Era uma vez um público variado, que lotava salas de cinema para ver de tudo, desde dramas e suspenses intrincados até o desenho animado mais bobo, ou aquele filme catástrofe que seria esquecido momentos depois da projeção. De uns 30 anos para cá esse público vem desaparecendo, sendo substituído ao poucos pelo público de um gênero só, ou quase.

Os relatórios de bilheterias anuais demonstram bem a migração do grande público para filmes de apreensão rápida, com muitos efeitos especiais e, principalmente, uma falta de criatividade sem precedentes. Estimulados pelo fenômeno, os produtores seguem abrindo seus cofres para levar mais super-heróis e continuações de sucesso para as telonas, ganhar mais dinheiro e produzir mais desse cinema fast food. Um ciclo sem fim.

Acontece que ninguém aguenta comer lanche com gosto de isopor a vida inteira e acaba preferindo fazer outra coisa longe do cinema, liberando as salas para uma faixa etária específica, a mesma que no futuro vai sair de fininho. Essa migração, somada às facilidades de acesso aos filmes, via tv, internet e outras mídias, já começa a ser sentida nos Estados Unidos, o país que mais produz e ganha dinheiro com cinema até hoje. A diminuição progressiva do público pagante, de dois anos para cá, tem preocupado os produtores que, sem perceber o que realmente está acontecendo, saem em busca de novos quadrinhos adaptáveis e franquias que permitam sequências infinitas.

O que pensar, por exemplo, quando analisamos a lista dos maiores blockbusters de todos os tempos e constatamos que entre os vinte primeiros filmes que mais arrecadaram no mundo somente dois, até o momento, não são parte de nenhuma franquia: Titanic, que, dada a quantidade versões extendidas e 3D que vão e voltam dos cinemas, só não tem sequências por que é historicamente impossível, e Alice no País das Maravilhas, que é a adaptação de uma história já levada ao cinema várias vezes? E não pára por aí. Desses mesmos vinte, somente Avatar, líder absoluto de público com uma arrecadação de mais de dois bilhões de dólares, é baseado em um roteiro original, ainda que seja uma versão interplanetária de Pocahontas.

Além de comprovar a capacidade de seu diretor, James Cameron, em fazer rios de dinheiro, Avatar também faz parte de outra classificação dessa mesma lista: é o primeiro de uma série, já com duas continuações previstas. As adaptações de livros Harry Potter e a Pedra Filosofal e Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros estão juntos com ele, com a décima primeira e a décima oitava maiores bilheterias de todos os tempos, respectivamente.

Nada contra esses filmes, que, a seu modo, têm sua qualidade artística e indubitavelmente inovaram a técnica cinematográfica, mas fica difícil não formar coro com André Barcinski quando, em sua coluna do dia 28 de fevereiro, pergunta o que aconteceu com o público que lotava as salas para ver filmes como Perdidos na Noite.

Ah, George, você aqui de novo?

Se os rios de dinheiro gerados por Tubarão, de Steven Spielberg, são apontados como o começo da derrocada, eu faço questão de apontar o meu dedo para um outro senhor: George Lucas. Amigo íntimo daquele outro mas menos qualificado artisticamente, o homem que repudiava alterações nos filmes mas não se cansa de ganhar dinheiro com as que faz em uma mesma história, foi quem provou ao mundo que séries de filmes podem ser muito rentáveis.

O primeiro ano do resto de nossas vidas foi 1980. A sequência de Guerra nas Estrelas, O Império Contra Ataca, estreava em mais de mil salas e teve um rendimento duas vezes maior do que o segundo colocado naquele ano, a comédia Como Eliminar seu Chefe. Naquele ano: completando os dez filmes de maior bilheteria nos EUA, estavam as comédias Loucos de Dar Nó e Recruta Benjamin; o drama O Destino Mudou sua Vida; duas sequências: Desta Vez Te Agarro e Punhos de Aço – Lutador de Rua, e três títulos piloto (que tiveram sequência): Apertem os Cintos o Piloto Sumiu, Os Irmãos Cara-de-Pau e Lagoa Azul. Isso tudo na frente de filmes como Gente como a Gente, O Iluminado, O Homem Elefante e Vestida para Matar que também tiveram bilheterias significativas.

