Com o final do ano, pipocam, por todos os lados, os balanços de 2009. Entre retrospectivas e comentários, as listas têm sempre um lugar privilegiado, mas como é difícil fazê-las. Depois de assistir centenas de filmes, cada um com um astral e disposição diferentes, é quase um suplício reduzir tudo em uma lista de “os dez mais”.

Enquanto alguns filmes subiam e outros desciam, títulos eram lembrados como indispensáveis e entravam na lista, mas tiravam outros que não poderiam faltar. Depois de muito pensar, lembrar, sentir e, em alguns casos, rever, acabei chegando a uma conclusão.

10. Gran Torino (Gran Torino, 2008. Dir. Clint Eastwood)Ao se despedir da carreira de ator, Clint Eastwood não guardou forças. Com um personagem ranzinza e durão ele trouxe de volta às telas várias características de antigos conhecidos vividos por ele e conseguiu fazer um retrato do que são os Estados Unidos hoje em dia. Ainda que não seja perfeito, o filme é uma despedida sensacional.

9. Star Trek (Star Trek, 2009. Dir. J. J. Abrams)Confesso que jamais pensei que um filme como Star Trek estaria em qualquer top meu. Não que eu não goste, mas as produções para o cinema da franquia não costumam ser dignas de menções do gênero. Ainda seria assim se eu não tivesse saído tão surpresa da sessão do último título, assinado pelo produtor de sucesso J. J. Abrams. Um roteiro interessante, bons efeitos visuais e sonoros e uma fidelidade ao que já conhecíamos daquele universo mudaram a cara da franquia.

8. Bem-Vindo (Welcome, 2009. Dir. Philippe Lioret)O cinema francês é um dos meus favoritos e teve um bom ano em 2009. Entre os muitos títulos que chamaram minha atenção, Bem-Vindo foi aquele que falou mais alto. O ritmo da trama é eficiente e as atuações são responsáveis pela força desta cativante história de um imigrante ilegal que quer arrumar uma maneira de viver o seu amor e faz de tudo para isso.

7. Up – Altas Aventuras (Up, 2009. Dir. Pete Docter e Bob Peterson)Com a Pixar no mercado, a gente sempre tem que deixar um lugar na lista separado para uma animação. Pode até ser que não seja preenchido, mas as chances disso acontecer são poucas. Neste ano era impossível deixar de fora a história do velhinho solitário que resolve fazer uma adiada viagem usando a própria casa e muitos balões de gás. Com atrativos para crianças, adolescentes e adultos, impossível não se render à primeira parte do filme, que é poesia pura.

6. (500) Dias Com Ela ((500) Days of Summer, 2009. Dir. Marc Webb)Ao apostar em uma linguagem informal para contar uma história que não é aquela que estamos acostumados a ver por aí, o diretor de videoclipes Marc Webb conseguiu transmitir o seu recado. O conto de (não) amor conseguiu levar um monte de gente às salas de cinema e conquistou com suas idas e vindas.

5. Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009. Dir. Kathryn Bigelow)A grande surpresa do ano veio com um filme de guerra. Eu não gosto do gênero e, como a distribuidora no Brasil, menosprezei seu lançamento. Depois do burburinho lá fora, resolvi que estava na hora de ver do que se tratava. Seco e simples, o filme traz para dentro de casa a guerra do Iraque e, o melhor, sem julgamentos e sem patriotismo, humanizando tudo aquilo que já sabemos que acontece em um campo de batalha.

4. Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009. Dir. Quentin Tarantino)Bastardos Inglórios não pode ficar de fora desta lista por vários motivos. A qualidade técnica de Tarantino chega aqui ao seu auge e em cada referência, demonstra o amor do diretor pelo cinema. Além disso, traz à tona aquela vingança histórica que ninguém tinha tido a coragem de filmar até então. Com boas atuações e um ótimo roteiro, o filme foi todo um grande acerto.

3. Anticristo (Antichrist, 2009. Dir. Lars Von Trier)Embora muita gente tenha odiado Anticristo, para mim é a melhor tradução audiovisual da devastação da perda de um filho. A loucura crescente, a punição e uma culpa pesada chegam tão perfeitas na tela que custam a deixar a cabeça de quem assiste ao filme. Sem falar em toda a qualidade de Lars Von Trier, presente em cada detalhe.

Palavra (En)Cantada2. Palavra (En)Cantada (Palavra (En)Cantada, 2008. Dir. Helena Solberg)No ano dos documentários musicas, nada mais justo do que separar a segunda colocação para o filme que me fez voltar às salas várias vezes com companhias diferentes, de várias idades e até nacionalidades. Ao levar para telas a relação entre a música e a poesia, Palavra (En)Cantada conversou com seu público.

