(El botón de nácar, FRA/ESP/CHL/CHE, 2015)
Documentário
Direção: Patricio Guzmán
Roteiro: Patricio Guzmán
Duração: 82 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Patricio Guzmán volta mais uma vez seus olhos para as mortes que cercam a história do Chile. Se em Nostalgia da Luz, o diretor fazia uma contraposição entre a busca por vida extraterrestre pelos astrônomos que trabalham no deserto do Atacama e a busca de mães e familiares de desaparecidos políticos pelos corpos encontrados quase intactos no mesmo local, em seu novo documentário, O Botão de Pérola, Guzmán compara o universo e a água. Enquanto o líquido é responsável pela vida, é o local onde também se escondem os mortos.

Como é sabido, o Chile viveu uma das mais sangrentas ditaduras sob as mãos de Augusto Pinochet. O número divulgado de vítimas do regime militar, que durou de 1973 a 1990, é de quase 30 mil presos e torturados, com vários executados e outros tantos desaparecidos – estima-se que pelo menos 1200 corpos foram descartados no oceano. Mas Guzmán não se atenta somente a isso no documentário e vai buscar uma outra história absurda daquele local, a dizimação dos índios.

O fim das tradições de tribos ancestrais como os Kawésqar, com a imposição de uma nova cultura, pelos exploradores e pela igreja, corroborada por alguns poucos dos descendentes entrevistados durante o filme, é de cortar o coração. Assim como a história de Jemmy Button, o índio da Terra do Fogo adolescente que, depois de ser trocado por um botão de pérola, foi parar em Londres.

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O modo como o documentarista consegue unir todas as histórias e fazer com que se encaixem tão bem, demonstrando um lado obscuro do ser humano que nem sempre quer ser enxergado, embora todos saibam que existe, é perturbador. E, ao fazer isso de forma lírica, trabalhando as imagens, costurando cenas do deserto, dos oceanos, do universo e fotografias de arquivo, o diretor chileno dá ao longa ainda mais potência.

A conexão entre os índios e os desaparecidos políticos é a mais surpreendente. Muito mais do que comparar o universo à água, ou a pintura dos corpos de antigas civilizações às estrelas que eles acreditavam ser o futuro após a morte, Guzmán faz de coincidências o que há de mais impressionante em seu filme. A demarcação e restituição de terras indígenas pelo presidente Salvador Allende, deposto e substituído por Pinochet; o maior de todos os campos de concentração do regime militar, na Ilha de Dawson, onde mais de 700 pessoas foram torturadas e, antes, onde funcionava uma base missionária que causou a morte de centenas de indígenas, e o próprio botão de pérola que dá nome ao longa-metragem.

Embora um conhecimento prévio da filmografia de Patricio Guzmán direcione para aquilo que se pode encontrar pela frente, o início do filme guia o espectador em uma cômoda e tranquila viagem ecológica que, embora conectada, pouco tem a ver com o que vai se descobrir. Nessa manipulação de expectativa, o diretor marca mais pontos e faz de O Botão de Pérola uma experiência dura, mas ainda assim fundamental. Principalmente para os que habitam terras que passaram por tantos desrespeitos civis ao longo dos anos.

Um Grande Momento:
O botão e o trilho.

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