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Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia da Vingança

Lição não aprendida

(Tempos de Barbárie - Ato I: Terapia da Vingança, BRA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Marcos Bernstein
  • Roteiro: Marcos Bernstein, Victor Atherino
  • Elenco: Claudia Abreu, Cesar Mello, Júlia Lemmertz, Alexandre Borges, Adriano Garib, Pierre Santos, Marcos Kikito Junqueira, Claudia di Moura
  • Duração: 119 minutos

Estávamos no ano de 2007 e o cinema brasileiro se via tomado por uma febre. Tropa de Elite, filme dirigido por José Padilha, depois de sua estreia e premiação no Festival de Berlim, vazou na rede e se espalhou por todos os cantos, também foi um sucesso estrondoso de bilheteria. Por trás da ação, como gênero cinematográfico, muito bem executada, sua história reforçava estereótipos sobre moradores de comunidade e ONGs, estigmas sobre usuários de drogas e recusava-se a olhar para a grave questão do abismo social. Difundindo o lema “bandido bom é bandido morto”, despertou uma espécie de endeusamento do esquadrão especializado da polícia carioca, o BOPE, e defendendo o justiçamento e o punitivismo, causou um mal irreversível para o país. Padilha tentou explicar do que estava falando três anos depois com uma continuação, sem sucesso. O estrago estava feito. Talvez pelo resultado financeiro positivo ou por má intenção mesmo, não faltam tentativas de repetir aquilo que o longa fez no passado. É nesse lugar nebuloso que se encontra a nova produção brasileira Tempos de Barbárie: Ato I – Terapia de Vingança.

Dirigido por Marcos Bernstein, num contrassenso com sua filmografia como roteirista, que conta com títulos como Zuzu Angel, Somos Tão Jovens e o fenomenal Central do Brasil, o filme conta a história de Carla, uma mulher perdida e desesperada que não sabe como prosseguir depois que sua filha é baleada em uma tentativa de assalto. Vivida por Cláudia Abreu (Berenice Procura), sempre muito bem e que aqui não faz diferente, ela divide esse sofrimento profundo com o marido e pai da menina (César Mello, de Doutor Gama), tendo ainda que carregar a culpa por não ter feito o que podia para evitar o ocorrido. Além de pais, advogada e médico, por seu cotidiano, os dois vivem intensamente a situação.

O modo como o filme lida com essa avalanche de sentimentos, misturando medo, angústia, raiva, e recriações do evento ou lembranças do passado, pode até ser interessante. Porém, há um equívoco no modo como o roteiro de Bernstein e de Victor Atherino encaminha – e a direção tenta justificar estilisticamente – a desesperança e a impossibilidade de fazer algo naquele universo contaminado que circunda a protagonista. É como se o desespero justificasse a ação, e os atos, por pior e mais incompreensíveis que eles sejam, pudessem explicar a deturpação de valores e a busca pela concretização de desejos naturais em feitos sombrios. Porque, sim, é natural que uma mãe deseje fazer e sinta o mesmo que Carla, mas há uma humanidade e outras questões que devem sempre importar. 

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Contrariando a determinação contextual equivocada e até deixando-a mais problemática, Tempos de Barbárie é excessivamente preocupado com a estética. Com uma vontade de construir-se como um produto chique de bom gosto, aposta em planos elaborados, observacionais, longos e cheios reflexos, contraluz, jogo de filtros e foco. Isso é algo que, ao mesmo tempo, distrai o espectador da dureza da trama e do sofrimento desenhado no primeiro terço do filme, e não consegue se comunicar com o thriller que se estabelece dali em diante, numa quebra muito evidente. Por que tanto cuidado para se levar ao extremo do sombrio? E porque um sombrio com tanto estilo? Entre a europeização e a estadunização o filme não se encontra graficamente.

Além disso, os diálogos clichês e a profusão de estereótipos não dão conta de debater o limite entre justiça e vingança, intenção fracassada do filme, que mal consegue ser percebida. Como quando se entra numa máquina do tempo e se percebe a repetição de vários erros, o roteiro é fácil ao associar personagens à temática da violência urbana, assim como leva o discurso para o lado da corrupção, superficialmente abordada, e da degeneração, flertando com posturas armamentistas equivocadas que dominam a sociedade atual. Ainda que haja o debate, aquilo que se expõe e todos os elementos que apoiam a narrativa, apenas alimentam um discurso e uma posição nociva à sociedade, estimulando uma justiça que de justa não tem nada.

O pior é que a possibilidade de alcance da produção é muito grande, justamente porque já existe uma predisposição ao discurso de ódio excludente e por toda uma permissividade estabelecida para filmes do gênero, em especial aqueles que trazem nomes de destaque em seu elenco (aqui, Abreu e Mello estão acompanhados de Júlia Lemmertz e Alexandre Borges). Mais, é um filme que conta com cenas de ação competentemente construídas e um plano de tocaia e vingança bem elaborado, além de se dedicar a construir uma justiceira que, ao que tudo indica – ao menos é o que se pode entender pelo título – está apenas começando sua jornada. É uma configuração que dificulta a percepção do que está por trás da requintada estetização e, por acaso, nem combina com o resto do do filme. Entre tanta estigmatização, problemas de contexto e cegueira social, o que se percebe com Tempos de Barbárie é que o tempo passou, o pior aconteceu, as consequências ainda estão aí, mas ninguém aprendeu nada com Tropa de Elite.

Um grande momento
A fuga na favela

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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