(Saul fia, HUN, 2015)

Drama
Direção: László Nemes
Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont, Jerzy Walczak
Roteiro: László Nemes, Clara Royer
Duração: 107 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Após a Primeira Guerra e, logo depois, com a depressão econômica que seguiu o crash da bolsa americana, a Alemanha foi se afundando financeiramente. Não havia empregos, dinheiro, faltava comida. Era, então, o momento ideal para a criação de um líder e a seleção de um inimigo.

O líder, como todos sabem, foi Adolf Hitler. Os inimigos, os judeus. Organizadamente, na Alemanha e nos territórios conquistados, judeus eram identificados e muitos eram levados aos campos de concentração, onde eram submetidos a trabalhos forçados, experimentos médicos e eliminados. Estima-se que mais de seis milhões de judeus foram mortos no período.

A história da perseguição e eliminação já esteve diversas vezes no cinema. Filmes como A Lista de Schindler, A Vida É Bela, O Pianista, O Menino do Pijama Listrado e outros reconstituem a época e o horror dos campos. O húngaro O Filho de Saul também, mas de uma maneira bastante diferente da usual.

Lázló Nemes busca a aleatoriedade em seu longa-metragem de estreia, personalizando, de certo modo, a experiência de cada uma daquelas pessoas no horror. Isso fica muito bem representado no início do filme, com o foco anterior, que aguarda a entrada de alguém. Essa pessoa que entra em foco é Saul, que corre para fazer algo, mas poderia ser qualquer outro.

O personagem faz parte do Sonderkommando, grupo de prisioneiros selecionados que trabalhava para os alemães enterrando os corpos de prisioneiros mortos, fazendo a limpeza das câmaras de gás e recolhendo os pertences preciosos dos executados. Como o serviço era sigiloso, o grupo tinha certa regalia e era mantido isolado de outros prisioneiros. Após um tempo, era também executado.

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Ao abordar o funcionamento do Sonderkommando, Nemes consegue já incomodar de começo, por mostrar que, mesmo cumprindo ordens, prisioneiros trabalhavam na execução de seus iguais. Com Saul, quase sempre em primeiríssimo plano, acompanhamos o dia-a-dia do local através dessa pessoa que também, de certo modo, é uma engrenagem na automatização da morte.

Quase tudo o que se vê é pelas reações do protagonista, e o que acontece de verdade chega de maneira menos clara, em segundo plano, desfocada. O espectador vê mais ou menos o que se passa no local. Pessoas se despindo, gritos apavorados, a porta que se fecha e uma correria do grupo que estava de fora. É nesse “não ver” que está a grande diferença de O Filho de Saul de qualquer outro filme sobre o holocausto.

Some-se a isso a opressão já adiantada pela janela de exibição (o formato de filmagem é o Academy Ratio, 1.37:1) e a falta de distanciamento que planos mais abertos possibilitam. Quem assiste ao filme está com Saul o tempo todo, quase dentro dele. E a imersão é facilitada pela expressividade de Géza Röhrig, ator que dá vida ao papel.

Porém, embora ouse no modo de retratar aquele mundo e cause todo esse efeito no espectador, a história de O Filho de Saul não acompanha a mise-en-scéne. Compreende-se a tentativa de Saul em achar um objetivo nobre em meio ao caos que vive, principalmente levando-se em conta o que precisa fazer para sobreviver, mas não se cria uma conexão verdadeira com a história contada.

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O choque está presente – pela reconstituição de todo um sistema quase automatizado de matar, pela hierarquia absurda criada entre os próprios judeus que ali trabalhavam e pela falta de humanidade -, mas não pela história de Saul. O que não deixa de ser interessante, mas reduz o valor do filme enquanto narrativa.

Apesar dos pesares, O Filho de Saul chega para mostrar que o cinema é uma arte de possibilidades infinitas, por mais que um tema pareça estar esgotado, sempre há um modo completamente diferente de filmá-lo.

Um Grande Momento:
Revirando as roupas.

Oscar-logo2Oscar 2016 (indicações)
Melhor Filme em Língua Estrangeira

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