Depois do feriado, ainda sem internet em casa, volto para falar de algo que tem acontecido com freqüência e me incomoda.

Gente que gosta de cinema é o que mais tem por aí. Há cinéfilos para todos os gêneros, nacionalidades e estilos. Tem quem goste de quase tudo e quem não goste de quase nada. Alguns acham legal conhecer um pouco de tudo, outros não entendem como alguém pode gostar de alguma coisa diferente do gosto deles.

Eu sou daquelas que consome tudo que vê pela frente. Do cult ao trash, não costumo fechar a cara a títulos esdrúxulos e encaro programas que têm uma grande probabilidade de dar errado, sempre com alguma esperança. O que vale é estar no cinema, lugar onde sempre me sinto tão bem.

Quando voltei a escrever sobre cinema, com o Cenas de Cinema, a minha presença nas salas de projeção e nos festivais da sétima arte aumentou muito e o número de títulos a ser assistido também, é claro.

Com longas maratonas dentro das salas escuras, resolvi que poderia usar o meu espaço para divulgar a produção nacional, tão pouco divulgada e quase sempre recebida com preconceito (e a pedradas) pelo público em geral.

Tal opção acabou gerando um problema com o público, por mais estranho que isso possa parecer. Durante a cobertura do Festival do Rio mais de uma pessoa me cobrou o fato de eu estar deixando de ver grandes títulos comerciais para falar sobre o cinema nacional e filmes que, provavelmente jamais seriam distribuídos.

Ontem recebi um e-mail reclamando da mesma coisa. Dizendo que essa minha opção pelo cinema nacional estava me afastando dos meus leitores e deixando o Cenas de Cinema “mal especializado”.

Particularmente, acho que o cinema é uma arte democrática, onde todos são livres para ver aquilo que julgam mais interessante, assim como a internet e seus muitos blogues e sites, onde todos podem falar livremente sobre aquilo que acabaram de vivenciar, seja no cinema, no boteco ou em qualquer outro lugar.

Essa liberdade é irreversível, não vai ser modificada por ninguém. Mesmo que digam e provem que a quantidade prejudica a qualidade, ou que, no final das contas, todos falam sobre as mesmas coisas sempre. Que o diga Bastardos Inglórios, capa da maioria dos espaços cinéfilos que existem por aí (incluindo o Cenas) e comentário geral nas rodas de conversa.

Agora se todos podem falar sobre os blockbusters do momento, por que eu não posso falar sobre os lançamentos nacionais? Por que é errado usar o meu espaço para divulgar um trabalho que é feito por pessoas daqui para pessoas daqui?

O cinema nacional de hoje ainda sofre com o preconceito e com a imagem do cinema de tempos atrás, em que era difícil finalizar qualquer projeto audiovisual que não fosse televisivo.

Independente da produção regular e de qualidade dos dias atuais, a dificuldade já começa antes do público, com a distribuição. Enquanto o número de filmes produzido aumente muito, o de espectadores sobe timidamente, não acompanhando nem de longe.

A minha proposta com o Cenas, pretensiosa além da medida para alguns, é justamente tentar provocar a curiosidade dos leitores para o mercado cinematográfico local e, quem sabe, levar as pessoas às salas.

Aquela velha história de valorizar aquilo que é nosso, na qual eu acredito e queria que os outros também acreditassem. Meu ponto de vista, minha escolha. Diferente dos outros, não vou sair por aí agredindo ou acusando aqueles que não querem assistir a filmes brasucas, ou não medem esforços para detonar o que é produzido aqui.

Como disse antes, acho que há espaço para todos e, além disso, milhares de filmes para serem comentados.

Sem deixar de falar do que acontece no resto do mundo, o Cenas vai continuar privilegiando o cinema nacional na hora de escolher cabines ou montar a programação a ser acompanhada nas mostras e festivais.

E isso não é descaso com seus leitores, ou com o cinema que faz sucesso no Brasil. É essa vontade (e quase orgulho) de mostrar que as coisas mudaram no cinema e que existem muitos títulos nacionais que merecem ser reproduzidos e assistidos na sala de projeção.