(The Karate Kid, EUA/CHI, 2010)

Ação
Direção: Harald Zwart
Elenco: Jaden Smith, Jackie Chan, Taraji P. Henson, Wenwen Han, Rongguang Yu, Zhenwei Wang
Roteiro: Robert Mark Kamen (história), Christopher Murphey
Duração: 140 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆
Ver Karatê Kid – A Hora da Verdade virou uma espécie de obrigatoriedade para as pessoas que viveram os anos 80. Gostando ou não, todo mundo sabia o que acontecia no filme e se lembrava tanto dos personagens como de um certo movimento de luta que, vez por outra, é referenciado em outros títulos.

Na atual fase de baixa criatividade, é normal que voltem os olhos para o passado e busquem aqueles títulos que gozam de algum prestígio, como é o caso. Tudo bem, mas as coisas começam a ficar estranhas quando somado a isso está uma tentativa de construção de um futuro astro, por seus pais também artistas, independente da idade inadequada.

Karatê Kid é um filme que retrata um momento específico da vida: a passagem para a fase adulta. Daniel San, o protagonista do original, era um adolescente que já estava quase saindo da escola e, com a ingenuidade característica de uma época menos informatizada, aproveitou as lições de vida e karatê aprendidas com o mestre Miyagi para se tornar um adulto melhor.

É fato que as coisas são diferentes hoje em dia, que as crianças são muito mais precoces e que o contato com coisas mais violentas e erotizadas acontece cada vez mais cedo. Vivemos em um mundo onde as crianças quase não vivem a infância. Muito pelo acesso a coisas que não deveriam estar ali, mas até que ponto isso permite que coisas negativas sejam cada vez mais explícitas?

Como um ciclo vicioso, ninguém mais sabe responder se as crianças são mais maduras porque as expomos a coisas inadequadas, estimulando um amadurecimento desproporcional e precoce, ou se a expomos porque elas já apresentam uma maturidade que custava mais a chegar.

O novo Karatê Kid é uma boa demonstração de como as coisas hoje são diferentes. No filme, o adolescente Daniel San dá lugar a Dre Parker, uma criança de onze anos. A trama é a mesma, o que muda é a idade do protagonista; o local (a mudança não é para a Califórnia, mas sim para a China); a arte marcial, que deixa de ser karatê para virar kung-fu, e os níveis de violência.

Não que o título original não fosse violento. Era sim, como qualquer filme que explore o bullying – ato de perseguir e humilhar as pessoas na escola. Mas uma necessidade plástica de expor os golpes de kung-fu e o fato dos combatentes serem menores de quinze anos tornam tudo menos palatável e muito mais agressivo.

Dre chega à China e começa a ser perseguido pelo grupo de vizinhos, todos praticantes de kung-fu. Como no original, o zelador, aqui também amargurado por uma perda do passado, vai ensiná-lo a arte do kung-fu com ensinamentos básicos do dia-a-dia (sai a cera e entra a jaqueta) e ajudá-lo no treinamento para o campeonato de kung-fu que ocorrerá na cidade.

Quem conhece bem a história vai ter que lidar com uma sensação estranha. Tudo acontece exatamente como esperamos. E não é só por ser um roteiro básico que segue a receita usual. Mesmo travestido e modificado, o que vemos na tela é o mesmo que se viu em 84, com direito a parque de diversão, confissões embriagadas, lesões da luta e métodos orientais de cura.

Mais uma vez, agora pelo conhecimento completo da história, o que salta aos olhos é como as crianças estão sendo retratadas em tela. Mesmo que a violência seja uma realidade na vida de crianças cada vez menores, não existe nada que consiga justificar a exposição à, por exemplo, uma cena em que adolescentes seguram Dre para ele levar uma surra até não conseguir mais. “Sem piedade”, diz o agressor de doze ou treze anos.

Com uma classificação indicativa para maiores de dez anos, o filme traz Jaden Smith como um exemplo a ser seguido, mas não se preocupa muito em pregar a não violência que é um dos preceitos de quase todas as artes marciais. Pelo contrário, usa golpes que nunca vimos antes desferidos por gente de tão pouca idade.

Além disso, prega o culto ao corpo e vemos a transformação do pequeno Smith em uma espécie de Rambo infantil. Brincar e estudar para quê se ele pode passar horas e horas fazendo flexão?

Tantos hábitos maduros transformam todas as crianças do filme em mini-adultos. Sem elementos ingênuos, trata cada um dos menores como alguém que tem plena consciência, já pode responder por todos os seus atos e decide aquilo que vai fazer.

Mas, independente do que tinha na cabeça dos produtores e pais do elenco, o que se vê são crianças e é impossível não parar para pensar em que ponto se queria chegar com tudo que foi visto. Alguns falam que é uma maneira de retratar o bullying, mas em um mundo tão violento é necessário que crianças com mais de dez anos e menos de quinze sejam expostas a isso gratuitamente?

Será que isso não faz com que a violência se justifique de alguma maneira? Será que não é mais um estímulo para que se abandone a infância e amadureça ainda mais rápido do que já acontece hoje?

Sinceramente, o filme sabe como trabalhar a ação e, com um bom elenco, consegue criar uma empatia com o público, mas fica prejudicado por todas essas questões.

No final das contas quem perde são as crianças que vão assistir ao filme. E o original também que, embora retrate a história de quase adultos, sabia ser adequadamente ingênuo.

Um Grande Momento

“A luta final, como já era de se esperar”

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