(The Artist, EUA, 2011)

Comédia
Direção: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray
Roteiro: Michel Hazanavicius
Duração: 100 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

“O simples é sempre muito mais bonito”, já dizia D. Maria Lúcia, minha mãe. E parece que aquele diretor francês de origem lituana e nome complicado, Michel Hazanavicius, também acha a mesma coisa. Mesmo em tempos de muita tela verde, com invasão de 3D, proliferação de captura de movimentos e até negativos de 70mm, ele abusa da simplicidade e, com um filme em preto e branco e, detalhe, mudo, entrega ao público uma das mais belas homenagens à sétima arte.

Ossos do ofício, se é fácil gostar do filme, difícil é escrever sobre ele. Difícil manter o distanciamento necessário ao falar de algo que homenageia uma parte tão importante da sua vida e que, de alguma forma, ajudou a definir a pessoa que se é hoje. Difícil não lembrar do que dizia a mãe, por exemplo, ou de tantas primeiras emoções e momentos inesquecíveis que estavam ali se repetindo, seja nas músicas, nas imagens ou nas sensações.

Hazanavicius ficou famoso com suas paródias do agente secreto francês OSS 117, onde a parceria com o ator Jean Dujardin começou. Adaptado para os cinemas pela primeira vez por Jean Sacha em 1956, poucos sabem que Hubert Bonisseur de La Bath, o OSS 117, não tem nada a ver com James Bond, de Ian Flemming, sendo, inclusive, anterior. Mas é difícil não associar um ao outro nos dois filmes do diretor francês.

Recheados de muitas referências, como a Alfred Hitchcock, Cecil B. DeMille e até mesmo ao ator Errol Flynn, Agente 177 e OSS 117: Rio ne répondes plus já explicitavam o amor de Hazanavicius pelo cinema, mas estavam longe de antecipar o que seria O Artista.

Ambientado na Hollywood do fim da década de 20 e nos anos 30, o filme conta a história de amor entre George Valentim, um astro do cinema mudo, rico e adorado pelo público, e Peppy Miller, uma aspirante a atriz que fica famosa por acaso e agrada os produtores locais. Tudo seria perfeito se não fosse a tecnologia. O cinema passava por sua primeira grande transformação, deixando de ser mudo para tornar-se sonoro.

O astro de filmes silenciosos e com trilha sonora executada ao vivo por tantos anos não consegue se adaptar a nova realidade, diferente da mocinha que acabara de conhecer e, falante, se torna o principal nome do cinema.

A trama simples permite uma viagem por dentro da própria história do cinema e justifica a transição por muitos gêneros diferentes. Comédia, suspense, romance, drama e até terror se misturam nas quase duas horas de projeção, assim como as homenagens, na medida certa, a William A. Wellman (Nasce uma Estrela), Fritz Lang (M, o Vampiro de Dusseldorf), John Ford (Médico e Amante), Ernst Lubitsch (O Círculo do Casamento), F. W. Murnau (Aurora), Alfred Hitchcock (Rebecca, a Mulher Inesquecível), Billy Wilder (Crepúsculo dos Deuses), Michael Curtiz (Casablanca) e Orson Welles (Cidadão Kane).

Identificações mais fáceis também estão presentes, como o Zorro de Douglas Fairbanks em A Marca do Zorro, dirigido por Fred Niblo, que tem uma passagem toda dentro filme; a pintinha de Marilyn Monroe; o cachorrinho de A Ceia dos Acusados, de W. S. Van Dyke; as poses de Rodolpho Valentino; alguns passos de dança de Gene Kelly e Debbie Reynolds em Cantando na Chuva, dirigido por Stanley Donen e o próprio Kelly; um quê de Charles Chaplin; a presença musical do tema composto por Bernard Herrmann para Um Corpo Que Cai, de Hitchcock; ou a marcante frase “I want to be alone”, de Greta Garbo em Grande Hotel, de Edmund Goulding.

Se o encantamento é certo para cinéfilos de carteirinha e estudiosos do cinema, a coisa não é diferente para os que estão começando agora na cinefilia. Estes são surpreendidos por um desconhecido tão simpático e de fácil assimilação que acabam se rendendo à experiência muda e monocromática.

O apuro técnico de O Artista impressiona. Desde a sempre constante e inspirada trilha sonora de Ludovic Bource até o irrepreensível desenho de produção de Laurence Bennett (No Vale das Sombras), que contou com a direção de arte de Gregory S. Hooper (Terra Fria) e a cenografia do iniciante Austin Buchinsky e o veterano Robert Gould (O Mestre dos Mares). Além dos figurinos de época de Mark Bridges (Sangue Negro, Boogie Nights).

Tendo a referência como alma do filme, fácil imaginar a grande quantidade de ângulos e experiências com iluminação que o diretor de fotografia, Guillaume Schiffman (Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres), pôde fazer. Por escolha de Hazanavicius, O Artista foi filmado com a proporção de tela 1.33:1, para que, segundo ele, o trabalho dos atores fosse mais valorizado. Conhecida como “janela clássica”, essa proporção era a mais utilizada no cinema até meados da década de 50.

Além toda a paixão e dedicação do diretor, um roteiro fluido e toda sua qualidade técnica, o filme ainda conta com um elenco fascinante. A interpretação de Jean Dujardin (Cash – O Grande Golpe), que vem arrebatando prêmios por onde passa, é mesmo sublime. Completamente entregue ao seu papel, o ator mescla momentos de canastrice necessária a olhares cheios de significado e demonstra muita habilidade nas transições de humor pelas quais passa.

Ao seu lado, a não menos inspirada Bérénice Bejo (Modern Love) entrega uma Peppy Miller adorável e contagiante. O mesmo pode ser dito do elenco secundário, que conta com John Goodman (O Grande Lebowski) como Al Zimmer, um produtor que sonha em ser durão, mas tem coração mole; James Cromwell (À Espera de um Milagre) como o fiel motorista Clifton e Penelope Ann Miller (O Pagamento Final), como a infeliz esposa de um astro de Holywood.

Tudo está tão em seu devido lugar que o efeito de O Artista transcende a tela. O envolvimento do público, imediato, transforma a sala de projeção e traz de volta uma plateia que, infelizmente, não estamos mais acostumados a ver. É impressionante como um filme mudo e em preto e branco faz uma sessão lotada, com gente de todas as idades ficar completamente calada, sem luzes de celular acendendo a todo momento e sem o incômodo barulhinho das teclas desses mesmos aparelhos. Como se, voltando no tempo, o respeito pelo que está sendo visto e pelas pessoas que compartilham o espaço voltasse a ser o mais importante.

No final das contas, o filme traz uma mensagem fundamental para o cinema da atualidade: não é necessário encher a tela de gigantes azuis, falar de redes sociais em voga no momento ou mesmo dobrar Paris ao meio para envolver sua plateia. Pode-se chegar muito mais longe com muito menos. Simples assim!

Um Grande Momento

O pesadelo de Valentin.

Logo-Oscar1Oscar 2012
Melhor Filme, Melhor Ator (Jean Dujardin), Melhor Direção, Melhor Figurino (Mark Bridges), Melhor Trilha Sonora (Ludovic Bource)

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