(Restless, EUA, 2011)

Drama
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Mia Wasikowska, Jane Adams, Schuyler Fisk, Henry Hopper, Ryo Kase, Lusia Strus, Paul Parson, Thomas Lauderdale, Christopher D. Harder, Morgan Lee
Roteiro: Jason Lew
Duração: 91 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

“(…) Quem agüentaria fardos,
gemendo e suando numa vida servil,
senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
o país não descoberto, de cujos confins
jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
nos faz preferir e suportar os males que já temos,
a fugirmos para outros que desconhecemos?”
Hamlet, de William Shakespeare

A preocupação com o fim da vida existe desde quando o cérebro dos primeiros hominídeos começou a evoluir e o homo sapiens passou a questionar a sua própria existência. O homem tornou-se então o único animal a realizar rituais fúnebres e enterrar seus mortos ou, em outras palavras, a única espécie que desenvolveu a consciência de sua própria finitude. Sabemos que vamos morrer e aqueles a quem amamos também irão. É fato que todos nós, em algum momento da vida, nos entristeceremos e nos interrogaremos a respeito dessa questão angustiante e por vezes insuportável. Não queremos morrer, não desejamos perder “para sempre” pessoas queridas que passam por nossas vidas. Como suportar essa frustração que a vida real nos impõe? É preciso algum alento para seguir em frente. E é para amenizar essa angústia humana que a religião, a filosofia e a arte nos são oferecidas como redenção.

As religiões nos prometem a salvação. Mas do que necessitamos ser salvos? Exatamente daquilo que mais nos ameaça: a morte. Na doutrina cristã, cujo maior dogma é a ressurreição, é pelo amor e pela fé que podemos conquistar a imortalidade. A filosofia também se ocupou de buscar formas de compreensão e aceitação da morte desde a antiguidade. Michel de Montaigne, pensador humanista da renascença francesa, afirmou em seus Ensaios que “filosofar é aprender a morrer”. Nas artes a morte sempre foi musa inspiradora. Vide o célebre quadro “O Triunfo da Morte”, em que o pintor belga Peter Bruegel retrata o horror que a peste negra causou na Europa, ou ainda a mais famosa tragédia de William Shakespeare, Hamlet, escrita entre 1599 e 1601, e cujo trecho ilustra o início deste texto.

Na sétima arte não é diferente. Seja no romantismo açucarado de Ghost, no suspense psicológico de O Sexto Sentido ou até mesmo na leveza cômica de A Noiva Cadáver, o cinema sempre foi terreno fértil para abordar o tema. Ora tratando da inevitabilidade do fim, ora simplesmente fantasiando com a esperança de uma vida pós-terrena, o cinema muitas vezes torna-se um instrumento de expressão das angústias e questões existenciais do artista que busca encontrar alento com sua arte. Este, certamente, parece ser o caso de Gus Van Sant.

Assim como um dos protagonistas de Inquietos, seu mais recente filme, o prestigiado cineasta norte-americano parece ter uma certa obsessão com a morte. Várias de suas obras recentes tratam diretamente do assunto. Em Gerry, dois amigos caminham por um deserto, perdem-se e nunca mais são encontrados. A morte é onipresente e ocorre de forma acidental. Em Elefante, que retrata o massacre da escola de Columbine a partir do ponto de vista dos jovens autores, a morte ocorre como um assassinato em massa e sem sentido. Last Days remete às últimas horas de vida de Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, e tem a morte interagindo o tempo todo com seu protagonista que simplesmente não consegue se adequar à vida.

Em Inquietos Gus Van Sant nos apresenta a morte travestida de drama adolescente. Como no clássico filme romântico dos anos 70, Love Story: Uma História de Amor, a paixão de dois jovens tem de ser interrompida por uma doença terminal. Seguindo a linha de outras obras de sua filmografia, como Garotos de Programa, Elefante e Paranoid Park, o filme acaba por abordar também outro assunto caro a Van Sant: as questões da adolescência.

