(Paratodos, BRA, 2016)
Documentário
Direção: Marcelo Mesquita
Roteiro: Peppe Siffredi
Duração: 110 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Apesar do péssimo índice de desenvolvimento e dos graves e conhecidos problemas sociais, o Brasil é considerado hoje uma das grandes potências do esporte paralímpico, ocupando o sétimo lugar no ranking mundial. Às vésperas dos Jogos Olímpicos, que acontecem de 5 a 21 de agosto, e Paralímpicos, de 7 a 18 de setembro, ambos no Rio de Janeiro, o filme Paratodos chega aos cinemas com um pouco da realidade dos paratletas brasileiros.

O longa-metragem, dirigido por Marcelo Mesquita (Cidade Cinza), começa com uma tela preta e uma narração em inglês das raias de uma corrida de atletismo. Pelo que se ouve, o destaque é o corredor sul-africano Oskar Pistorius, que está na raia central. Quando a imagem abre, um estádio iluminado e os créditos avisam que se trata das Paraolimpíadas de 2012, em Londres. O foco está em Pistorius, até então conhecido como o melhor atleta paralímpico de todos os tempos. Depois da largada, segue-se uma corrida espetacular e quem ganha não é o atleta sul-africano, mas sim o brasileiro Alan Fonteles Oliveira.

A emoção da corrida – filmes de esporte sempre podem contar com esse maravilhoso elemento – e um trabalho eficiente de composição gráfica e sonora conquistam o espectador, que conhecerá um pouco da história de nomes de destaque no esporte nacional. Os principais personagens do filme são Therezinha Guilhermina e Yohansson Nascimento (atletismo); Fernando Fernandes e Fernando Rufino (canoagem); o time brasileiro de futebol de 5, e Daniel Dias e Susana Schnardof (natação).

O filme acerta ao não se deixar tomar pelo tom misericordioso e faz com que cada um daqueles atletas sejam vistos muito além de suas deficiências físicas. Não há diferença entre as exigências do esporte e nem entre as frustrações de um mal resultado. A angústia, a insistência e uma batalha constante para se manter no topo e se superar são as mesmas do esporte convencional.

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Porém, o filme acaba desembocando naquele mesmo pieguismo de filmes de esporte, quando o atleta enfrenta algum problema como uma lesão, uma depressão ou algo do tipo. Isso fica claro logo após a apresentação da equipe de atletismo. Quando volta novamente à história de Alan, o homem que derrotou o melhor de todos e é ainda hoje o dono do recorde mundial, o filme não consegue manter-se isento aos problemas de indisciplina e ganho de peso do atleta. Exagera na trilha, nos discursos e nas imagens.

Somar a isso uma sequência de problemas enfrentados pela modalidade, como alguns momentos constrangedores com a equipe americana de Michael Johnson, contratada para ajudar a nata da equipe brasileira em São Caetano; ou os resultados no mundial de Doha, muda o astral do filme.

O problema com a montagem começa com essa divisão quadrada. O filme vai se construindo através das modalidades esportivas e nem sempre encontra um equilíbrio no modo como distribui seus eventos.

Do atletismo, Paratodos vai à canoagem. O filme mostra os treinos de Fernando Fernandes, faz uma breve retrospectiva da vida do ex-BBB e aborda um dos mais graves problemas dos paraesportes de maneira geral: a classificação funcional, etapa onde são definidas as categorias em que os atletas competirão, de acordo com suas limitações físicas. As provas são o ponto alto da sequência.

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Depois é a vez do futebol de 5, onde os jogadores têm problemas de visão. A modalidade é interessantíssima e, como todo esporte em grupo, tem seus pontos em comum com tantos outros, além de ser o mais próximo do esporte que é a grande paixão nacional. Porém, falta emoção ao que se imprime na tela nesse momento.

Para finalizar, o filme vai para o parque aquático, onde temos o atleta de maior destaque nos esportes paralímpicos, Daniel Dias. Nas últimas edições dos jogos, Dias conquistou 15 medalhas, 9 em Pequim (2008) e 6 em Londres (2012), estas últimas todas de ouro. Há, mais uma vez, o mesmo problema na distribuição dos eventos. Se o começo é extasiante com a disputa entre Daniel e o chinês Junquan He na prova dos 100 m costas em Pequim, e com a sua história de vida, o final é vazio e pouco emocionante.

Poderia ser um filme mais equilibrado em sua composição estética e utilizar-se de uma técnica mais apurada, mas vale muito pela pesquisa, que acompanhou os atletas por quatro anos. Além do mais, é muito interessante conhecer um pouco de uma de nossas melhores representações no esporte mundial e os atletas por trás desse sucesso. Dificilmente as pessoas param para olhar para os esportes paralímpicos e Paratodos talvez abra essa porta para a curiosidade de todos.

Um Grande Momento:
A primeira prova.

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