(Public Enemies, EUA, 2009)

Particularmente, gosto de filmes de gângster. Graças à trilogia Poderoso Chefão de Coppola, aos melhores filmes de Scorsese e a Scarface de Brian De Palma, criei uma admiração por filmes do gênero e só isso já foi o suficiente para gerar uma expectativa pelo novo filme de Michael Mann estrelado por Johnny Depp.

A história também prometia. John Dillinger ficou conhecido com o maior ladrão de banco dos Estados Unidos. Reza a lenda que dois minutos eram tempo bastante para ele limpar o cofre de uma instituição. No auge do crash da bolsa, quando os bancos eram mal-vistos por todos os cidadãos, Dillinger era visto pela população como uma espécie de Robin Hood e provocava furor por onde passava, já que não roubava de clientes e, mesmo que deixasse uma trilha de policiais mortos após seus assaltos, não fazia mal a seus reféns.

Se de um lado tinhamos o bandido, mesmo admirado por todos ele não deixava de ser um bandido, de outro tinhamos o início do FBI e seu diretor, J. Edgar Hoover, conhecido por métodos nada ortodoxos e uma vaidade absurda. Sem se importar com os meios utilizados, ele criou um esquadrão unicamente para capturar Dillinger e designou seu comando ao investigador Melvin Purvis.

O filme de Michael Mann, com roteiro de Ronan Bennett, Ann Biderman e do próprio, sabe como mesclar fatos reais às liberdades poéticas. Em seus 140 minutos consegue trazer muita ação às fugas, assaltos e perseguições e ainda desenvolve bem cada um de seus personagens.

E mais, consegue demonstrar toda a ambivalência da relação mocinho-bandido e é contundente ao mostrar que se dizer de um lado ou de outro não o faz menos perigoso e nocivo à sociedade. O que parece tratar do caso de duas criaturas de ego inflado como Dillinger e Hoover e de um meio de campo obstinado e perdido, como Purvis, remete a uma realidade muito mais recente dos Estados Unidos. Mais precisamente à era Bush filho.

Como em toda a obra do diretor, a câmera é responsável por muito mais do que uma simples exibição do que está acontecendo. Os enquadramentos fechados, quase sufocantes, deixam o público perto daquela realidade e a câmera nervosa, instável, aumenta essa sensação. A opção pela câmera digital nas cenas de ação também é excelente e confirma o domínio de Mann sobre a nova tecnologia, sabendo usá-la sempre na medida certa.

A atuação de Johnny Depp, como era de se esperar, é sublime. Depois de uma sequência de personagens exóticos como o pirata Jack Sparow, o doceiro Willy Wonka e o barbeiro vingativo Sweeney Todd, ele interpreta novamente uma personagem comum e diz sempre tanto com seu olhar e sua postura que não há como negar que ele seja um dos maiores atores da atualidade.

Ao seu lado a bela e delicada Marion Cotillard que, na pele de Billie Frechette, consegue transmitir seu deslumbramento, sua insegurança e sua força em pequenos gestos. Billy Crudup está muito bem como Hoover e consegue fazer com que seu personagem não mereça mais do que a desconfiança e uma vontade de rir incessante. Outros grandes nomes estão presentes.

O problema do casting está em Christian Bale. Embora tenha criado uma legião de fãs pelo mundo com seus papéis blockbuster de Bruce Wayne e John Connor, ele não consegue ser tão expressivo para mim. Talvez por sua dicção tão característica, parece sempre ser o mesmo personagem, independente se está em um western, um filme de gângster, uma comédia ou uma ficção científica. Não que seja ruim, é correto, apenas, e ser só correto nesse filme acaba destacando negativamente.

A trilha sonora é irregular. Enquanto contamos com belíssimas músicas da sempre poderosa Billie Holiday, entre elas Bye Bye Blackbird, Love Me or Live Me e The Man I Love, existe um exagero na utilização das composições originais de Elliot Goldenthal, principalmente no começo do filme.

Outra coisa que incomoda um pouco é o uso de efeitos especiais no final do filme. Muito bem feitos, é verdade, mas desnecessários. Ainda assim é um filmão, com muito mais qualidades do que defeitos.

Um bom motivo para ir ao cinema, ainda que a narrativa possa ser considerada cansativa por muitos. O visual digital de Mann, ainda que seja inovador, também não é nenhuma unanimidade.

Mas, ainda assim, merece ser conhecido por todos.

Um Grande MomentoA conversa entre as grades de Dillinger e Purvis.

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Ação
Direção: Michael Mann
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Billy Crudup, Marion Cotillard, James Russo, David Wenham, Christian Stolte, Stephen Dorff, Giovanni Ribisi, Shawn Hatosy, Adam Mucci, Stephen Graham, Stephen Lang, Matt Craven, Lili Taylor, Leelee Sobieski, Bill Camp, John Ortiz, Diana Krall
Roteiro: Ronan Bennett, Michael Mann, Ann Biderman
Duração: 140 min.
Minha nota: 8/10