Henry Hopper interpreta Enoch, um jovem órfão que vive obcecado pela morte. Tendo como único amigo Hiroshi, o fantasma de um piloto kamikase japonês da Segunda Guerra Mundial, o jovem passa a maior parte do tempo vestido de preto e indo a funerais de pessoas desconhecidas. É num desses eventos que conhece Annabel, uma bela garota apaixonada por pássaros e interpretada por Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas). Se Enoch pensa compulsivamente na morte apesar de ter uma vida inteira pela frente, Annabel é apaixonada pela vida e procura vivê-la intensamente, embora sofra um câncer em estágio terminal e lhe restem apenas três meses para isso.

O que se vê depois é como os dois jovens se apaixonam e passam a assumir as estranhezas um do outro. Annabel vai a um funeral de estranhos encontrar Enoch e por vezes o usa como intérprete para conversar com o fantasma Hiroshi, a quem ela não consegue ver. Enoch passa a decorar nomes de pássaros de um livro de Annabel, como se aquilo pudesse fazer algum sentido para ele. Os dois namoram e fazem visitas ao cemitério, ao necrotério e ao hospital. Essa fusão de estilos entre os enamorados muda a perspectiva de vida de ambos. Enoch abandona sua morbidez agressiva e passa a aproveitar a vida com toda a intensidade que Annabel imprime a ela. A jovem não se preocupa com sua própria morte, e tudo lhe parece feliz e no lugar certo simplesmente porque o roteiro assim determina que ela seja.

Mia Wasikowska é um dos trunfos do filme, embora pareça um tanto quanto bela e saudável para quem passa por um estágio terminal de câncer no cérebro. Se por um lado ela tem de interpretar uma Annabel empobrecida e pouco complexa dramaticamente por ausência de conflitos em relação à própria morte, por outro a jovem atriz encarna com muito talento e graça uma personagem que é a personificação da aceitação, tornando por vezes comovente uma interpretação onde o risco de cair na pieguice era gigantesco.

Já Henry Hopper não é tão bem sucedido na construção de seu Enoch. Coube ao filho do recém-falecido ator Denis Hopper interpretar um jovem mórbido com um enorme sentimento de negação. O ator com sua interpretação dócil não convence como bad boy rude que não aceita ser contrariado, alguém capaz de ser expulso da escola por espancar um colega defendendo a honra dos pais mortos, ou que ameaça agressivamente o médico da namorada exigindo que ele a cure. Mesmo com um certo esforço do roteiro, que o força a dizer em determinado instante: “quando quero que algo saia de um jeito e não sai, é difícil”, tais momentos parecem absolutamente deslocados no filme.

O pouco expressivo Hiroshi, o fantasma interpretado por Ryo Kase, que parece não ter muito o que fazer na eternidade além de jogar batalha naval com Enoch, foi criado para ser um alterego do personagem de Hopper. Uma verdadeira muleta dramática, cujo roteiro não dá margem sequer para que pensemos se tratar apenas de um amigo imaginário do perturbado adolescente. A artificialidade do personagem é escancarada, sobretudo no final do filme.

O elenco conta ainda com outra filha de celebridade, Shuyler Fisk, filha de Sissy Spacek e Jack Fisk, no papel de Elizabeth, a irmã mais velha superprotetora de Annabel. Uma figura que certamente poderia trazer um conflito mais consistente ao roteiro, já que não aceita a relação de Enoch com a irmã doente. Porém não passa de uma personagem sem função definida e pouco aproveitada no filme.

Quem assina o roteiro é o novato Jason Lew, colega de faculdade da atriz Bryce Dallas Howard, que o incentivou a escrever o filme e o produziu juntamente com Brian Grazer e seu pai, o cineasta Ron Howard. A inexperiência do roteirista, que povoa o filme com situações pouco verossímeis e diálogos irreais, é latente. De fato, é difícil compreender como um cineasta experiente como Gus Van Sant encampou esse projeto.

Embora o diretor tenha afirmado em entrevistas que Inquietos não é sobre a morte e sim sobre a vida, a morbidez do roteiro é tão obsessiva que chega a mascarar o esforço de Mia Wasikowska em caracterizar sua personagem como uma garota apaixonada pela vida. Esse exagero é notado em situações como a existência do fantasma japonês, o fato de Enoch ser órfão e ter estado morto por três minutos, seu hábito de frequentar funerais, os planos em que marca seu corpo com giz no chão, os passeios no cemitério e a visita ao necrotério.

