Ao longo de suas 35 edições, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o cinema brasileiro passaram juntos pela terrível crise que acometeu a produção nacional. Os poucos números dos piores tempos vem gradualmente mudando, assim como a qualidade do que é visto nas telonas da cidade durante o evento.

Acompanhando essa mudança mudança radical de realidade e apoiando fortemente o produto daqui, a seleção traz, este ano, mais de 70 títulos nacionais para o público e promete surpreender. Tem para todos os gostos. Filmes que se arriscam em gêneros pouco explorados, muitos documentários, títulos com cara de sucesso fácil e algumas recuperações históricas se misturam na programação.

Contando a nossa história

Muitos dos selecionados este ano são documentários. Explorando figuras específicas da nossa história, períodos vividos e temas inesgotáveis, vemos o cinema retratar aquilo que é, na verdade, o que somos todos nós, brasileiros.

Marco na construção do que hoje chamamos de pátria e ferida de difícil cicatrização, o golpe militar de 64 e a ditadura estão bem presentes na Mostra. Com direito a cópia restaurada de Cabra Marcado para Morrer, clássico de um de nossos maiores documentaristas, Eduardo Coutinho, de 1984, que conta a história do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado, a perseguição a seus familiares e o cerco militar ao engenho da Galiléia.

Quase todos os títulos passam pelo tema. Alguns o abordam de forma mais específica como Marighela, de Isa Grinspum Ferraz; Soldados a Caminho do Puteiro – Memórias de uma Guerra Quase Imaginária, de Hermes Leal, e, de certo modo, Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat.

Outras questões políticas também são tratadas. É o caso da polêmica construção da Hidrelétrica de Belo Monte, presente em À Margem do Xingu – Vozes Não Consideradas, de Damià Puig; o desmatamento da floresta amazônica, em Osmarino Amâncio: Filho da Floresta, de Adelino Matias e Emiliano Leal; e a questão indianista em Cartas do Kuluene, de Pedro Novaes.

Outros retratos do povo brasileiro podem ser vistos em Fora do Figurino, de Paulo Pélico, e em Olhe Para Mim de Novo, de Kiko Goifman e Claudia Priscilla. Um pedacinho de nossa geografia tembém é explorado em Hollywood no Cerrado, de Armando Bulcão.

Um país musical

Gênero que anda ganhando as salas de cinema, inclusive no circuito comercial, e vem agradando aos fãs, o documentário musical não poderia ser mais adequado ao que conhecemos de nossa história. Como diz Vladimir Carvalho, tudo nosso sempre tem algo de musical. E é um pouco do que diz Eduardo Coutinho também com o seu As Canções, selecionado para a Mostra.

Maior festa do mundo, o carnaval é a cara do Brasil, assim como o samba, sua música original. Filmes como Carnival no Meu Quintal, de Alex Miranda; Vai Vai: 80 Anos nas Rua, de Fernando Capuano, e Coração do Samba, de Thereza Jessouroun provam isso.

O samba também é o assunto principal de A Alma Roqueira de Noel, de Alex Miranda, que homenageia Noel Rosa, um dos maiores compositores da MPB. Outros homenageados são o ícone do rock nacional, o Maluco Beleza, em Raul – O Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho, e o musicista Marcelo Yuka, mais uma vítima da violência urbana, em Marcelo Yuka no Caminho das Setas, de Daniela Broitman.

Além da música, outras formas de arte também estão presentes. O cinema, em Making Of – Tropa de Elite 2, de Alexandre Lima; a poesia, em Bruta Aventura em Verso, de Letícia Simões; o teatro, em Mentiras Sinceras, de Pedro Asbeg; as artes plásticas, em Um Domingo com Frederico Morais, de Guilherme Coelho, e até o desenho de humor, com Malditos Cartunistas, de Daniel Garcia e Daniel Paiva.

Nestre ano, Cuba aparece bastante nas realizações documentais selecionadas, como em Cuba Libre, de Evaldo Mocarzel; Carta para o Futuro, de Renato Martins, e Construção, de Carolina Sá. De um pouco mais longe está o retratado em Sobre Futebol e Barreiras.

