(Os Inquilinos, BRA, 2009)

Atualmente a humanidade convive o tempo todo com várias mazelas sociais. A violência urbana, a pedofilia e o preconceito, entre outros, ainda que causem indignação, se tornaram tão banais que é prática comum fechar os olhos a tudo que acontece à volta. Fingir que tudo isso pertence a um mundo que não é o nosso não é correto, mas é mais fácil.

Superando o habitual exagero e a bizarrice, Sérgio Bianchi reaparece mais tranquilo, contido e realista para relatar a incoerência da falta de atitude perante a insatisfação dos que convivem em um Brasil em colapso social.

A ironia é facilmente percebida nos diálogos e acontecimentos e toma forma na figura do inerte Valter, vivido por Marat Descartes. Este pai de família trabalha como repositor de frutas sem carteira assinada e vê sua vida virar de cabeça para baixo depois da chegada do trio de vizinhos marginais e arruaceiros.

Sem conseguir dormir por causa dos barulhos das festas noturnas, com medo daquelas pessoas desconhecidas e pressionado pela esposa, que não quer os filhos crescendo vendo aquilo, ele precisa tomar uma atitude, mas mesmo ameaçando tomar várias providências, tem uma dificuldade de realizar alguma coisa.

A ilusão de viver em um mundo ideal nada parecido com o real, a transmissão da culpa e a dificuldade de ver as coisas por qualquer outro prisma são trabalhadas de forma competente pelo diretor, que acha espaço para falar até de música e televisão.

A erotização infantil também é questionada. Enquanto a filha do casal, uma criança vestida e maquiada como mulher, é erotizada dentro da própria casa dançando É o Tchan e tendo acesso a cenas impróprias da novela, e se torna alvo de pedófilos, sua mãe só consegue ver problemas na permanencia de mulheres na casa dos vizinhos até altas horas da noite.

E muitas outras questões são levantadas. O preconceito contra a favela, de onde os filhos não podem se aproximar, como se todos os perigos só estivessem ali, e a falta de limites das crianças de hoje em dia que, em uma cena específica podem ser muito mais perigosas do que os vizinhos que moram ao lado.

Cada uma das ironias chega ao espectador como um tapa na cara pois, de um jeito ou de outro, demonstra o modo como cada um vive a realidade do mundo de hoje e incomoda justamente por ser tão presente assim nas casas brasileiras.

Com um bom roteiro e um personagem principal bem construído, com várias nuances e apelo, o filme ainda tem alguns graves defeitos, como, por exemplo, não resistir à facilidade dos delírios oníricos que nada acrescentam à trama e o exagero de algumas passagens.

Mas funciona e, bem ou mal, tem algo a dizer. Merece atenção por tratar de um tema sempre superficialmente abordado, pois é muito mais fácil falar do problema em si do que de como ele é encarado pelos que sofrem com ele.

Um Grande MomentoA mãe contando para o filho como o pai machucou a testa.

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Drama
Direção: Sérgio Bianchi
Elenco: Marat Descartes, Ana Carbatti, Umberto Magnani, Lennon Campos, Andressa Néri, Cássia Kiss, Ana Lucia Torre, Caio Blat, Leona Cavalli, Zezeh Barbosa, Sergio Guizé, Ailton Graça, Sidney Santiago
Roteiro: Beatriz Bracher
Duração: 103 min.
Minha nota: 7/10