Os títulos mais assistidos do resto da década comprovam o começo da supremacia das trilogias e afins: somente três filmes, E.T. – O Extraterrestre, Top Gun e Rain Man não eram parte de uma série de filmes. Mas nem tudo estava perdido, filmes como Num Lago Dourado, Tootsie, Laços de Ternura e Atração Fatal ainda conseguiam emplacar o segundo lugar em seus anos de lançamento.

Uma mina de ouro chamada Pixar

Os primeiros anos dos anos 90 pareciam estar fadados a percorrer o mesmo caminho, com Esqueceram de Mim e Exterminador do Futuro 2 encabeçando as listas de bilheteria de 1990 e 1991, respectivamente. E teria mesmo sido assim nos primeiros anos da década se a Disney não resolvesse retomar sua produção de filmes em 2D e se a Pixar não tivesse aparecido.

Ainda que com o cinema mais voltado para o público infanto-juvenil, que é o principal pagante de hoje em dia, as duas produtoras – que vêm trabalhando juntas desde então – eram uma alternativa eficaz aos filmes sequênciais. Assim, em 1992 o desenho animado Aladdin conseguiu bater Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York e Batman – O Retorno em público pagante. Em 1994 foi a vez da Pixar, com seu Toy Story ficar em primeiro lugar, na frente de Batman Eternamente. Neste mesmo ano, Pocahontas, o quarto filme mais visto, também superou Ace Ventura – Um Maluco na África. O terceiro lugar do ano ficou com Apollo 13.

Marcando presença entre as maiores bilheterias da década, a dupla parece ter causado algo mais na configuração do público que, por algum motivo, voltou a olhar para filmes mais adultos e preferiu assistir a Forrest Gump e aos catastróficos Independence Day, Twister (primeira e segunda bilheteria de 1996), e Titanic, mas sem ignorar o desenho O Rei Leão e os primeiros episódios Homens de Preto e Missão: Impossível, que mantiveram bons lugares na lista de rendimentos.

Um homem de carisma

Protagonista de Forrest Gump, Tom Hanks também esteve em Apollo 13, foi o responsável pela voz do cowboy Woody em Toy Story e talvez tenha sido o ator mais carismático da década, até ser substituído por Will Smith. Filmes com o ele sempre têm um retorno bom, como fica bem explícito na década de 90. Além dos títulos já citados, ele também esteve presente em Sintonia de Amor e Filadélfia, quinto e décimo segundo filmes mais vistos de 1993.

O segundo filme do ator a desbancar continuações e desenhos foi O Resgate do Soldado Ryan, lançado em 1998. Este ano, especificamente, foi diferente em todos os sentidos dos que vieram até então. Numa década em que títulos passageiros e facilmente assimiláveis deixaram para trás pérolas como Melhor É Impossível e Um Sonho de Liberdade, ter um ano com apenas dois filmes em série (Doutor Doolittle e Rush Hour) e um desenho animado (Vida de Inseto) entre os mais vistos, chama a atenção. Mesmo que junto com eles venham outro monte de filmes-catástrofe e comédias bobas.

Mas tudo não passou de um desvio no caminho da vaca rumo ao brejo e uma preparação para o retorno do pai de todos, nosso velho conhecido, o Sr. George Lucas. O responsável pela maior bilheteria de 1999, com a sequência, que na verdade não era sua sequência e sim uma prequência, daquela mesma história que ele gosta de contar: Star Wars – Episódio I: A Ameaça Fantasma. O filme superou de longe o público de O Sexto Sentido, Toy Story 2 e o primeiro Austin Powers e Matrix.

Depois de mais uma passagem de Lucas pelas estatísticas, o ano de 2000 foi quase um resumo do que aconteceu e uma prévia do que estava por vir. Teve de tudo um pouco nas dez maiores bilheterias. Filme infantil: O Grinch; Tom Hanks: O Náufrago; sequência: Missão Impossível 2; biografia: Gladiador; comédia romântica: Do Que as Mulheres Gostam; catástrofe: Mar em Fúria; comédia de costume: Entrando Numa Fria; super-heróis: X-Men, paródia besteirol: Todo Mundo em Pânico e terror: Revelação. Claro que alguns deles tiveram não só uma, mas várias continuações.

