(O Céu Sobre os Ombros, BRA, 2010)

Documentário
Direção: Sérgio Borges
Elenco: Everlyn Barbin, Edjucu Moio, Murari Krishna, Grace Passô
Roteiro: Sérgio Borges, Manuela Dias
Duração: 71 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆
Quantas pessoas existem dentro de uma mesma pessoa? Quantas dessas “pessoas internas” são criações próprias para suportar a rotina exterior a que todos estão sujeitos? Questões como essas fazem parte da vida e estão relacionadas ao que há de mais profundo no ser humano.

O longa ganhador do Festival de Brasília de 2010, O Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges, não chega para responder perguntas e nem tentar entender as questões fundamentais da existência. Com beleza ímpar e muita segurança em cada uma de suas imagens, o filme simplesmente ilustra essa capacidade de multiplicidade do ser humano, que por ser social se torna muitos e não só recebe, como transmite entre vários grupos aquilo que conhece e é.

Seguindo uma tendência do novo cinema nacional, Borges aposta no formato de docudrama, onde o documentário que se confunde com a ficção, numa linha imperceptível para quem acompanha a trama em um passeio entre cenas marcadas e discursos reais e cenas naturais e silêncios calculados.

Sem preocupações com começo, meio e fim, a narrativa acompanha situações cotidianas na vida de três personagens reais: a transexual Everlyn Barbin, acadêmica, professora e prostituta; o escritor deprimido Edjucu Moio, pai amoroso e filósofo, e o atendente de telemarketing Murari Krishna, seguidor do movimento hare krishna, skatista e líder de uma das torcidas organizadas do Atlético Mineiro.

Os personagens riquíssimos e, pode-se dizer, verdadeiros achados do diretor Sérgio Borges, já seriam suficientes para despertar a curiosidade dos espectadores, mas a chance de se perder no muito que cada um representava ou tinha a dizer era grande. A montagem precisa de Ricardo Pretti, que junto com seu irmão Luiz e os primos Pedro Diógenes e Guto Parente dirigiu filmes como Os Monstros e Estrada para Ythaca, não deixa que isso aconteça.

Belíssimas imagens de Ivo Lopes Araújo (O Grão), diretor de fotografia, ora se bastam, ora se mesclam aos fortes textos de Barbin e Moio, criando uma trama que passeia por questões como a afetividade, a espiritualidade, a intelectualidade e a própria humanidade.

Fundamental para os estudiosos da psicologia social ou amantes das teorias do trio Vygotsky, Luria e Leontiev, O Céu Sobre os Ombros também é indicado para aqueles que, mesmo sem intenções acadêmicas, procuram entender o ser humano em toda a sua complexidade, principalmente quando podem fazê-lo diante de uma obra de arte tão bela.

Um Grande Momento

Everlyn falando da família.

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