(The Hunger Games, EUA, 2012)

Aventura
Direção: Gary Ross
Elenco: Stanley Tucci, Wes Bentley, Jennifer Lawrence, Willow Shields, Liam Hemsworth, Elizabeth Banks, Sandra Ellis Lafferty, Paula Malcomson, Rhoda Griffis, Sandino Moya, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Toby Jones
Roteiro: Suzanne Collins (romance), Gary Ross, Billy Ray
Duração: 142 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Jogos Vorazes é a continuação ideal para o que foi deixado ao final da saga Harry Potter. Iniciando a partir do ponto que a franquia bruxa levou quatro anos para atingir, este lançamento divide com O Cálice de Fogo mais do que jogos letais como tema, mas também um episodio histórico que define drasticamente o futuro da sociedade que retrata.

Aqui, porém, não temos uma criança sobrecarregada pela responsabilidade de se tornar um herói e que é auxiliado por um mentor poderoso em sua jornada. Em vez disso, temos uma vítima incomodada mas resignada com o mundo absurdo em que nasceu, alguém que cresceu carregando não o peso do heroísmo, mas sim do anonimato e da desimportância.

Estamos falando de Katniss Everdreen, uma jovem de 16 anos que vive no desprezado Distrito 12, na periferia de seu país, e que encontrou na caça ilegal a única opção para manter sua família e a si mesma viva. Para surpresa de todos, estas suas duas habilidades – caçar e sobreviver – serão suas únicas arma e defesa ao acabar levada pelo seu governo para participar do absurdo programa de TV do título, que todos os anos reúne 24 tributos (dois civis de cada um dos doze distritos do país) para competir em uma arena pela vitória e a vida, que só poderá pertencer a um.

Adaptação de um best-seller que irá, por algum tempo, compartilhar a prateleira dos ensaios de ficção-científica (arriscarei apostar quanto tempo depois de ler os dois outros livros da trilogia), este primeiro filme da inevitável franquia traduz para as telas os mesmos tons contrastantes do livro: de um lado temos os distritos da periferia, que são apresentados com uma fotografia cinzenta e barrenta, dessaturada, com a câmera sempre na mão e até os figurinos, que ressaltam o modo rebanhesco como aquelas pessoas são tratadas, como revela a cena em que o distrito se reúne na praça central; do outro lado, temos a estonteante Capital, que surge com cores vivas e berrantes e um excelente design de produção que, apesar dos desenhos diferentes, confere às magistrais construções um aspecto semelhante ao das cidades vistas na série “Battlestar Galactica”, por exemplo, o que não deixa de ser uma tentativa bem-vinda de evocar a seriedade desse pequeno clássico contemporâneo.

Da mesma forma, a sobriedade do texto de Suzanne Collins (que também assina o roteiro) é representada no filme através da delicada direção de Gary Ross, que até comete seus pequenos equívocos, como a primeira hora quando peca pelo ritmo lento, mas faz o que pode para atingir o espectador com o mesmo frio na barriga experimentado pelos personagens – em particular, nos momentos de silêncio, que parecem protestar quando um sorteio é feito e nos desorientar quando a competição finalmente tem início.

Enquanto isso, as sequências de maior ação jamais soam confusas, apesar dos cortes muito rápidos, e até mesmo os frágeis efeitos especiais parecem orgânicos ao universo da história, já que soam exatamente como o que são: artificiais (como as chamas nas roupas de Katniss).

Os personagens do longa são uma atração à parte. Peeta Mellark, o segundo tributo do Distrito 12, nos deixa em conflito quanto às suas intenções, enquanto Haymitch Abernathy, antigo vencedor da disputa e agora mentor dos tributos, nos hipnotiza e incomoda com seu aspecto de animal domesticado rebelde. Por fim, Donald Sutherland constrói seu vilão com uma curiosa característica dumbledoriana, o que lhe confere inteligência e poder e o torna ainda mais ameaçador.

Jogos Vorazes é, sem dúvidas, a continuação ideal para o que foi deixado ao final da saga Harry Potter. Em vários sentidos, mas em especial por pular toda a parte infantil e ir direto para os sombrios conflitos políticos que envolvem e movimentam a história. E, ao final, se compreendemos que Katniss não conseguirá continuar resignada com os absurdos de sua sociedade, fica claro também que seus antagonistas fizeram a mesma constatação e que tudo o que vimos foram nada menos do que sintomas que indicam uma inevitável revolução social.

Neste sentido, o plano que encerra a projeção é inteligente por nos antecipar que o inimigo sabe exatamente o que está prestes a ter que lidar. O que imediatamente o coloca um passo a frente da nossa heroica protagonista e nos avisa para prender a respiração.

Um Grande Momento

Katniss faz um gesto para o Distrito 11.

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