Histórias sem fim

Reparem que com a chegada dos anos 2000, mais um paradigma pôde ser quebrado. Com a revisita a Guerra nas Estrelas, Lucas mostrou ao mundo que pensar em trilogias era muito pouco, já que uma história pode sempre ser aproveitada até a última gota. Se fossem baseadas em grandes séries de livros, melhor ainda.

Em 2001, entre as dez maiores bilheterias, só Pearl Harbor não é parte de uma franquia e não foi feito para o público infantil. Entre os lançamentos do ano estavam os primeiros episódios de séries de filmes que durariam mais de dez anos no cinema ou que, fiéis à origem, não se preocupavam muito com a estrutura de início, meio e fim, já que o filme seguinte sanearia os problemas. Claro que estou falando de Harry Potter e a Pedra Filosofal e O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, primeira e segunda maior arrecadação, respectivamente.

Daí pra frente nada mais segurou a vontade de ganhar dinheiro fácil dos produtores e os números após o nome só foram aumentando. Histórias que facilitavam continuações e séries de livros e gibis começaram a ser procuradas avidamente para garantir bilheteria, fazendo o caminho inverso até mesmo ao preconizado pelo guru Lucas. A lógica deixou de ser “uma boa história tem que ser esgotada até o final” e deu lugar à filosofia “ache alguma fonte que nunca seque”.

Dos filmes mais vistos nos últimos anos, só mesmo Avatar é baseado em um roteiro original e nem ele escapou da maldição das franquias. Seguindo a lista, filmes com super-heróis como Homem-Aranha, que liderou a bilheteria em 2002 e 2007, e Batman, em 2008, com O Cavaleiro das Trevas; o encerramento da saga O Senhor dos Anéis, em 2003, com O Retorno do Rei; as animações e continuações Shrek 2, em 2004, e Toy Story 3, em 2010; o encerramento da segunda trilogia Star Wars, com A Vingança dos Sith, em 2005; o terceiro, mas não último Piratas do Caribe, com O Baú da Morte, em 2006; e, para encerrar, em 2011, a segunda parte do último capítulo do bruxinho Harry Potter, As Relíquias da Morte.

Isso olhando por cima, porque qualquer olhada mais demorada detecta que o problema está cada vez mais grave. Como explicar, por exemplo que de todos os filmes que estiveram entre os dez mais vistos de 2001 até hoje, com exceção das animações, só sete não sejam refilmagem, versão ou parte de alguma franquia? Dá até para começar o entender o sucesso que alguns filmes bem fracos como Um Sonho Possível conseguem fazer, ou mesmo a popularidade dos desenhos animados.

O lado positivo

Obviamente que o cinema, como arte, perde muito com a crise que assola a produção americana, mas muita coisa antes ignorada começa a ser descoberta pelo público. A falta de uma diversão mais séria abre espaço para produções independentes e acaba forçando visitas a gêneros menos populares, como o documentário. Além de permitir que títulos estrangeiros sejam conhecidos, já que produções não-americanas não têm mais que competir de igual para igual com o que vem de lá.

No Brasil, diferente dos EUA, o público só vem aumentando de 2008 até os dias de hoje, mesmo que o preço do ingresso seja salgado. Os grandes blockbusters, essas versões todas e títulos infanto-juvenis citados anteriormente, ainda são os que atraem a maior parte do público por aqui também, mas é interessante notar o espaço que os documentários vêm ganhando nas salas de todo o país. Não é raro ver filmes do gênero nos grandes complexos de cinema e o público saindo da sala satisfeito com o que acabara de ver.

Mas não foi só o mercado de documentários aqui que mudou. O público de cinema nacional, de maneira geral, também cresceu significativamente. Se em 2001 as produções nacionais levaram 6,9 milhões de espectadores às salas, em 2011 o número foi de 17,8 milhões de pagantes. Isso sem considerar o ano de 2010, quando o lançamento de Tropa de Elite 2, maior sucesso de bilheteria no Brasil, levou mais de onze milhões de pessoas ao cinema e fez o balanço final do ano fechar em 25,6 milhões. Mas, reparem, era uma sequência.

Fontes: IMDb, Mojo e Filme B