(The Book of Eli, EUA, 2010)

Ficção Científica
Direção: Albert Hughes, Allen Hughes
Elenco: Denzel Washington, Gary Oldman, Jennifer Beals, Mila Kunis, Ray Stevenson, Lora Martinez, Luis Bordonada, Tom Waits, Frances de la Tour, Michel Gambon, Malcolm McDowell
Roteiro: Gary Whitta
Duração: 118 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

“O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade, para salvaguardar sua própria natureza, isto é, sua própria vida. E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um… daí resulta que, nessa situação, cada um tem direito sobre todas as coisas, mesmo até o corpo dos outros… Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos, não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança…”

No parágrafo acima extraído do capítulo XIV do “Leviatã”, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) expõe o chamado “estado de natureza”, ou seja, qualquer situação em que não há um governo que estabeleça a ordem. Mas também descreve com precisão o universo pós-apocalíptico idealizado pelos gêmeos Albert e Allen Hughes em O Livro de Eli, o novo filme dos diretores de Do Inferno.

Em um mundo futurista devastado pela guerra, os poucos humanos restantes vivem em condição de absoluta miséria e luta permanente pela sobrevivência. A água é um dos mais raros e disputados bens sobre a terra, e um simples xampu possui o status de tesouro.

Latrocínio, estupro e canibalismo são riscos constantes para qualquer desavisado, e matar para não morrer é necessidade básica. Como descrito por Hobbes, o único direito humano nesse cenário é o “natural”, aquele que cada um tem de usar o seu poder para se auto-preservar e satisfazer seus desejos. Aqui não existe Estado e o homem é o lobo do homem (“homo homini lupus”).

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É nesse universo que Denzel Washington protagoniza o longa na pele de Eli, um andarilho muito bom de briga que acredita possuir a divina missão de guardar o último exemplar da Bíblia do Rei James (primeira tradução inglesa do livro sagrado, realizada em 1611 para a Igreja Anglicana).

Guiado por uma voz misteriosa, Eli não mede esforços para cumprir seu objetivo de levar o livro que porta para o Oeste, uma espécie de terra prometida onde sobreviventes do apocalipse zelam pela reconstrução do mundo e preservação de sua herança cultural. Nesse sentido o título do filme tem significado duplo, já que em árabe, hebraico e aramaico, a palavra Eli pode ser empregado como uma variante para o nome de Deus.

Com uma faca bem afiada e considerável estoque de armas de fogo, Eli é um herói virtuoso e um dos últimos crentes em Deus do planeta. Apesar disso, não carrega qualquer culpa por trucidar bandidos ou qualquer um que se interponha em seu caminho. Mas não sem antes proferir alguns versículos do Gênesis ou do Salmo 23 para suas vítimas que pacientemente esperam que termine seu discurso religioso antes de atacá-lo.

“Maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás. (Gênesis 3:17-19)”. E segue a chacina para que Eli faça pó dos inimigos.

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No cenário desértico de um futuro pós-apocalíptico, repleto de máquinas motorizadas e armas de fogo, impossível não lembrar de Mad Max, o clássico de ficção científica australiano que marcou época nos anos 80. Apesar da clara referência ao filme que revelou Mel Gibson, o roteiro segue a lógica dos velhos filmes de western, em que público acompanha a jornada do herói até que um evento de grandes proporções mude tudo.

E isso ocorre quando Eli chega a um vilarejo repleto de bandidos armados e mocinhas subjugadas. É lá que ele conhece Carnegie, mais um vilão caricato interpretado por Gary Oldman entre tantos já vividos em sua carreira. Além de ser o dono do bar e manda-chuva do local, Carnegie emprega uma série de capangas que passam a maior parte do tempo buscando um livro tido como extinto: a Bíblia, que considera uma arma e não somente um livro.

Segundo o limitado argumento que o roteiro tenta fazer parecer convincente, todas as Bíblias do mundo foram destruídas após a grande guerra que vitimizou o planeta, já que o livro teria sido o responsável pelo holocausto da humanidade. Carnegie acredita que se conseguir encontrar um exemplar restante do livro sagrado, poderá dominar com facilidade toda a população.

Se funciona como crítica de todo e qualquer uso da religião como forma de dominação em um mundo de guerras santas e extremismos, padres pedófilos e pastores gananciosos, “Bushes” e “Osamas”, é difícil crer que o livro mais vendido e lido do mundo possa estar extinto em 30 anos, e sobretudo que todos os exemplares tenham sido queimados por “saberem de seu poder”, segundo as palavras do vilão.

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De qualquer forma serve de mote para o conflito entre o herói, uma espécie de missionário divino que luta artes marciais e nunca perde uma briga ou é alvejado em um tiroteio, e o antagonista mau-humorado e cheio de capangas que consegue reunir todos os clichês de vilões do cinema em um só personagem. A abordagem maniqueísta com que cada personagem faz uso da “palavra de Deus”, além das muitas cenas de ação com pouco conteúdo descrevem bem o que se vê nos 118 minutos de filme.

As inconsistências do problemático roteiro de Gary Whitta persistem ao longo da projeção. Difícil encontrar explicações para o fato de uma jovem personagem que não sabe nada sobre o mundo de antes da guerra conseguir dirigir com desenvoltura um caminhão que caiu em suas mãos após um acidente. Ou ainda por que Eli ruma com seu livro para o Oeste “há 30 verões” e ainda não conseguiu chegar ao seu destino.

Também não falta a metáfora ecológica politicamente correta de um futuro próximo em que o homem já não dispõe dos recursos naturais necessários para sua subsistência, o que se evidencia em uma das falas de Eli: “descartávamos coisas que agora lutamos por elas”.