1. Deixe Ela Entrar (Lat den rätte komma in, 2008. Dir. Tomas Alfredson)Ainda que muitos filmes tenham falado alto à minha pessoa, nenhum chegou perto da surpresa que tive com este belo título sueco. Ainda que não seja perfeito, o filme é de uma sensibilidade ímpar e consegue contar tão bem a história da vampirinha e de seu novo amigo que merece o primeiro lugar da lista.

Claro que a restrição em dez títulos acaba sendo injusta, já que muitos outros mereciam estar aqui. Pelo menos outros dez não listados merecem menções honrosas. É o caso dos dramas O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married); Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road), Gigante (Gigante) e Os Falsários (Die Falscher); da ação sul coreana O Caçador (Chugyeogja); das comédias Se Beber, Não Case (The Hangover) e Trovão Tropical (Tropical Thunder); dos biográficos Inimigos Públicos (Public Enemies) e Grupo Baader Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex) e o excelente documentário nacional Cidadão Boilesen (Cidadão Boilesen).

Para ficar de olho

Uma das vantagens de cobrir festivais é que entre tantas coisas vistas, estão aquelas que têm um grande potencial de chamar a atenção do público e que ficam na cabeça da gente por tanto tempo que queremos sempre ver mais de uma vez.

Estes são aqueles títulos que me interessaram e ainda não entraram em cartaz nos cinemas brasileiros, mas merecem ser vistos assim que possível. Os escolhidos foram:

10. Maradona (Maradona, 2008. Dir. Emir Kusturica)

Uma figura como Maradona só poderia mesmo ser filmada por outra figura: Emir Kusturica. O diretor bósnio até viaja mais do que precisava, mas traz o Maradona tão pra perto da gente que vale o ingresso.

9. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus, 2009. Dir. Terry Gilliam)

Só por ser o último filme de Heath Ledger, essa história maluca de um homem que proporciona viagens por sua imaginação promete levar muita gente ao cinema, mas foi o tom a la As Aventuras do Barão Munchausen que garantiu o lugar na minha lista.

8. Os Famosos e os Duendes da Morte (Os Famosos e os Duendes da Morte, 2009. Dir. Esmir Filho)

Ser adolescente já é difícil, imagine se for morando em uma cidadezinha do interior gaúcho sem perspectivas e ainda tentando entender o suicídio da namorada. O visual do drama é de tirar o folêgo e fica difícil resistir à viagem.

7. Natimorto (Natimorto, 2009. Dir. Paulo Machline)

Nem todo mundo gosta de entrar no universo fantástico criado por Lourenço Mutarelli, mas aqueles que mergulham de cabeça vão adorar o novo filme sobre o encontro de dois fumantes inveterados bem maluquinhos.

6. Mau Dia para Pescar (Mal Día para Pescar, 2009. Dir. Álvaro Brecher)

Um cinema que tem me deixado curiosa é o uruguaio. Este filme, um western diferente sobre a decadência, a ilusão e o passar do tempo foi uma grata surpresa. Atenção para o trabalho dos atores, sensacional.

5. Deadgirl (Deadgirl, 2008. Dir. Marcel Sarmiento e Gadi Harel)

O melhor deste filme de terror sobre dois adolescente que descobrem o corpo de uma garota em um antigo hospital é que são os humanos ainda vivos que assustam muito mais do que qualquer evento sobrenatural.

4. Antes Que o Mundo Acabe (Antes Que o Mundo Acabe, 2009. Dir. Ana Luiza Azevedo)

Só por ser um filme infanto-juvenil brasileiro, a história de um menino que descobre o amor e um pai perdido pelo mundo já merece a menção. Ser a estréia na direção de Ana Luiza Azevedo também ajudou.

3. Mother (Madeo, 2009. Dir. Joon-Ho Bong)

O cinema sul-coreano vem chamando minha atenção há algum tempo e Mother é mais um exemplo de que devemos mesmo conferir o que há de novo por lá. Essa é “só” uma das melhores histórias sobre o amor materno que eu já vi.’

2. O Segredo dos Seus Olhos (El secreto de sus ojos, 2009. Dir. Juan José Campanella)

Se existe alguém que consegue tratar qualquer assunto com delicadeza, é Campanella. A mistura das histórias de um amor não realizado e de um estupro seguido de morte é o melhor exemplo disso.

