(Prometheus, EUA, 2012)

Ficção Científica
Direção: Ridley Scott
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong, Kate Dickie
Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof
Duração: 124 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Para entender e apreciar Prometheus, é preciso relevar uma coisa: a produção é um piloto, não um filme. Não um filme completo, quero dizer, uma obra independente, com início, meio e fim que, dependendo do resultado comercial, poderá ganhar continuações. Não. Prometheus já nasceu como franquia (mesmo que não tenha continuações) e, assim, é apenas um episódio que depende profundamente de suas sequências para fazer sentido. O que é um problema sério.

A expectativa, porém, é uma combinação de curiosidade e preguiça. Por um lado, temos a parte de Damon Lindelof no roteiro, um dos criadores da série Lost, famoso por sua habilidade de criar mitologias e perguntas intrigantes (e demorar o limite do demais para dar respostas). Por outro, temos a contribuição de Jon Spaihts, que estreou ano passado com o mediano A Hora da Escuridão e que – arrisco propor – deve ser o principal responsável pela dispensável coleção de personagens que temos em Prometheus.

Personagens, no mínimo, exasperantemente imbecis, como mostra o momento em que um tripulante contaminado se sacrifica, quando um idiota interage com uma criatura alienígena ou quando duas pessoas fogem de um objeto em queda e correm para frente sem se dar conta de que tal objeto é mais comprido do que largo. Da mesma forma, algumas sequências de ação com cortes ansiosos não contribuem muito para o envolvimento do espectador, permitindo momentos caóticos e inexplicáveis, como o surgimento de um “zumbi”.

É divertido, porém, como os diálogos insistem em mencionar “marcianos”, numa referência direta às mais clássicas das histórias do gênero. Por outro lado, a produção falha em estabelecer um pequeno elemento típico do mesmo gênero: embora seja o próprio título do filme, a nave Prometheus carece de personalidade e relevância narrativa, envergonhando as colegas Enterprise, Galactica, Serenity e também a descendente Nostromos. Diga-se de passagem, até o módulo que serve de aposentos para a personagem de Charlize Theron é mais interessante e importante do que a nave-mãe.

Infelizmente, esta não é a única conexão emocional que nos desaponta, e o sentimento de decepção apenas se acentua no terceiro ato, quando nos deparamos com a anticlimática trajetória de Theron e a prepotência risível da protagonista vivida por Noomi Rapace, que declara um “Eu mereço saber a verdade” e só consegue nos despertar um “Quem é você, meu bem?”, já que não desempenha qualquer papel crucial na narrativa e não tem, premissamente falando, nenhuma importância como herói ou indivíduo.

Mas falho se dou a entender que Prometheus é uma porcaria. Não é. Vaidoso como é, Ridley Scott (Alien, o Oitavo Passageiro) faz o que pode para tornar a experiência saborosa, conferindo um ritmo eficiente nos mais diferentes momentos, como na tranquila sequencia que mostra os passatempos do androide feito por Michael Fassbender e a desesperada cirurgia de Rapace, e se sai bem inclusive no uso do 3D, explorando planos abertos e espaços reclusos e valorizando os elementos em tela – como a fantasmagórica holografia que surpreende os personagens em uma caverna.

O que nos leva ao início da projeção e, assim, ao que Prometheus promete ainda ser. Remetendo ao magnífico A Árvore da Vida, tanto pelas paisagens deslumbrantes que descortina, quanto pelo evento que revela, a sequencia pré-créditos do filme soa quase religiosa ao mostrar o que foi necessário um indivíduo fazer pelo nascimento do Homem – e não é a toa que o indivíduo em cena surja com um manto e que o momento do dia seja a aurora.

Um momento belíssimo que resiste na memória do espectador mesmo depois do banho de tensão e questionamentos das duas horas seguintes. O que a combinação Lindelof-Scott fará com a história (e a franquia Alien), porém, é um mistério em si. Um deles é talentoso ao criar e responder enigmas, o outro é conhecidamente indulgente (como mostram os deturpados Gladiador e Robin Hood) e certamente capaz de perverter a própria criação.

É o que veremos, no próximo episódio de Prometheus.

Um Grande Momento

A cirurgia.

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