(Leviafan, RUS, 2014)

Drama
Direção: Andrey Zvyagintsev
Elenco: Elena Lyadova, Vladimir Vdovichenkov, Aleksey Serebryakov, Roman Madyanov, Sergey Pokhodaev, Anna Ukolova, Kristina Pakarina, Lesya Kudryashova
Roteiro: Andrey Zvyagintsev, Oleg Negin
Duração: 140 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Vamos voltar a Thomas Hobbes, o pensador que se utilizou da figura mítica descrita na bíblia do Leviatã para definir o Estado. Aquele que tira os homens de seu estado de natureza e os adequa a viver em sociedade. O monstro do qual ninguém pode fugir.

No filme de Andrey Zvyagintsev (Elena), estamos na Rússia, em uma província litorânea afastada da capital. Acompanhamos a vida de Nikolay, um homem que está prestes a perder tudo o que construiu para um projeto da prefeitura de centro comercial.

Rude no trato, mas ainda assim afetivo com os seus, Nikolay recebe mais um golpe com a decisão judicial que determina a perda de sua propriedade em troca de uma módica indenização. É quando o espectador percebe a potência e a crueza do tema tratado pelo diretor. A leitura do acórdão é frenética. Não há movimento, não há muito o que se ver, apenas uma sucessão de palavras, ditas sem muita preocupação com pausas, que destruirão a vida de uma família, mas quem se importa?

A perda daquilo que chama de sua história desestabiliza o cotidiano do homem e de todos a sua volta. As muitas doses de vodca e reações estouradas causadas pelo próprio excesso e pelo descaso que o cerca repetem-se e atingem os mais próximos. Os danos vêm, diferente dos pedidos de desculpa, que nunca chegam.

Em torno de Nikolay, Zvyagintsev explora a deterioriação de um sistema que, teoricamente, equilibraria as relações sociais e controlaria os homens, domando os instintos. Mesmo controlado, um animal não perde a sua natureza. E isso não serve apenas para o descontrole do protagonista, mas para cada um dos que compõe o sistema.

Enquanto uma maioria sucumbe, uma minoria, para obter benefícios escusos, faz com que tudo siga um caminho pré-determinado. É o que fica claro na reunião do prefeito acuado após ameaças do advogado de Moscou, quando representantes da polícia e do judiciáiro decidem como lidar com o problema, lembrando da eleição próxima, do dinheiro que levam cotidianamente e de todos as facilidades que vêm quando se tem o poder.

Sem falar na pontual e nociva participação da igreja ou da religião. Em uma espécie de círculo vicioso, estas são aquelas que abençoam os atos para sobreviver e sobrevivem graças a conivência e necessidade das instituições que abençoa. Sempre de olho em sua parcela.

Leviatã retrata a história de um homem simples em uma pequena cidade da Rússia que sofre nas mãos daquele que não consegue enfrentar. Quantas vezes, em quantos lugares do mundo, este tipo de coisa acontece? Quantos são aqueles, ao redor do mundo, que dominaram o monstro dominador para o utilizar como bem entendem?

Duro na forma e no contexto, nem mesmo as belas imagens de Mikhail Krichman (O Retorno) de Oblast de Murmank conseguem diminuir a desesperança causada pelo longa-metragem. Pior, fazem com que tudo seja mais solitário e opressivo.

Leviatã, sem dúvida, é um filme pessimista. Perante a corrupção, como não sê-lo?

Um Grande Momento:
A leitura da decisão judicial.

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