(On the Road, FRA/GBR/EUA/BRA, 2012)

Drama
Direção: Walter Salles
Elenco: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Amy Adams, Viggo Mortensen, Elisabeth Moss, Steve Buscemi, Terrence Howard, Alice Braga, Tom Sturridge
Roteiro: Jack Kerouac (livro), Jose Rivera
Duração: 137 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Quando cheguei à pré-estréia de Na Estrada, que estreou no Brasil com um atraso considerável após concorrer a Palma de Ouro em Cannes, eu fiquei um pouco temeroso. A fila que se formou em volta do Conjunto Nacional (ponto de referência entre os fãs de arte em São Paulo) estava repleta basicamente de fãs do livro homônimo de Jack Kerouac. Era fácil prever isso por conta da quantidade de jovens com a obra em suas mãos como fiéis religiosos que empunham suas bíblias. Somente isso poderia explicar as horas em pé na fila para garantir a chance de ver a adaptação daquele livro que eles tanto amam. Porém, eu, por experiência, sabia que as chances de fãs xiitas se sentirem satisfeitos com o que iriam ver eram quase nulas.

Isso porque Na Estrada, o livro escrito por Jack Kerouac (1922-1969) no começo dos anos 50 e que foi publicado somente em 1957 (após várias negativas de editoras) é, em sua essência, uma obra que encanta os jovens há gerações. Ao narrar suas viagens pelos Estados Unidos, Kerouac fez o que boa parte dos jovens contemporâneos a ele gostaria de fazer: largar qualquer tipo de amarra social ou familiar para colocar o pé na estrada, seguindo a velha fórmula mochileira e conhecer o maior número de lugares e pessoas possíveis, além de beber, fazer sexo, usar drogas, cantar alto, dançar sem nenhum medo de ser julgado, etc. Isso acabou iniciando um verdadeiro frescor literário que ficou conhecido como o movimento Beat, o qual, além de Kerouac, teve Allen Ginsberg (1926-1997) e William S. Burroughs (1914-1997) como principais baluartes.

O filme já tinha um ar de vitória, já que o diretor Francis Ford Copolla, detentor dos direitos do livro desde 1978, vinha tentando levá-lo às telonas desde os anos 90, até que o projeto ganhou força depois da escolha de Walter Salles como comandante. Na Estrada, como não poderia deixar de ser, segue fielmente às andanças de Sal Paradise (Sam Riley), pseudônimo de Kerouac, junto ao inconseqüente Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e sua companheira Marylou (Kristen Stewart). O trio, que por vezes era acompanhado por outros intelectuais “beatniks”, segue em viagens alucinantes e nem a fronteira com o México é capaz de pará-los. No trajeto, conhecem figuras inesquecíveis, como o saxofonista Walter (Terrence Howard), a camponesa Terry (Alice Braga), a ciumenta Galatea (Elisabeth Moss), a melancólica amante de Dean, Camille (Kirsten Dunst), o venerado Old Bull Lee (Viggo Mortensen) e sua esposa esquizofrênica Jane (Amy Adams), entre outros personagens icônicos do livro.

A identidade de Walter Salles, embora parecesse um pouco desvirtuada no início, encontra o seu ponto em certa altura de Na Estrada, nos marcando como em seus outros road movies (Central do Brasil e Diários de Motocicleta). Para não haver grandes riscos, ele repete boa parte de suas parcerias de Diários, incluindo o roteiro assinado por Jose Rivera. A road trip, apesar de demorar a engrenar, chega à efusão da metade para o final, onde o filme decola, mesmo parecendo longo e cansativo. E para provar que Salles pode tirar leite de pedra (mesmo estando com um livro de peso para trabalhar), atentem-se, por exemplo, ao trabalho excepcional de Kristen Stewart. Sim, ela está muito boa no papel e não compromete o elenco de estrelas.

Na Estrada é um filme ensandecido. E isso já é prova de que o filme desempenha bem o seu papel. Ao final da sessão, gritos de admiração e aplausos tomaram conta da sala de cinema lotada (boa parte daquela fila estava sentada no chão por não ter mais poltronas livres). Ou seja, uma obra ganhou força, e um preconceito (o meu, pelo menos) foi perdido. É inevitável que alguns adoradores de Kerouac (ou do recorte Beat como um todo) possam chiar, dizendo que isso ou aquilo que eles sentiram ao ler “On The Road” não foi devidamente mostrado no filme. Nenhuma adaptação cinematográfica está blindada contra esses chatos. Mas não há como negar que Na Estrada é intenso e agradável na medida certa. E tudo isso envolto por muito sexo, drogas e… jazz!

Um Grande Momento

Marylou se emocionando ao ouvir a cantoria de um andarilho. Cena que prova a composição madura de Kristen Stewart.

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