(O Silêncio do Céu, BRA, 2016)
Suspense
Direção: Marco Dutra
Elenco: Leonardo Sbaraglia, Carolina Dieckmann, Chino Darín, Alvaro Armand Ugon, Mirella Pascual, Roberto Suárez, Paula Cohen
Roteiro: Sergio Bizzio, Caetano Gotardo, Lucía Puenzo
Duração: 102 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

O silêncio e a paralisia, juntos em um momento de gravidade incalculável. O silêncio dela, justificável, compreensível e, infelizmente, mais real do que deveria. A paralisia dele, abjeta, imperdoável. O Silêncio do Céu, novo filme de Marco Dutra (Quando Eu Era Vivo), centraliza sua ação em torno de um estupro. De difícil digestão, sem dúvida, atordoa o espectador, que não consegue desgrudar os olhos da tela até descobrir o que acontecerá.

Mario e Diana acabaram de retomar o casamento, interrompido por dois anos. Ele é roteirista e ela, estilista; ele é medroso, ela segura, eles têm dois filhos e vivem em Montevidéu. Como era a relação dos dois nunca se saberá, já que o filme faz um recorte muito específico depois do evento traumático que muda a vida do casal.

Dutra sabe muito bem o que quer mostrar e traz o incômodo dos dois personagens para fora da tela, ao expor, logo na primeira cena, a violência da qual Diana é vítima. O nojo e a raiva com o que se vê aumentam quando o ponto de vista é assumido por Mario, protagonista do filme, que segue a linha de homens fracos tão trabalhada pelo diretor.

Dentre os acertos de Dutra está a opção de contar a história por um viés onde um diretor homem é capaz de abordar, sem exageros e equívocos, a violência sofrida por uma mulher. Diferente, por exemplo, de Santiago Mitre em seu filme Paulina, não há em O Silêncio do Céu uma tentativa de se introjetar em uma mulher e entender ou explicar suas escolhas. Há a escolha, há a posição, mas há também a liberdade e a não indução a explicações.

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Outra coisa que chama muita atenção é como o diretor trabalha bem a tensão. Sem grandes pirotecnias, Dutra vai construindo o ambiente sem pressa e, entre pausas e prolongamentos, cria um universo psicologicamente claustrofóbico. O magnetismo desta construção é impressionante. E as opções usadas por ele não são as mais fáceis. A aposta em um off que complementa a construção do protagonista poderia colocar tudo a perder, mas a não obviedade faz com que tudo caminhe bem.

A ajuda do elenco também não pode ser ignorada. Leonardo Sbaraglia (Relatos Selvagens) é um ator incrível e consegue desenvolver muito bem o seu papel. Carolina Dieckmann (Entre Nós) também não faz feio com sua contida e magoada Diana. O jogo de silêncio dos dois é quase insuportável de tão angustiante.

Porém, o desequilíbrio entre as histórias, principalmente após o desprotagonismo forçado e excessivo também é um problema. A partir deste ponto, o off de um outro personagem só traz o que já havia sido descoberto pelo público antes. Mesmo que se queira esclarecer algo, ou que se sinta a falta da visão do lado, a ideia não é executada de maneira eficiente.

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Há ainda algo mais sério. Uma sensação incômoda acompanha todo o filme. Não são as atuações, a estética ou o ritmo impresso pelo diretor. A questão por trás do filme é trabalhada de forma natural, mesmo com a pancada do início, ela se desenvolve sem pressa. Até que se estabeleça, porém, a repulsa pelo protagonista já afastou alguns da trama, assim como o uso da violência contra a mulher para contar a história de um homem.

É como se Marco Dutra tivesse criado um ambiente completamente favorável, mas o “não trabalhar” o tema, fundamental para a construção do filme, é tão indigesto que afasta e compromete a experiência. Num jogo de causa e efeito, o que há de interno é desorganizado pelo que aquilo causa dentro de cada um que acompanha o filme.

Mas, ainda assim, O Silêncio do Céu é um suspense competente, que consegue sustentar muito bem sua tensão e causar o incômodo esperado.

Um Grande Momento:
“Vamos entrar?”

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