Mas não só de personagens de rasa complexidade e ocorrências previsíveis o roteiro é composto. Há bons momentos, principalmente quando sustentados pelo talento de alguns dos atores.
Destaque para a chegada de Eli ao vilarejo e a divertida interação entre ele e o Engenheiro, interpretado pelo músico Tom Waits. Sem que exista mais dinheiro no mundo, o diálogo mostra como o sistema comercial passou a ser baseado em escambo. Produtos como isqueiro, brinquedos e óleo de gato entram nas negociações para que o Engenheiro possa prestar um serviço fundamental a Eli: carregar o seu iPod.

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Frances de la Tour e Michel Gambon também foram escalados para assegurar uma dose intencional de comicidade nos papéis de Martha e George, dois simpáticos velhinhos que acabam se revelando mais perigosos do que as aparências indicavam. Ao som de “Ring My Bell”, canção de Anita Ward que Martha coloca na vitrola, o casal consegue garantir algumas risadas em uma situação que beira o surrealismo.

O elenco de apoio conta ainda com Jennifer Beals (protagonista de Flashdance e musa na década de 80) no papel de Claudia, escrava de Carnegie, além da bela ucraniana Mila Kunis (de That 70’s Show), que, com muito charme e pouca habilidade como atriz, interpreta Solara, a filha de Claudia, que acaba se tornando uma improvável parceira para Eli.

Vale menção a participação especial de Malcolm McDowell, eterno protagonista do clássico Laranja Mecânica, nas cenas finais do longa.

Mas sem dúvida os maiores méritos do filme residem no aspecto técnico. Christopher Burian-Mohr em sua direção de arte detalhista não deixa passar informações importantes, tomando cuidados como a presença de cadáveres em locais abertos e fissuras no cenário desértico para indicar que uma grande guerra teria ocorrido por lá.

O figurino de Sharen Davis, baseado em filmes de faroeste, acerta ao retratar as pessoas sujas e mendigas que participam de um universo tão carente em recursos, mas exagera no excesso de estilo. É como se estar atualizado com as últimas tendências da moda fosse algo muito importante no miserável e selvagem mundo pós-apocalíptico retratado.

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Já a ótima fotografia do renomado Don Burgess se revela bastante versátil. A paleta dessaturada e poeirenta busca evidenciar a miséria e destruição para proporcionar um tom realista, mas há a sensação de que cada buraco no cenário, lugar destruído ou roupa esfarrapada foi colocada de forma absolutamente intencional, o que acaba por reforçar a artificialidade que a direção de arte busca combater.

Apesar do aspecto monocromático encontrado na maior parte do filme, há interessantes momentos de variação em sua composição, como na cena de briga em contraluz ou ainda quando Eli encontra abrigo em uma casa abandonada, uma boa fotografia captada na penumbra.

Para os fãs de boa ação, as cenas de luta não decepcionam. Denzel Washington, que estudou técnicas marciais com Dan Inosanto, discípulo de Bruce Lee, dispensou dublês participando de todas as bem coreografadas brigas do filme. Merece destaque ainda uma ótima tomada de tiroteio em plano-seqüência que é um dos melhores momentos do filme.

É possível identificar também um caótico caldeirão de referências no longa, muitas delas desnecessárias e que não contribuem diretamente para o enriquecimento da obra. Apesar da clara inspiração no gênero western, há por exemplo uma redundante cena em que um dos capangas de Carnegie assobia o tema de Era Uma Vez na América, composto por Ennio Morricone para o célebre diretor de filmes de faroeste Sergio Leone.

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E não faltam inserções de cultura pop no filme. Entre os livros desprezados por Carnegie estão “O Código Da Vinci”, “Dicionário Oxford” e revista da Oprah. O próprio personagem aparece em uma cena lendo a biografia de Mussolini, uma gratuita alusão ao estilo fascista do vilão. Temos ainda a aparição de cartazes de velhos clássicos do cinema, como Laranja Mecânica e Anjos do Inferno, bem como uma citação de Johnny Cash por Eli quando tenta explicar sobre a força que lhe permite seguir adiante.

Mais preocupado com o merchandising de produtos como KFC, Motorola, Volks e Apple (marcas que milagrosamente sobreviveram ao apocalipse) do que em contar uma boa história, O Livro de Eli é capaz de frustrar os amantes de ficções científicas elaboradas, ao mesmo tempo que deve agradar aos entusiastas de um cinema mais voltado às cenas ação.

O elevado padrão técnico observado destoa fortemente do roteiro preguiçoso, o que faz do filme apenas mais um entre tantos outros de bom potencial desperdiçado.

Um Grande Momento:

Cena em que Eli, após encontrar abrigo em uma casa abandonada, cuida de sua higiene pessoal e alimentação enquanto escuta a canção “How Can You Mend a Broken Heart”, de Al Green, em um iPod encontrado no local. Uma bela composição em planos fechados que mostra de forma detalhista e cuidadosa o cotidiano de um andarilho solitário como ele naquele mundo hostil, ao mesmo tempo que remete às lembranças de como era o mundo antes da guerra apocalíptica.

“Eu lembro dos dias mais jovens quando vivo minha vida.
Era tudo que um homem poderia desejar fazer.
Eu não conseguia ver o amanhã, e nunca me contaram sobre o sofrimento.
Eu ainda posso sentir a brisa sussurrando através da árvores.
E as lembranças nebulosas dos dias que se foram.
Nós nunca conseguíamos ver o amanhã, ninguém disse uma palavra sobre o sofrimento.”

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