o nome da avó de Abrams) leva o nome de Walking Distance, um dos melhores episódios de todos os tempos e que fala justamente dessa vontade sem fim que temos de voltar no tempo.

J. J. Abrams faz com que cada um de nós possa, por um breve momento, ter noção do que sentiu Martin Sloan, o personagem do episódio, ao se sentar naquele balcão da sorveteria e sentir de novo o gosto do milk shake que cansou de procurar por aí mas só existia em sua infância. Não perca essa viagem.

Um Grande Momento

A fuga correndo.

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