Ah, como tem sido difícil ir ao cinema hoje em dia! Nem consigo me lembrar quando foi a última vez que estive numa sala sem me irritar com conversinhas e luzes de celulares que não param de acender durante a projeção. E não interessa se a sessão é cara, se o horário é específico ou a sala é conhecida pelo mais cinéfilo dos públicos, a falta de educação tem sido uma regra.

A vontade é levantar, tirar a pessoa da sala sob vaia e cadastrá-la numa lista de pessoas que ficariam proibidas de se aproximar de salas de cinema, como fizeram com os hooligans nos estádios britânicos. Sem lanterninhas disponíveis e levando sempre em consideração a educação que temos e falta aos nossos companheiros de escuro, nunca vamos muito além de psius e da esperança de que funcionem.

Mas como é difícil não sair do sério…

Dia desses estávamos eu e Rodrigo, meu filho, prestes a assistir a um desses dispensáveis filmes americanos cheios de explosões, tiros e perseguições mirabolantes que não duram muito tempo na mente de ninguém. Era a sessão das 17h e o cinema era o Cinemark do Pier 21. Já estávamos sentados nas poltronas que sempre escolhemos, com as luzes apagadas e no meio dos trailers quando entra na nossa fileira uma dessas loiras de academia com cabelo na cintura e calça apertada. O desfile sem pressa até a cadeira vazia ao lado do namorado já era um prenúncio de uma experiência desnecessária.

Mal sentou na cadeira, ela começou a conversar com o namorado como, provavelmente, faz enquanto assiste à novela. “Você nem me viu entrando”, “por que não me esperou na porta?”, “não queria vir comigo?”, e mais um punhado de comentários que não diziam respeito a ninguém além dos dois começaram a irritar. Mas ainda estávamos no período de trailers, quando uma certa tolerância ainda existe.

O filme começou e nada dela calar a boca. E falava sobre o cabelo da amiga, sobre o sapato que comprou, sobre a falta de amor no namorado. Não tinha psiu e nem comentário alto dos outros que a fizessem parar. No máximo ela olhava para trás com cara de nojo e continuava falando.

Rodrigo, que já conhece a mãe que tem quando está dentro do cinema, nem pensou em contestar o meu pedido de mudar de lugar. Fomos umas cinco fileiras para cima e continuamos a ver o filme. Estava longe e, mesmo com uma cidade sendo explodida sem dó nem piedade na telona, a voz da menina ainda chegava lá. Do coitado do namorado não se ouvia nada. Talvez estivesse mudo de vergonha ou, junto com a gente, torcendo para um dia ela ter o azar de sentar ao lado de Lars von Trier. É a única esperança para o caso.