Mais polêmica. Não bastasse tudo o que havia por trás da questão política contra a manifestação do elenco de Aquarius em Cannes e o mal sucedido boicote ao filme de Kleber Mendonça Filho, ou a presença de um crítico que invalidaria toda uma comissão escolhida por um órgão de um governo também contestado, a coisa tinha que ter desdobramentos ainda mais estranhos.

Com duas integrantes fora da reunião, Carla Camurati e Adriana Rattes, o que não poderia acontecer, o filme escolhido para representar o Brasil no Oscar foi Pequeno Segredo. Nada que surpreendesse muito dada aquela velha mania de achar que um filme precisa ter “cara de Oscar” para ser enviado à Academia. O melodrama, inspirado na família do diretor David Schurmann, conta a história de sua irmã adotiva, soropositiva.

Tudo certo se o filme não estivesse completamente fora das regras da premiação em Hollywood. Explicando: para ser elegível, um filme precisa estrear no circuito brasileiro até o mês de outubro e permanecer em cartaz por pelo menos uma semana. A estreia de Pequeno Segredo foi marcada por sua distribuidora, a Diamond Filmes, para novembro deste ano.

O que tiraria o filme da disputa, porém, foi relevado e abriu espaço para aquele jeitinho brasileiro. A distribuidora antecipou a estreia para o dia 22 de setembro, mas não em todo Brasil. O filme será exibido em uma sala pequena, de uma cidade pequena, continuando sem ser visto por ninguém mas, ainda assim, sem perder sua elegibilidade.

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Os outros só poderão ver o longa em pré-estreia, ou seja lá que nome eles deem a isso agora, no Festival do Rio, onde o filme, segundo o diretor, foi convidado a participar e, talvez, na Mostra de São Paulo. Ou seja, em meio a um monte de filmes inscritos, entre eles Campo Grande e Chatô, o Rei do Brasil, o escolhido para representar o Brasil no Oscar foi um que apenas a comissão de seleção assistiu e que nem estreou ainda. É surreal, para dizer o mínimo.

Campanha estranha

Mas não é só isso. Aliás, nada é só isso nessa história. Há todo um jogo esquisito do diretor para legitimar a escolha de Pequenos Segredos. Com uma movimentação frenética em sua página pessoal, David Schurmann defendeu seu filme como o mais perfeito para a Academia. Citou estrangeiros que viram o filme, amaram e se dispuseram a fazer a campanha lá fora; discutiu com internautas e por aí vai.

Em entrevista ao site AdoroCinema, falou que o filme está sofrendo preconceito e que, desde uma exibição secreta em Berlim, já sabia que ele podia estar entre os finalistas do Oscar. Em cada nova entrevista, novas pessoas que viram – em sessões privadas ou diversas cabines misteriosas – e amaram. Na página oficial do filme, ao serem questionados sobre resultados estranhos em votações de enquetes públicas, afirmaram que o número está muito próximo do real já que houve cabines e no set de filmagem havia mais de 600 pessoas.

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O que seria surreal só por computar as pessoas presentes no set fica ainda mais estranho quando se sabe que os críticos do país, desde o mais conhecidos até os que estão começando agora, não assistiram ao filme. Só com muita ginástica, com um segredo muito bem guardado, para fazer com que nenhum jornalista tenha estado nas cabines ou nas outras exibições do filme.

Desaparecidos

Mas e se Shurmann for um diretor promissor, ou alguém com uma carreira consolidada? Não é. Diretor de documentários sobre a própria família, ele tem um longa de ficção em sua filmografia, quase não citado nas recentes entrevistas. Trata-se do terror Desaparecidos, uma tentativa frustrada de ser o Bruxa de Blair tupiniquim que não funciona hora nenhuma.

Porém, isso não é suficiente para falar de Pequeno Segredo. Ele pode ser diferente de tudo e pode mesmo ser o que a comissão – ou pelo menos a parte que o escolheu – está falando, mas também pode ser o exagero melodramático que Alcino Leite Neto, um dos poucos a ver o filme após a indicação, escreveu na Folha de S.Paulo. É impossível saber sem ver e é impossível julgar. Mas será que escolher um filme que fosse menos secreto não seria mais legítimo?