1. A Fita Branca (Das weisse Band, 2009. Dir. Michael Haneke)

Em uma viagem visualmente estonteante e proporcionalmente angustiante, conhecemos as raízes do nazismo. Se Haneke já conseguia passar seu recado, aqui ele surpreende.

Alguns outros títulos interessantes que ficaram de fora são os brasileiros Mangue Negro, Sequestro e A Falta Que Nos Move, o canadense Eu Matei a Minha Mãe e o chileno Malta com Huevo.

Os curtas do ano

Os festivais também são ótimos para conhecermos um pouco mais sobre a produção de curtas-metragens nacionais, já que o acesso a estes pequenos filmes é tão complicado por aqui.

Apesar da safra ter sido inferior à de outros anos, entre os nomes que chamaram minha atenção estão:

10. Pra Inglês Ver, de Vitor Granado e Robson Dias
A estranha exploração do turismo nas favelas do Rio de Janeiro e como ela pode ser humilhante para uns e lucrativa para outros.

9. Olhos de Ressaca, de Petra Costa
A história de um amor de muitos anos, que sobreviveu ao tempo e ainda está ali.

8. Amigos Bizarros do Ricardinho, de Augusto Canani
Ricardinho era uma figura estranha, mas muito mais estranhas eram as histórias de seus amigos.

7. Ernesto no País do Futebol, de André Queiroz e Thaís Bologna
Um menino argentino se muda para o Brasil com os pais e tem que sobreviver aos efeitos da antiga rixa entre os dois países com os colegas da escola.

6. Ave Maria ou a Mãe dos Sertanejos, de Camilo Cavalcante
A poesia das seis horas da tarde, a hora da Ave Maria, no sertão nordestino.

5. O Teu Sorriso, de Pedro Freire
Um casal maduro, recém-apaixonado, passa os dias se amando como se fossem dois adolescentes.

4. DoceAMARgo, de Rafael Primot
Após um acidente, um casal espera pelas surpresas da vida.

3. A Invasão do Alegrete, de Diego Müller
Uma brincadeira, fruto da antiga rixa entre duas cidades vizinhas do Rio Grande do Sul, causa a maior confusão.

2. Josué e o Pé de Macaxeira, de Diogo Viegas
A velha história de João e o Pé de Feijão é recontada com símbolos e músicas bem característicos do sertão nordestino.

1. Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho
Uma mudança climática muda a rotina dos moradores da antes ensolarada cidade do litoral de Pernambuco.

O que não precisava

Agora que já falamos dos melhores, está na hora de listar aqueles que não precisavam ter existido. Entre os muitos títulos, os menos necessários do ano foram:

10. Dragonball Evolution (Dragonball Evolution, 2009. Dir. James Wong)
Adaptação envergonhante de desenho japonês.

9. Lua Nova (New Moon, 2009. Dir. Chris Weitz)
Mais um capítulo da série sobre adolescentes que fingem ser vampiros, não gostam de mulher e sofrem com a falta de camisa dos lobisomens.

8. Anjos e Demônios (Angels & Demons, 2009. Dir. Ron Howard)
Adaptação fraca (e mutilada) de um livro também fraco.

7. Surpresas do Amor (Four Christmases, 2008. Dir. Seth Gordon) Filme besta de Natal que não consegue resistir a uma escatologia.

6. Dois em Um (La personne aux deux personnes, 2008. Dir. Nicolas Charlet e Bruno Lavaine)
Brincadeirinha com mortos e encarnações que não funciona.

5. O Dia em Que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 2008. Dir. Scott Derrickson)
A história de um alienígena com cara de parede que está na Terra para destruir tudo.

4. Sete Vidas (Seven Pounds, 2008. Dir. Gabriele Muccino)
Mais um dos enaltecedores filmes em que Will Smith tenta salvar todo mundo.

3. Humanos (Humains, 2009. Dir. Jacques-Olivier Molon e Pierre-Olivier Thevenin)
Terror francês que tenta assustar, mas só consegue fazer rir.

2. Recém-Chegada (New in Town, 2009. Dir. Jonas Elmer)
História batida e sem graça que ainda consegue ser prejudicada pelo excesso de plásticas da protagonista.

1. Transformers: A Vingança dos Derrotados (Transformers: Revenge of Fallen, 2009. Dir. Michael Bay)
Muitos efeitos, muitos personagens, muitas histórias e um conjunto completamente vazio.

Outros que também me decepcionaram foram Halloween – O Início, Um Ato de Liberdade, Donkey Xote e Budapeste. Isso sem falar naqueles que de tão ruins, nem ficaram registrados.