(The Master, EUA, 2012)

Drama
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Jesse Plemons, Ambyr Childers, Rami Malek, Patty McCormack, Laura Dern
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Duração: Duração 144 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Raros são os cineastas na atualidade que podem ostentar o adjetivo “obrigatório” em cada nova estreia. Certamente é o caso de Paul Thomas Anderson, um dos poucos realizadores verdadeiramente autorais do cinema norte-americano. Responsável pelos excelentes Jogada de Risco, Boogie Nights – Prazer Sem Limites, Magnólia, Embriagado de Amor e Sangue Negro, o diretor parece não esgotar a fonte de originalidade e competência técnica filme após filme. Em O Mestre, sua mais recente obra, não é diferente.

Escrito e dirigido pelo cineasta, o longa ambientado nos anos 50 conta a história de Freddie Quell (Joaquim Phoenix), um jovem que, após lutar a Segunda Guerra Mundial, parece incapaz de se adaptar novamente à sociedade. Sem rumo e em busca de sexo e trabalho, ele acaba invadindo o barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), figura singular e carismática que se apresenta como escritor, físico nuclear e filósofo. Dodd é líder de uma seita chamada “A Causa”, que promete curar seus membros de doenças e outros males através da regressão a vidas passadas pela hipnose. Desenvolvendo uma relação de afeto com o problemático Freddie, Dodd parece adotá-lo como um filho, o que acaba por abalar a estrutura da organização religiosa e gerar conflitos entre o “mestre” e sua família, sobretudo com a esposa Peggy (Amy Adams).

As ideias propagadas por Lanscaster Dodd aos seguidores da Causa em muito se assemelham à doutrina de L. Ron Hubbard, escritor de ficção científica que, na mesma época retratada pelo filme, fundou a Cientologia: religião famosa pelas celebridades de Hollywood que a frequentam, como Tom Cruise e John Travolta. Em sua obra “Dianética: O Poder da Mente Sobre o Corpo”, Hubbard defende a ideia de que é possível acessar e curar traumas de vidas passadas, que podem regredir a trilhões de anos no passado (isso mesmo!), mas que afetam a vida presente. É o mesmo discurso do personagem de Seymour Hoffman, que aliás caracteriza um Lancaster Dodd muito parecido fisicamente com Hubbard.

Ator-fetiche de Paul Thomas Anderson, Seymour Hoffman justifica a indicação para o Oscar de ator coadjuvante com a inspirada interpretação de um homem culto e carismático, capaz de enfeitiçar e atrair inúmeros seguidores insatisfeitos com suas vidas, perdidos ou desorientados, mas que tenham bastante dinheiro para destinar à Causa, seita que se torna a cada dia mais rica e vigorosa.

Também indicada ao Oscar de atriz coadjuvante está Amy Adams, intérprete de Peggy, uma esposa dedicada mais ao culto que ao marido. Determinada a destruir os inimigos da Causa, Peggy entende muito bem o negócio do qual faz parte. Como é típico nos filmes de Anderson, é a mulher forte que detém o controle da situação. Um grande trabalho de Adams, que em suas cenas aparece o tempo todo grávida ou com um bebê no colo.

Nos filmes de Paul Thomas Anderson os atores brilham. Com o diretor, atores medianos como Tom Cruise e Adam Sandler tiveram as melhores atuações da carreira, respectivamente em Magnólia e Embriagado de Amor. Isso para não falar do Oscar de Daniel Day-Lewis por Sangue Negro e de tantas outras indicações em festivais do mundo afora para atores e atrizes. Pode-se compreender então a terceira indicação de O Mestre ao Oscar deste ano, a de Joaquim Phoenix para melhor ator.

Indicado ao papel pelo companheiro de cena Philip Seymour Hoffman, Phoenix sempre foi um grande intérprete, mas em O Mestre a sua performance beira à perfeição. É impressionante a densidade psicológica deste personagem que, por mais que se dedique à Causa, não consegue se adaptar e parece estar sempre às margens do enlouquecimento. Em uma caracterização complexa e estilizada, o ator concebe um indivíduo totalmente desconfortável com o mundo em que vive. Isso é demonstrado não somente pelas ações do sujeito alcoólatra, viciado em sexo e emocionalmente descontrolado, mas pela impressionante consciência corporal de Phoenix, que interpreta um Freddie Quell absolutamente desajustado em seus ombros curvados, dentes cerrados e roupas tortas.

Seymour Hoffman e Phoenix garantem alguns dos melhores instantes do filme em suas interações. Se em um primeiro momento o interesse de Lancaster Dodd por Freddie Quell parece ser apenas o de testar novos métodos de cura que vem desenvolvendo, posteriormente percebemos que Quell é um espelho de Dodd. O homem controlado e bem instruído que arrebata membros endinheirados com seus ensinamentos místicos se assemelha cada vez mais ao discípulo. Se Quell é alcoólatra, Dodd parece viciar na bebida caseira que o personagem de Phoenix faz. Freddie é também compulsivo por sexo, mas é Dodd que é pego pela esposa masturbando-se no banheiro. Da mesma forma, se vemos ao longo do filme os constantes surtos de Quell, assistimos também a Dodd agredindo verbalmente uma de suas discípulas em um acesso de fúria quando esta questiona um de seus ensinamentos.

As ambiguidades e relações de poder entre os dois personagens são brilhantemente abordadas nas imagens de Anderson. As câmeras próximas demais nos planos de Dodd fazem com que o guru cresça frente aos discípulos, enquanto Quell é visto constantemente de forma isolada em suas aparições, ainda que esteja em companhia de outras pessoas. Há ainda planos brilhantes, como o que mostra ambos presos em celas vizinhas, ressaltando simultaneamente as personas mais comuns de cada um: o controle mascarado de Dodd e o descontrole impulsivo de Quell, ainda que neste ponto do filme saibamos que tais comportamentos não dizem respeito a um ou a outro, mas a ambos.

Sempre assertivo na direção de arte e competente na fotografia, o filme de Anderson é ainda preciso na reconstrução de época. Fundamental para o sucesso e compreensão da história contada, assim como acontecera em Boogie Nights, que se passava nos anos 70, O Mestre retrata um período de ascensão burguesa frente à crise que tomava os EUA no pós-guerra. Outro aspecto técnico importante é a forte contribuição da trilha sonora de Johnny Greenwood, guitarrista da banda Radiohead, repleta de harmonias e timbres estranhos para indicar o desajuste do personagem de Joaquim Phoenix, estratégia já utilizada pelo diretor para retratar os protagonistas de Embriagado de Amor e Sangue Negro.

Paul Thomas Anderson é um mestre em retratar a sociedade contemporânea, ainda que em um filme que se passe na década de 50. A Causa não é apenas uma representação ficcional da Cientologia. Ao abordar o nascimento de um grupo religioso sempre presente nas revistas de fofocas, o autor não busca tecer uma simples crítica a uma seita exótica propagada por celebridades não menos estranhas que o discurso cientológico. Anderson vai além e tece um diagnóstico preciso de uma sociedade pós-iluminista e cada vez mais vazia de significados, em que os velhos valores e crenças não mais dão conta de uma busca sem fim por transcendência e significância.

As velhas estratégias místicas não mais exercem a influência de outrora, e ressurgem na forma de novas denominações espirituais, gurus e seitas, que constituem um produto cada vez mais rentável em um mundo capitalista e midiático. O Mestre constitui uma experiência triste e incômoda, não somente por seus méritos artísticos, mas por insistir em nos lembrar do mundo em que vivemos.

Um Grande Momento:
A primeira sessão de Freddie Quell e Lancaster Dodd.

O-Mestre

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