(Perdão, Mister Fiel, BRA, 2009)

Três meses após a morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI/SP, divulgada como enforcamento suicida pelos militares, morria, em circunstâncias idênticas o operário Manoel Fiel Filho.

No dia seguinte à sua prisão, na fábrica onde trabalhava, por dois homens que diziam trabalhar para a prefeitura, sua esposa foi comunicada de seu suposto suicídio. Na verdade, Fiel fora assassinado, depois de uma dura sessão de tortura, por receber o jornal Voz Operária.

O acontecido fez com que o presidente Ernesto Geisel tomasse uma atitude contra os atos, muito mais pela insubordinação e falta de hierarquia do II Exército de São Paulo do que por sensibilizaão humanista, claro. O afastamento do general Ednardo D’Ávila Melo do comando, três dias depois da morte, é considerado por muitos como o primeiro passo para a abertura política.

À boa história somam-se depoimentos de brasilianistas, defensores de direitos humanos, ex-torturados e presidentes da república, mas é um ex-agente do DOI-CODI, Marival Chaves, que choca ao contar detalhes do funcionamento dos porões. Ele descreve métodos de tortura e de ocultação de cadáver e, citando nomes de vítimas e algozes, assume assassinatos que até hoje tentam esconder.

Se o material é bom e tem muita história para contar, o resultado final não consegue convencer como cinema. Jornalista de longa data, o diretor Jorge Oliveira não consegue se livrar do didatismo e pior, deixa transparecer na tela seu pouco gosto pelo gênero documentário.

Apelando para encenações dos momentos vividos por Fiel e sua família antes, durante e depois de sua morte, o filme se perde. Tudo parece mal ajambrado e desnecessário, ainda que tente, sem sucesso, dar uma linha para o que está sendo contado. O efeito de manter o preto-e-branco e destacar uma das cores não só incomoda, como envergonha.

Alguns depoimentos também poderiam ter ficado de fora, como o de Fernando Henrique Cardoso, que dá uma desculpa para a manutenção do sigilo dos arquivos, Lula e de José Sarney, que fala, fala e termina sem dizer nada.

A trilha sonora escolhida, com uma das mais lentas (e chatas)versões de O Bêbado e o Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, também não foi das mais felizes, assim como os efeitos para transitar entre os depoimentos.

Uma das principais preocupações do filme, válida, é relacionar os golpes militares com a intervenção estadunidense em vários países da América do Sul na época. Mas as coisas parecem estar tão longe de um desenho lógico, tão fora de ordem, que a informação sobra deslocada e menos relevante do que é.

Mesmo com todos os problemas, não há como negar a importância do documentário. É o tipo de filme que vale a pena ver para conhecer mais sobre a história do Brasil e dos países vizinhos e de todo o atraso que a ditadura militar causou à sociedade.

Como uma ferida aberta, que dificilmente cicatrizará, este momento histórico ainda renderá muitos filmes. Mas seria bom se filmes com a proposta, o potencial e o material de Perdão Mister Fiel fossem melhor aproveitados, cinematograficamente, das próximas vezes.

Fora das telas, a comissão de Diretos Humanos do Senado Federal, presidida por Cristóvam Buarque, vai realizar uma audiência pública para discutir o documentário. O diretor Jorge Oliveira e o agente Marival Chaves estarão presentes.

Um Grande Momento

Desmascarando a falsa democracia dos atos de Geisel com falas do próprio.


Prêmios e indicações (as categorias premiadas estão em negrito)

Festival de Brasília
: Filme

Documentário
Direção: Jorge Oliveira
Elenco: Roberto de Martin, Alice Stefãnia, Similião Aurélio
Roteiro: Jorge Oliveira
Duração: 95 min.
Minha nota: 3/10