(Serras da Desordem, BRA, 2006)

Documentário
Direção: Andrea Tonacci
Elenco: Elenco
Roteiro: Andrea Tonacci
Duração: 135 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Dirigido por Andrea Tonacci e lançado em 2006, Serras da Desordem, tornou-se imediatamente um longa-metragem obrigatório. Tanto pelo tema abordado, o absurdo da disimação de tribos indígenas pelo Brasil, quanto pela sua concepção como obra de arte.

O filme escolhido para a abertura do 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes conta a história de Carapiru, um índio que viu sua tribo ser dizimada após um ataque de madeireiros que queriam lucrar com aquelas terras. Sobrevivente, ele vagou sem rumo pelo mundo, sendo acolhido algum tempo depois por uma humilde família do interior, que não conseguia comunicar-se com ele, mas entregou o afeto que o índio precisava.

Anos mais tarde, sua situação foi descoberta pela Funai, que foi buscá-lo no local para trabalhar em sua reidentificação. A figura simpática de Carapiru também cativou o indigenista Sidney Possuelo, responsável por seu “resgate”, que o levou para sua casa, onde conviveu com sua família. Buscando um intérprete para entender o que Carapiru falava, uma surpresa, o índio que veio como substituto era o filho capturado pelos homens que dizimaram a tribo durante o ataque e levado por eles.

Tonacci usa imagens variadas, captadas por ele e de arquivo, para contar a história real do integrante da tribo Awá-Guajá. Para voltar ao que aconteceu, recorre à encenação e convida o próprio Carapiru para reviver a sua história. Serras da Desordem, é então uma revisão da história revivida por seu principal protagonista.

Mais do que um olhar sobre os fatos, há o olhar do outro – o próprio Carapiru – sobre os fatos, e que não é explorado de maneira fácil, com depoimentos, mas de maneira incisiva com a reambientação, a replicação de costumes e, de um certo modo, o reviver de todo um trauma.

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O diretor faz questão de, por nem um momento, tentar fazer com que ele próprio ou o espectador se coloquem no papel do retratado, mas que, mais do que isso, enxergue a realidade do outro. Uma realidade que ele jamais conseguirá sentir ou viver, por não ser própria, mas ao mesmo tempo está tão clara na tela. O posicionamento é explícito, com o diretor, inclusive, aparecendo no vídeo.

Tonacci volta a um tema que já foi várias vezes abordado no cinema nacional, mas sem vitimizar o oprimido, sem se posicionar quanto aos acontecimentos, sem querer ocupar espaços, mas estimulando uma reflexão profunda, coisa que talvez nenhum título tenha conseguido da mesma maneira.

Além disso, o modo como o diretor transita entre as facilidades do documentário, sem se dobrar às barreiras do gênero, ultrapassando-as por várias e conscientes vezes, foi o que saltou aos olhos dos críticos e cinéfilos. O modo como o ítalo-brasileiro consegue demonstrar ao mesmo tempo o respeito e o desrespeito que tornam aquela uma experiência cinéfila única.

Mesmo não sendo a única vez que a encenação prestou seus serviços à arte documental, o drama documental já havia chegado às telas brasileiras com o excelente Iracema – Uma Trama Amazônica. Assim como no filme de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, Serras da Desordem consegue alcançar suas pretensões e concretizar seu convite à reflexão, e é justamente por isso que se destacou e marcou o seu lugar definitivo no cinema nacional.

Um Grande Momento:
Carapiru.

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