(Mãe Só Há Uma, BRA, 2016)
Drama
Direção: Anna Muylaert
Elenco: Naomi Nero, Daniel Botelho, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Lais Dias, Luciana Paes, Helena Albergaria
Roteiro: Anna Muylaert
Duração: 82 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Pierre está vivendo sua adolescência. Com os hormônios à flor da pele, experimenta, arrisca, ousa. Como todos de sua idade, é contido na casa onde vive com a mãe e a irmã, mas transforma-se no momento em que está sozinho ou entre amigos: vive sua sexualidade fluida, aquela que está além de rótulos e preconceitos; namora enquanto cochila na sala de aula; ensaia junto com a banda de garagem, e segue a vida.

De repente, tudo aquilo que o cercava, suas referências e o local onde se sentia seguro são tomados dele. A estrutura de Pierre era falsa. Ainda criança, ele fora roubado da maternidade e agora era obrigado a viver uma nova e desconhecida vida, ao lado de pessoas estranhas que não o entendem e que ele também não quer entender.

Em seu novo filme, Mãe Só Há Uma, a diretora Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?) arrisca-se em explorar os desdobramentos de uma história que jamais seria fácil. Conflitos de identidade e de espaço estão por todos os lados e sem muitas explicações. Cabe ao público preencher as várias lacunas da história, exercitando a empatia, o se colocar no lugar do outro para entender e sentir aquilo que ele sente.

Para estimular essa proximidade, Muylaert, juntamente com a competente direção de fotografia de Barbara Alvarez, aproxima o espectador ao máximo dos personagens. Os enquadramentos fechados e a câmera na mão, além de representarem bem a urgência carnal da adolescência, transportam o espectador não só para dentro da tela, mas para dentro dos personagens.

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A manipulação dos sentimentos pelas opções de quadros, aliás, é um dos pontos altos do longa-metragem. Cenas como a da primeira reunião familiar, com Pierre, agora Felipe, de costas e toda a família sufocando-o; ou as cenas de embate, no trocador ou no boliche, cada uma filmada de uma maneira, trazem significados à trama que são impossíveis de serem ignorados.

Outra coisa que chama a atenção em Mãe Só Há Uma é o modo como a diretora trabalha o protagonismo. Responsável também pelo roteiro, em colaboração com Marcelo Carneiro, Muylaert encontra uma maneira de dividir para equilibrar. Enquanto a história que se vê é a de Pierre/Felipe, uma outra figura começa a atrair a atenção e se transforma num caminho paralelo. Joca, o irmão biológico, é o exterior que traz um novo ponto de vista.

Em sua vida cheia de vícios comuns de um filho que foi criado por pais que perderam seu primogênito e de dificuldades naturais da idade, Joca estabelece uma relação de distanciamento e compreensão que ninguém mais poderia. Muito do sucesso do personagem está na força que Daniel Botelho emprega em sua atuação. Ator não profissional, o jovem surpreende pela naturalidade e intensidade de suas passagens.

Outro acerto, curioso, de Muylaert está na opção por usar a mesma atriz para viver as duas mães do filme, em um trabalho primoroso de Daniela Nefussi. Além da interessante manutenção do sentimento, que é o mesmo para aquelas duas pessoas, a escolha possibilita uma segunda leitura ainda mais profunda do filme: a ruptura natural da adolescência, que transforma qualquer mãe em duas pessoas distintas para o filho.

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Além do trio principal, Pierre, Joca e Aracy/Gloria, o filme ainda conta com boas atuações de Matheus Nachtergaele, como o pai; Luciana Paes como a tia Yara; Lais Dias como a irmã também roubada, e Helena Albergaria como a assistente social. Porém, há um excesso de extras amigos, gente bem conhecida no meio cinematográfico, que destoa, assim como um certo desequilíbrio nas atuações infanto-juvenis.

Voltando-se para os defeitos, uma certa falta de pesquisa nos métodos utilizados em casos que envolvam menores em situações do tipo podem incomodar quem conheça melhor os trâmites, mas nada que diminua força do filme e a mensagem que ele carrega.

Uma experiência envolvente, que transforma em potência todos os riscos assumidos pela diretora e faz um retrato bastante humano de uma nova geração. Sem falar em tudo que, naqueles 82 minutos, expõe sobre maternidade, fraternidade e as relações familiares.

Um Grande Momento:
O final.

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