(Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, BRA/ARG/FRA, 2011)

Drama
Direção: Júlia Murat
Elenco: Sonia Guedes, Lisa E. Fávero, Luiz Serra, Ricardo Merkin, Antonio dos Santos, Nelson Justiniano, Maria Aparecida Campos, Manoelina dos Santos, Evanilde Souza, Julião Rosa, Elias dos Santos, Pedro Igreja
Roteiro: Julia Murat, Maria Clara Escobar, Felipe Sholl
Duração: 98 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Tempo parece ser algo que inexiste na cidade fictícia de Jotuomba. Ou talvez exista tempo demais. Histórias Que Só Existem Quando Lembradas mostra a relação de um grupo de moradores desta cidade do Vale do Paraíba e a revisão da sua atemporalidade quando uma jovem fotografa chega e passa a ser parte deste cotidiano.

Todos os dias eles fazem tudo sempre igual. Madalena (Sonia Guedes) anda com sua lamparina até a cozinha e faz pão, que leva ao armazém de Antonio (Luiz Guerra), que é quem prepara o café. Os dois filosofam sobre a vida sentados em um banco. Na igreja em ruínas, os fiéis rezam e em seguida fazem sua refeição com o padre. Madalena varre a entrada do cemitério trancado. À noite, escreve cartas de amor ao marido morto. Coloca em um envelope e guarda. A lamparina se apaga. Só é acesa no outro dia. E tudo recomeça.

É desta maneira que somos apresentados a Jotuomba, uma cidade parada no tempo. De forma lenta, compassada, ilustrada por quadros longos e imóveis, trazendo uma sensação de marasmo. Entre este passar dos dias, Rita (Lisa Fávero) chega meio que a esmo à cidade e hospeda-se na casa de Madalena. A entrada dela na trama faz também com que o ritmo do filme mude. O telespectador, a partir da presença desta nova personagem, começa a entrar no detalhe da vida da cidade. Os quadros, que antes eram preenchidos basicamente por imagens, ganham mais diálogos gerando uma proximidade entre a audiência e os cidadãos de Jotuomba.

São várias as possibilidades de leituras que o filme nos permite fazer. Passando pela macro observação da sociologia abordando a relação homem da cidade grande x homem do interior enquanto agrupamento de pessoas, chegando ao micro, quando mergulha nas questões singulares de Rita e Madalena evidenciadas a partir da convivência e a troca de experiência entre a jovem e a idosa.

Rita é o “outro olhar” sobre esta cidade. Não é à toa que desempenha o ofício da fotografia no filme. É através das suas lentes, não necessariamente as que compõem o seu aparato fotográfico, que o sentimento da cidade é exposto. A cidade também é personagem. Reveladas em preto e branco, as fotos do vilarejo carregam a beleza e a dor daquilo e daqueles que parecem ter se esquecido de morrer. Rita aos poucos muda a cidade. Mas a cidade também muda Rita.

Histórias… foi visto na 35º Mostra Internacional de Cinema e já ganhou diversos prêmios, muitos internacionais. Entre eles Melhor Filme nos Festivais de Abu Dhabi, Varsóvia, Reykjavik e Roterdã. Todos com muita justiça. O trabalho da diretora e roteirista Julia Murat é excepcional. A sensação que temos é a de que cada cena foi preparada de forma tão delicada, tão cuidadosa, tal qual Madalena ao preparar a massa do pão e Julia ao manipular a quantidade de luz nas revelações das fotos.

A explêndida direção de fotografia é do argentino Lucio Bonelli. A parceria entre ele e Julia Murat é um dos pontos altos do filme. Nos momentos de ausência de diálogos, a estética fotográfica impressa por Bonelli é responsável por conduzir a trama através de sensações e não de entendimentos.

O roteiro é carregado de lirismos e frases poéticas. O título por si só já é quase um poema. É comovente ver em tela uma personagem tão comedida e que ao mesmo tempo tem muito a dizer como Madalena, interpretada de forma brilhante por Sonia Guedes. Escrita por Julia Murat, Maria Clara Escobar e Felipe Sholl, esta história cresce e vai nos tocando à medida que fica claro que Rita representa o sentimento do telespectador diante do contato com aquelas pessoas.

Mas quem são aquelas pessoas? Meros moradores de um vilarejo morto e perdido no tempo ou protagonistas de uma história com temas tão universais e atuais e exatamente por isto atemporais?

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas é a obra de uma jovem e promissora diretora que encanta e surpreende ao fugir de temas como miséria, corrupção e violência tão vistos em filmes ambientados em cenários regionais. Ela mergulha com maestria no micro universo de Jotuomba para nos mostrar que não é necessariamente o tempo e o espaço que fazem com que algumas histórias nunca sejam esquecidas.

Um Grande Momento

Quando Madalena posa para Rita.

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