Do lado menos real

Se a seleção de documentários está muito bem elaborada, o mesmo pode ser dito dos filmes de ficção escolhidos. Muitos já vistos em outros festivais do país, os filmes não poderiam ser mais variados e vão desde a história do retrato do fundador da nação uruguaia, Artigas, de Cesar Charlone, até Amanhã Nunca Mais, de Tadeu Jungle, uma espécie de versão do delicioso Depois de Horas, de Martin Scorsese.

Uma seleção especialíssima de filmes restaurados da época da chanchada e dos nossos grandes estúdios também foi feita e conta com Carnaval Atlântida (1952), de José Carlos Burle; de Carlos Manga, Matar ou Correr (1954), Nem Sansão, Nem Dalila (1954) e O Homem do Sputnik (1959), e O Puritano da Rua Augusta, de Amácio Mazzaropi (1963). Mais recente, Xica da SIlva, de Cacá Diegues (1976) também ganha sessões de sua cópia restaurada.

Direto do Festival do Rio chegam Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca, que acabou de levar o troféu redentor de melhor atriz (Camila Pitanga); Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, de Julia Murat; Girimunho, de Clarissa Compolina e Helvécio Martins Jr.; Os 3, de Nando Olival, e Sudoeste, de Eduardo Nunes.

O vencedor do Festival de Brasília em 2010, O Céu Sobre Seus Ombros, de Sérgio Borges, também tem seu lugar garantido. Assim como o longa mais popular dos últimos festivais, O Palhaço, de Selton Mello, e o coletivo Mundo Invisível, produzido pelo saudoso Leon Cakoff, fundador e organizador da Mostra e que conta com a participação de renomados diretores.

Centro de Gravidade, de Steven Richter; No Lugar Errado, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti; O Homem Que Não Dormia, de Edgar Navarro; O Levante, de Raphael Aguinaga; Réus, de Eduardo Piñero, Alejandro Pi e Pablo Fernandez; Teus Olhos Meus, de Caio Sóh, e Vamos Fazer um Brinde, de Cavi Borges são os outros títulos brazucas na programação.

Muito em pouco tempo

Se a produção de longas aumentou significativamente nos últimos anos, os curtas-metragens não ficaram parados no tempo e estão sempre presentes nos festivais do país. Na Mostra, dezoito curtas nacionais foram selecionados e divididos em três programas, que misturam ficção e documentários. São eles:

Programa Brasil 1, com A Grande Viagem, de Caroline Fioratti; Corneteiro Não Se Mata, de Pablo Müller; Inquérito Policial nº 0521/09, de Vinícius Casimiro; Sambatown, de Cadu Macedo; Século, de Marcos Pimentel, e Tatu Bolinha, de Quelany Vicente.

Programa Brasil 2, com A Casa da Vó Neyde, de Cavechini; Assim Como Ela, de Flora Diegues; Biliu – O Maior Carrego do Brasil, de Lau Barboza; Monique ao Sol, de Wellington Sari; MPB – A História que o Brasil Não Conhece, de André Moraes, e Palhaços, de Andy Malafaya.

Programa Brasil 3, com Boa Noite, de Felipe Dall’Anese; Cine Camelô, de Clarissa Knoll; Começar uma História, de Cristian Chinen; Estudo para o Vento, de Aline Portugal e Julia de Simone; Gramboy – Grave #0, de Francisco Franco e Josimar Freire e , de Bruno Laet.

Com tanta opção fica mesmo difícil saber qual escolher. Quem estiver aceitando dica, vale procurar por títulos que não tenham previsão de estreia próxima nos cinemas, aqueles que você ouviu falar tão bem ou tão mal que não está conseguindo conter a curiosidade, os diretores e atores que você mais gosta e aqueles que te conquistaram pela sinopse.

E isso é porque estamos falando só dos filmes nacionais no programa. Imagina se jutarmos todos os outros.

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo acontece em vários cinemas da cidade, do dia 21 de outubro ao dia 3 de setembro.

Mais informações sobre os filmes e a programação no site do evento.