Há outros tropeços significativos no roteiro. A trama que explica o trauma de Enoch é pobre e simplista. A briga entre os protagonistas soa completamente artificial e sem sentido, e tem por função apenas gerar um ponto de conflito na história. E não se pode deixar de citar a terrível intervenção de Hiroshi para promover a reconciliação entre Enoch e Annabel.

Para piorar, Jason Lew não nos poupa de uma infinidade de diálogos piegas e pouco realistas, como a descrição que Annabel dá do pássaro que todos os dias canta uma linda canção de felicidade ao descobrir que não está morto, ou quando Enoch apresenta Annabel aos seus pais diante do túmulo onde repousam. Buscando provocar momentos forçadamente tocantes e sensíveis, o roteiro derrapa em um festival de clichês típicos do cinema independente norte-americano, o que acaba por dificultar qualquer pretensão de que o filme seja levado a sério.

Tecnicamente, a obra não compromete. Embora instável em sua filmografia, Gus Van Sant permanece um diretor versátil e sua experiência lhe garante uma direção segura de um roteiro repleto de armadilhas. Ao contrário de seus filmes mais autorais, “Inquietos” possui uma narrativa tradicional, assim como fizera em seus títulos mais conhecidos, Gênio Indomável e Milk: A Voz da Igualdade, porém ainda mantém o tom intimista comum a várias de suas obras.

Hábil diretor de atores, Van Sant costuma fazer um bom trabalho com os mais jovens, explorando com eficácia suas inquietações e desejos. Em Inquietos esse trabalho é marcante especialmente porque o cineasta consegue obter de seus protagonistas um tom mais contemplativo, que é onipresente e sensibiliza o espectador de forma eficaz. Aliás este é o maior mérito do filme. Porém se o silêncio dos personagens diz muito na comunicação do filme com a platéia, Van Sant desliza quando apela para falas em off visando tornar os anseios dos personagens claros ao público de forma didática e gratuita.

A fotografia de Harry Savides, que já havia colaborado com o diretor em Milk, capta belas imagens do inverno de Portland, onde o filme é rodado. A fusão de personalidades do jovem casal também é refletido na direção de arte de Benjamin Hayden. Os tons monocromáticos buscam alcançar uma certa melancolia que case com a morbidez de Enoch. Ao mesmo tempo os doces, decorações e fantasias do Dia das Bruxas trazem uma alegria e inocência infantil que é o reflexo da personalidade de Annabel. Essa combinação também confere uma atmosfera onírica ao filme, quase que caracterizando os momentos de alegria vividos entre os apaixonados como um sonho que em breve acabará.

O clima onírico também é reforçado pelo figurino de Danny Glicker, seja no uniforme de soldado japonês da Segunda Guerra de Hiroshi, seja na fantasia de gueixa que Annabela usa no Dia das Bruxas, ou ainda nas antiquadas roupas fúnebres que os jovens utilizam em suas visitas a funerais.

O ex-líder da banda Oingo Boingo, Danny Elfman, parceiro de Tim Burton em muitos de seus filmes, assina a trilha sonora moderninha que busca criar um clima de sensibilidade permanente. Assim como as canções, desde a primeira cena, com a música “Two of Us” dos Beatles, que repete muitas vezes o refrão bastante simbólico para um filme sobre a morte “we’re on our way home” (estamos a caminho de casa), até a óbvia canção da cena final, “The Fairest of The Season” interpretada por Nico:

A Mais Belas das Estações

Agora que é hora
Agora que o ponteiro aterrizou no fim
Agora que é real
Agora que os sonhos deram tudo que eles tinha que emprestar
Eu quero saber se eu fico ou eu vou
E talvez tento outra vez
E eu realmente tenho uma mão no meu esquecimento?

Embora “Inquietos” esteja longe de ser um filme perfeito, é bem intencionado. Há em seu projeto um objetivo latente de posicionar a arte como instrumento de compreensão e aceitação daquela que desde os primórdios é a maior das angústias humanas: a consciência da própria finitude e com ela o reconhecimento de nossa impotência ante a dor da perda.

Um Grande Momento

Em uma inesperada concessão metalinguística, o jovem casal encena a morte de Annabel sem que o público se dê conta de que se trata apenas de um ensaio.

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