BRASÍLIA – Crítico de cinema, cineasta, ator, fotógrafo de cena e jornalista, o paulistano Jairo Ferreira é nome imprescindível do cinema dito experimental (ou marginal) brasileiro. Acima de tudo um poeta, Jairo comentou, discutiu e deu visibilidade a filmes assinados por alguns dos mais inventivos cineastas da história do cinema no Brasil.

Injustamente desconhecido do grande público, o crítico e cineasta inspira a nova mostra realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília. “Jairo Ferreira – Cinema de Inveção”, que acontece de 22 de fevereiro a 4 de março de 2012, vai exibir obras raras – algumas inéditas – nas telas brasileiras, acompanhadas de catálogo e debate.

Jairo Ferreira foi figura essencial para a criação de um pensamento crítico do cinema brasileiro. Foi ele o criador do termo “cinema de Invenção”, a partir do pensamento do poeta norte-americano Ezra Pound: “Inventores são homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo”, para referir-se a criadores como Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, fugindo de conceitos já desgastados como “experimental” ou “vanguarda”. É autor do livro “Cinema de Invenção”, que se tornou um clássico da bibliografia sobre cinema brasileiro, o melhor ensaio crítico-poético já escrito sobre chamado cinema marginal ou underground no País. Jairo Ferreira ajudou o Brasil a compreender o cinema como substrato da cultura pop.

Sob a curadoria do professor e cineasta Renato Coelho, será possível ver o que Jairo Ferreira produziu como realizador de cinema: dois longas, um média e seis curtas que são legítimos exercícios da linguagem de invenção. Os filmes de Jairo são, em sua maioria, rodados em Super-8, de maneira artesanal e nunca foram exibidos comercialmente. Mas a programação inclui ainda cerca de vinte filmes sobre os quais o autor homenageado escreveu, e que de alguma forma fazem parte de seu universo. A mostra será acompanhada também de debate reunindo o curador, o professor-doutor Alessandro Gamo (autor do livro de críticas Jairo Ferreira – críticas de invenção: os anos do São Paulo Shimbun) e o cineasta André Luiz Oliveira, diretor de um marco do cinema de invenção: o filme Meteorango Kid, de 1969.

A mostra

A programação oferecerá a raríssima oportunidade de o espectador assistir à filmografia do crítico, pouquíssimo exibida. Nunca antes foram reunidos os filmes de sua autoria, numa justa revisão da obra. São oito filmes – cinco curtas, um média e dois longas-metragens – feitos entre 1973 e 1980. Dentre os curtas, O Guru e os Guris (35 mm, 1973) é um documentário onde Ferreira usa a figura de Maurice Legeard, mítico fundador da Cinemateca de Santos, para falar de cinefilia e as agruras da atividade cinematográfica no Brasil. Já Ecos Caóticos (Super-8, 1975) é uma homenagem ao poeta maranhense Sousândrade. O curta O Ataque das Araras (Super-8, 1975) mostra uma viagem do cineasta à Amazônia, acompanhando uma trupe teatral. Antes Que eu me Esqueça (Super-8, 1977) é um curta documentário sobre um sarau poético e Nem Verdade nem Mentira (35 mm, 1979) apresenta, de forma poética, o pensamento do autor sobre o jornalismo.

Ainda de Jairo Ferreira estão o média Horror Palace Hotel (Super-8, 1978), que registra depoimentos de cineastas como José Mojica, Ivan Cardoso e Rudá de Andrade sobre o cinema de horror; e os longas O Vampiro da Cinemateca (Super-8, 1975/1977) e O Insigne-ficante (Super-8, 1978/1980). O Vampiro da Cinemateca é um documentário performático, para o qual Ferreira mistura cenas pessoais com improvisos com atores, narração em off e uma narrativa livre e não-linear. Filme mais discutido do diretor, nele o autor-personagem decreta: “Chupo filmes para renovar meu sangue”. E O Insigne-ficante é um filme-viagem, que discute o conceito de invenção cunhado por Ezra Pound.

Serão exibidos, ainda, vários filmes sobre os quais Jairo Ferreira escreveu ao longo da vida, dentre eles clássicos da cinematografia brasileira como Limite, de Mário Peixoto, A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla, O Corpo Ardente, de Walter Hugo Khouri, A Lira do Delírio, de Walter Lima Jr, A Herança, de Ozualdo Candeias e o raro Sagrada Família, de Sylvio Lanna.

