(Porta dos Fundos: Contrato Vitalício, BRA, 2016)
Comédia
Direção: Ian Sbf
Direção: Fábio Porchat, Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Luis Lobianco, Thati Lopes, Alexandre Ottoni, Rafael Portugal, Júlia Rabello, Antonio Pedro Tabet, Gabriel Totoro, Marcos Veras
Roteiro: Ian Sbf, Gabriel Esteves, Fábio Porchat
Duração: 100 min.
Nota: 1 ★☆☆☆☆☆☆☆☆☆

Depois de todo o alarde com seu canal no YouTube com várias esquetes divertidas, sucesso instantâneo e absoluto entre seus milhões de seguidores, o grupo humorístico Porta dos Fundos achou que estava pronto para lançar seu primeiro longa-metragem. Não estava. Porta dos Fundos: Contrato Vitalício tem tantos equívocos, tanta coisa errada, que é difícil defender alguma coisa ali.

O longa conta a história do ator Rodrigo (Fábio Pochart), que vai a Cannes junto com seu amigo e diretor Miguel (Gregório Duvivier). O filme dos dois acaba sendo premiado e, depois de muita bebedeira na festa de encerramento, ambos assinam em um guardanapo um contrato vitalício que diz que Rodrigo participará de todos os filmes dirigidos por Miguel. Só que, na mesma noite, o diretor desaparece misteriosamente.

Com um péssimo agente, papel de Luis Lobianco, Rodrigo segue sua carreira fazendo qualquer título que atraia o público e encha seus bolsos de dinheiro, mas sem poder realizar seu sonho de fazer teatro. Dez anos depois ele volta a Cannes como júri do festival e, ao mostrar o quarto de onde o amigo desapareceu para um jornalista da revista TiTiTi, vivido por Marcos Vera, vê Miguel voltar de dentro do banheiro. Trazendo o tal contrato vitalício, o diretor pretende que o antigo amigo seja o protagonista de um filme onde ele narrará tudo o que aconteceu com ele durante seu desaparecimento.

Além de uma história besta, que dificilmente teria fôlego para um longa-metragem, o que se percebe no filme é que ele está completamente contaminado por aquele modelo de esquete produzido pelo grupo para o YouTube. O que funciona em quadros rápidos não se mantém por 100 minutos. Falta ritmo, falta fôlego, sobram repetições e não existe um envolvimento real com nada daquilo que se vê.

Apostar em personagens extremamente estereotipados e insistir em piadas que marquem ainda mais esse estereótipo é um bom exemplo da falta de noção do meio em que se está trabalhando. O agente, por exemplo, é altamente fofoqueiro e passa o filme todo fazendo variações da mesma piada. O mesmo se aplica ao jornalista de revista de fofoca e à namorada musa fitness de Rodrigo, papel de Thati Lopes, novata no coletivo.

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O caso mais grave talvez seja o do mendigo Luciano, vivido por João Vicente de Castro, que é contratado como assistente de direção do filme absurdo. Além de tudo o que poderia vir de batido em um personagem mendigo que começa a habitar a magnífica casa de um ator de sucesso, acharam engraçado colocar a completa falta de modos com comida. Não uma, mas várias vezes.

E não é só. A vontade de fazer referências a celebridades do showbiz e da internet é tão insistente que muito mais cansa do que consegue fazer rir. O filme perde muito de seu tempo trazendo figuras conhecidas para a tela, como Marília Gabriela, Xuxa, Sérgio Mallandro e até os meninos do Jovem Nerd, porém não alcança qualquer objetivo com isso. O mesmo vale para as referências cinematográficas que deixariam qualquer irmão Wayans com vergonha do que estava vendo.

Até mesmo uma divertida referência à Fátima Toledo, preparadora de elenco famosa por suas técnicas exacerbadas, acaba se perdendo pelo exagero da duração e pela ineficiência, já que só funciona para uma parcela muito restrita do público, mais especificamente o pessoal do cinema, que conhece a fama de Toledo

Até mesmo um diálogo do clássico trash Cinderela Baiana está perdido no meio do roteiro, e é realizado com uma cena que relembra aquela do filme protagonizado por Carla Perez, mas quantos dos fãs de Porta dos Fundos conhecem o filme? E, além disso, pouca gente teve disposição para assistir a Cinderela Baiana até o final.

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Para piorar a experiência, nenhum dos dois atores principais consegue manter seus personagens. Não que os dois não estejam bem, mas é tudo tão superficial e esticado que é difícil manter a atenção nos dois. A única exceção fica com o também novato Rafael Portugal, que vive o vilão do filme de Miguel e sofre com os treinamentos de Denise, a tal preparadora de elenco vivida por Júlia Rabello. De todos, talvez seja o ator mais profissional entre os que estão em cena, embora outros já tenham mostrado suas qualidades em outros títulos.

Indo além do roteiro e das atuações, Porta dos Fundos: Contrato Vitalício ainda se atrapalha na estética do filme. Levando à telonas a mesma câmera pobre dos esquetes do canal, que têm uma mania chata com o foco, o filme deixa a impressão de que simplesmente não precisaria ser visto no cinema. A trilha sonora também é um problema e não consegue se encaixar com o que se vê na tela.

Decepcionante e constrangedor, ao tentar criticar tudo o que hoje em dia vende com facilidade, o primeiro longa-metragem do Porta dos Fundos só comprova a teoria de que, por mais que seja visto e tenha sucesso, precisa de muito feijão e arroz para chegar ao meio do caminho.

No final do filme, quando Miguel fica incomodado com a reação do público na sala de exibição, imaginei Ian SFB assistindo ao seu filme na mesma sala que eu, onde todo o público riu somente uma vez durante toda projeção.

Um Grande Momento:
Ia falar da primeira intervenção da preparadora de elenco. Mas é tão exaustivamente repetitiva, que se perde. Sem grande momento para Porta dos Fundos: Contrato Vitalício portanto.

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