(Love Happens, EUA, 2009)

Ao encarar uma comédia romântica comercial estrelada por uma atriz manjada no gênero como Jennifer Aniston, pode-se facilmente antecipar os clichês e toda a natureza de situações previsíveis que esse tipo de filme tende a nos reservar. Em O Amor Acontece, primeiro longa do diretor Brandom Camp, a esperança de ser surpreendido positivamente desaparece logo após o primeiro minuto de projeção.

A sofisticação de alguns dos primeiros planos, como a chuva exibida em um belo contra-plongée (captação de baixo para cima) ou a tomada em que o protagonista é apresentado através da distorção de um copo na frente da câmera, apenas exaltam a boa fotografia de Eric Alan Edwards, mas a sensação do lugar comum das comédia românticas fáceis não tarda em surgir.

Fica nítido logo na apresentação dos protagonistas que o filme não pretende economizar no uso de fórmulas prontas, algo típico em produções do gênero. Nas primeiras cenas, o futuro par romântico surge, um de cada vez, executando tarefas do seu cotidiano. Isso ocorre até o primeiro encontro entre eles, que como não poderia deixar de ser, trata-se de um conflito. E claro, após alguns desencontros, o amor deverá triunfar.

Pouco criativo é uma boa definição para o roteiro do diretor co-escrito por Mike Thompson, que parte de uma interessante premissa antes de se perder no banal. Parece que Camp, que também co-roteirizou o fraco O Mistério da Libélula, vai continuar devendo um bom script.

Aaron Eckhart é Burke Ryan, um carismático escritor de livros de auto-ajuda que, após a trágica morte da esposa, resolve viajar ministrando seminários para auxiliar pessoas a superarem a perda de seus entes queridos. Celebridade em seu meio, Burke vê sua autoconfiança ruir quando ministra um de seus cursos em Seattle, cidade repleta de lembranças para ele, onde está o túmulo da esposa.

É lá que ele conhece e se apaixona pela bela florista Eloise Chandler, interpretada por Jennifer Aniston. Ao perceber que o famoso terapeuta jamais conseguiu superar a morte da mulher, Eloise resolve ajudá-lo e esse é o mote para os encontros e desencontros do casal ao longo do filme.

A falta de química entre Eckhart e Aniston é latente, e se intensifica a partir da primeira crise entre o casal, em que a agressividade repentina de Burke e a indignação de Eloise soam bastante artificiais. A opção pelos atores principais do filme deixa de funcionar inclusive nos momentos em que não atuam juntos. Eckhart, um bom ator, sustenta bem seu talento quando está só, mas o filme cai consideravelmente nas aparições de Aniston. Quando estão juntos, o ator de produções como Batman – O Cavaleiro das Trevas e Obrigado por Fumar, perde o brilho.

As principais interações entre o casal se dão através de uma pouco inventiva solução que o roteiro propõe: Eloise possui o estranho hábito de escrever palavras difíceis atrás de quadros. É tentando desvendar essa estranha mania que Burke consegue se aproximar da florista em diversos momentos, como para convidá-la para o primeiro jantar juntos ou promover a reconciliação após uma briga.

As soluções fáceis são recorrentes. Os roteiristas não se intimidam ao fazer uso de “felizes concidências” para induzir a história ao rumo pretendido, como quando Eloise se apaixona por Burke ao vê-lo cometendo um ato heróico através de uma porta acidentalmente aberta, ou ainda quando por acaso o sogro do escritor assiste a um redentor discurso que serve de ponte para a reconciliação de ambos.

O elenco de apoio também é pouco convincente. Marty (Judy Greer), a amiga de Eloise, e Lane (Dan Fogler), empresário de Burke, são desnecessários e seu único propósito no filme é tornar o virtuosismo dos protagonistas e seus traumas ainda mais claros ao público. Martin Sheen, que interpreta o sogro de Burke (convenientemente o astro de Apocalipse Now é um fuzileiro naval aposentado e durão), intervém sempre que o aparentemente seguro terapeuta tem de revelar sua fragilidade oculta.

A exceção fica por conta de John Carrol Lynch, que tem a melhor atuação de todo o elenco e responde pelos momentos de maior emoção no filme. Lynch interpreta Walter, um pai atormentado com a morte do filho, por quem Burke se compadece e tenta ajudar. A obsessão do terapeuta em ajudar Walter é mais um dos momentos didáticos do filme, mostrando o quanto Burke se vê em Walter e carrega culpa semelhante apesar do aparente controle sobre seus sentimentos.

E para não correr o risco de falhar no didatismo, a direção de Brandom Camp faz ainda uso de flashbacks para ilustrar o passado de Burke, além de recorrer constantemente a narrações em off. Filmes narrados são sempre perigosos pelo risco de tornar a história excessivamente explicativa. Utilizar supostos trechos do livro de Burke para pontuar o enredo é uma idéia interessante, mas é eventual e mal executada. Deveria ser melhor explorada ou completamente abandonada pelo roteiro.

Com personagens pouco complexos, clichês abundantes e excesso de obviedades, O Amor Acontece falha inclusive na posição crítica frente ao mercado de auto-ajuda. Embora tenha como protagonista um autor que não segue os próprios conselhos, usa a mesma técnica das fracas publicações do gênero oferecendo ao público uma série de conselhos simplistas, emoções gratuitas e lições de vida vazias de conteúdo, o que faz do filme somente mais um enlatado de Hollywood.

Um Grande Momento

A interpretação de John Carrol Lynch, único ator que consegue de fato sensibilizar o público.


Links

Romance
Direção: Brandon Camp
Elenco: Aaron Eckhart, Jennifer Aniston, Dan Fogler, Martin Sheen, Deirdre Blades
Roteiro: Mike Thompson, Brandon Camp
Duração: 109 min.
Minha nota: 4/10