(The Hateful Eight, EUA, 2015)

Comédia
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, James Parks, Dana Gourrier, Zoë Bell, Gene Jones, Keith Jefferson, Craig Stark, Belinda Owino, Channing Tatum, Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Duração: 167 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Para filmar seu oitavo filme, Quentin Tarantino teve uma ideia interessante: inspirar-se em seu primeiro filme, Cães de Aluguel, e transferi-lo para a ambientação do último, o western Django Livre. Com uma história que quase foi abandonada depois do vazamento do primeiro roteiro, Os Oito Odiados mantém muitas das características do cineasta, que, sem abandonar o ego, continua sabendo transpor toda a sua cinefilia às telonas.

O filme, dividido em capítulos tem uma longa e bela introdução, embalada por uma trilha sonora familiar e com uma imagem que enfeita os créditos iniciais. Logo em seguida, somos apresentados aos personagens. De maneira gradual e lenta, seguindo a estrutura capitular, chegamos até o local onde todos estarão confinados por algum tempo, devido ao mau tempo.

Como sempre, Tarantino compõe diálogos afiados e mistura em um mesmo ambiente figuras de diferentes origens étnicas e sociais, demonstrando de forma muito clara o preconceito e, mesmo que com ares e jeito de tempos idos, fotografando a sociedade atual. Lá estão a mulher, o negro, o imigrante, o xerife, o cowboy, o mercenário, o velho coronel e o inglês, entre outros.

Por toda a primeira parte, o que se vê é uma longa discussão entre aquelas pessoas que não têm mais nada a fazer a não ser se enfrentar verbalmente. O excesso de texto, de qualidade ímpar diga-se de passagem, não flui de maneira fácil para o espectador, que chega ao meio da projeção cansado com aquilo que está vendo. Até que acontece a primeira explosão catártica, comum nos filmes do diretor. Após ela, fade e a espera ansiosa pelo próximo capítulo espanta qualquer cansaço.

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Se a primeira parte reunia uma série de referências ao cinema de western, com menções mais explícitas ao período das diligências, o segunda parte é uma grande subversão de tudo que se viu até então. O diretor muda a maneira narrativa, intrometendo-se na história, já que ele quem dá voz ao narrador; apela para algumas facilidades difíceis de engolir, tanto no roteiro como no uso de flashback, e parte para as referências aos filmes de terror. Daquele estilo mais slasher, onde os banhos de sangue são esperados, assim como em toda a sua filmografia.

É na explosão violenta que o filme consegue chegar mais longe, mas não sem deixar para trás algumas facilidades que não combinam com toda a obra do cineasta. Conhecido por seus roteiros, embora aqui faça um bom trabalho, não há como fechar os olhos para a facilidade com que as coisas chegam ao ponto desejado. É como aquela reviravolta forçada que tentam justificar todo o filme e, quase nunca, funcionam. Para piorar, temos aqui o único problema de atuação do filme. Mas não falarei mais sobre isso para não atrapalhar o filme de ninguém.

Para guiar o seu caminho, o diretor convidou o compositor Ennio Morricone para compor a trilha sonora. A trilha, muito bem elaborada, porém, não consegue casar de maneira genuína com o filme. Claro que alguns momentos são de acertos, como as imagens da abertura, do crucifixo sob a neve da terrível nevasca que se aproxima e a referência a O Enigma de Outro Mundo, com trilha também composta pelo italiano, antecipando, de certo modo, o que virá a seguir, como no filme de Carpenter. Mas não é algo que acontece sempre.

Entre os desacertos, há, obviamente, muitas qualidades. Tarantino sabe fazer cinema e tem uma das mais desejadas qualidades de um diretor: ele sabe como conduzir seus atores. Em um filme onde oito pessoas estão confinadas em uma casa, não há sobreposição de personalidade e todos têm a oportunidade de expor seu personagem, sem protagonismos. Até mesmo os excessos caem bem, como no caso de Jennifer Jason Leigh, incrível como a prisioneira Daisy Domergue.

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Como esperado, Samuel L. Jackson e seu Major Marquis Warren, Kurt Russell e seu John Ruth, Tim Roth e seu Oswaldo Mobray e Michael Madsen e seu Joe Gage chegam exatamente onde o diretor, e antigo parceiro, deseja que cheguem. E estão muito bem acompanhados por Demián Bichir, como o mexicano que toma conta do armarinho.

De Django Livre, Tarantino traz ainda Bruce Dern, que, como o General Sandy Smithers, não tem um papel onde possa explorar toda a sua qualidade, e Walton Goggins, como o xerife ainda não empossado, que compõe seu personagem num crescente impressionante.

Usando o processo Ultra Panavision 70, a qualidade visual do filme é, como Tarantino desejava, impressionante e tem uma função diferente aqui. Se explicita a beleza das tomadas externas, deixa o experiência em tomadas internas detalhista, minuciosa. Mas, o que funciona muito bem no momento mais intimista do filme, acaba causando um efeito indesejado, como se, em meio a tanto texto, coisas demais a serem vistas extenuassem o espectador.

Longe de ser um filme ruim, Os Oito Odiados ganha muitos pontos com a irreverência do diretor, o brilhantismo das atuações, a excelente crítica social e a já conhecida qualidade audiovisual, mas resta frustrado. É o peso da expectativa que o próprio Tarantino construiu em torno de seu nome, que não permite que alguém ou alguma coisa chegue de repente para transformar toda a história. Ao contrário, espera que tudo flua de maneira natural até seus banhos de sangue e afins.

Um Grande Momento:
O.B. voltando para o armarinho.

Oscar-logo2Oscar 2016 (indicações)
Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh)
Melhor Fotografia (Robert Richardson)
Melhor Trilha Sonora (Ennio Morricone)

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