Completam a programação A Margem, de Ozualdo Candeias; Jardim da Guerra, de Neville d’Almeida; Gamal, o Delírio do Sexo, de João Batista de Andrade; Meteorango Kid – Herói Intergalático, de André Luiz Oliveira; Ritual dos Sádicos, de José Mojica Marins; Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso; Crônica de um Industrial, de Luiz Rosemberg Filho; Filme Demência, de Carlos Reichenbach; Ave, de Paulo Sacramento; Alma Corsária, de Carlos Reichenbach; Noite Final Menos 5 Minutos, de Débora Waldman; Mariga, de Paolo Gregori; Sinhá Demência e Outras Histórias, de Christian Saghaard e Carlos Botosso; A Bela e os Pássaros, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori; e Demônios, de Christian Saghaard.

Um pouco de história

“Grandes filmes exigem do crítico um verdadeiro mergulho nas profundezas do abismo e nem sempre é necessário que ele volte à tona em textos ou verbalmente”. (Jairo Ferreira, O Cinema: Música da Luz).

Jairo Ferreira nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1945. Com 19 anos de idade e já apaixonado pelo cinema, torna-se coordenador do cineclube do Centro Dom Vital, ligado à Igreja Católica, onde fica até 1966. É exatamente quando se inicia na crítica cinematográfica, escrevendo a coluna de cinema do jornal São Paulo Shimbun, principal periódico da colônia japonesa em São Paulo – para o qual escrevia sem receber pagamento. A partir 1972, ainda no Shimbun, escreve sob três pseudônimos: Marshall McGang, Ligéia de Andrade e João Miramar. Fica no jornal até 1973, registrando, no início, os lançamentos de filmes japoneses nos cinemas do bairro da Liberdade, mas depois também o surgimento e a produção do Cinema Marginal, estabelecido na Boca do Lixo naquele período.

Através de sua coluna no Shimbun, Jairo Ferreira incentiva e abre espaço para jovens cineastas paulistas como Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla e João Batista de Andrade, ao comentar filmes como Audácia!, O Bandido da Luz Vermelha e Gamal – O Delírio do Sexo. A Boca do Lixo passa também a ser o centro da atenção do crítico de 1968 a 1970, que com artigos como “O Delírio da Boca” e “O Lixão vai vomitar” torna-se uma espécie de plenário da Boca. A importância de sua coluna era tão grande que pessoas ligadas à vanguarda compravam o períodico da comunidade japonesa só para conhecer as opiniões de Jairo.

Mas além de acompanhar a produção da Boca, Ferreira participa também da realização de filmes, às vezes como fotógrafo, em outras co-dirigindo, fazendo assistência de direção ou mesmo roteirizando. Em 1966, co-dirige com o poeta Orlando Parolini seu primeiro filme, o curta-metragem em 16mm Via Sacra, que Carlos Reichenbach, fotógrafo do filme, aponta como a primeira experiência underground do cinema brasileiro. Via Sacra ficou inacabado e seus negativos foram perdidos.

Dentre as principais funções que realizou no período, Jairo Ferreira foi co-roteirista dos filmes O Pornógrafo (1970), de João Callegaro, e Corrida em Busca do Amor (1972), de Reichenbach, onde também foi assistente de direção; e ator e assistente de direção em Orgia ou o homem que deu cria (1970), de João Silvério Trevisan.

A partir de 1973, Jairo inicia a realização de seus filmes, quase todos rodados em Super-8. São filmes sem ambições comerciais, feitos de maneira artesanal, que o autor realizava sozinho ou com a ajuda e participação de poucos amigos. De 1976 até 1980, Jairo Ferreira trabalha como crítico no jornal Folha de São Paulo, quase sempre realizando matérias e entrevistas sobre o cinema brasileiro, e cobrindo o lançamento de filmes dos cineastas que fizeram parte do Cinema Marginal (Júlio Bressane, Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla e outros). Depois, integra a equipe de O Estado de São Paulo, onde permanece entre 1988 e 1990, além de assinar colaborações para diversas revistas e publicações, como “Filme Cultura” e “Artes”. Ferreira foi editor do único número da revista Metacinema e, já no início dos anos 2000, escreve alguns artigos na revista eletrônica Contracampo.

Escreveu o texto panorâmico intitulado “O cinema no Brasil” para a obra “Nós e o Cinema”, versão brasileira editada pela Melhoramentos a partir do original italiano. Sua obra referencial, o hoje clássico “Cinema de Invenção”, teve primeira edição em 1986 e foi reeditado em 2000. Neste, o autor promove um mergulho na criação cinematográfica, discute a obra de cineastas brasileiros que considera experimentais, desde Mário Peixoto, passando por Glauber Rocha e cobrindo grande parte dos cineastas do Cinema Marginal, e apresenta um relato apaixonante do cinema no Brasil. Jairo faleceu em 2003, ao completar 58 anos, na mesma cidade onde nasceu.

Programação Completa

Filmes selecionados

Mais informações no site do evento.

SERVIÇO
Jairo Ferreira – Cinema de Invenção
CCCBB Brasília
SCES, Trecho 02, lote 22
Entrada franca
Senhas distribuidas 1h antes do início da sessão