(The Help, EUA, 2011)

Drama
Direção: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Ahna O’Reilly, Allison Janney, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell
Roteiro: Kathryn Stockett (livro), Tate Taylor
Duração: 146 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Não existe nada mais estúpido do que o preconceito. Qualquer que seja ele. Uma pessoa se achar superior a outra porque ela não tem as mesmas características, orientações, tradições ou preferências é algo de difícil explicação, mas muito mais comum do que deveria. O mundo é preconceituoso, talvez hoje menos do que já fora (ou não), e traços discriminatórios podem ser percebidos em quase todos os seus habitantes. Em um círculo vicioso, a ignorância leva à generalização, que leva ao afastamento e este mantém a ignorância.

Na história humana não faltam exemplos absurdos de discriminação contra grupos diferentes de crenças, origens, tradições, gêneros, ou etnias. No século I, Tácito já descrevia em detalhes as atrocidades contra católicos praticadas pelo Império Romano e elas não eram as primeiras, como a Bíblia deixa claro; sem falar nas Cruzadas e as conversões forçadas na Europa; mais de cem mil mulheres acusadas de bruxaria enforcadas ou queimadas vivas; as torturas da Santa Inquisição;  a Solução Final dos nazistas, que preconizava o genocídio sistemático de judeus, e tantas e quantas guerras que aconteceram e acontecem até hoje acobertadas pelo manto da religião.

Irracionalmente, estereótipos pejorativos seguem determinando grupos nacionais e regionais e justificam a segregação e atitudes desumanas; assim como, estatisticamente, as mulheres ainda ganham menos e trabalham mais, como aquelas 128 trabalhadoras que morreram trancadas em uma fábrica reivindicando melhorias; ou os homossexuais são agredidos na rua pelo simples fato de respirar o mesmo ar que os homofóbicos que o cercam.

Entre tantos tipos e métodos de preconceito, há a intolerância racial ou etnica, como deveria ser chamada, porque o ser humano tem raça única. Dentre as etnias humanas, os negros e os indígenas talvez tenham sidos os mais castigados pela história. No caso dos negros, escravizados pelos colonizadores do Novo Mundo, por sua cor de pele eram considerados menos capazes intelectualmente e menos humanos, o que justificava um tratamento pior do que o dispensado a qualquer animal irracional. Arrancados de suas terras natais, eram jogados dentro de navios enormes sem nenhuma higiene ou cuidado e comercializados em praças públicas naquelas que seriam a suas pátrias a partir dali, no novo continente.

Outros viram seus países serem tomados por brancos colonizadores e a maioria étnica ser controlada por uma minoria branca, como na África do Sul, onde o Apartheid virou lei, inferiorizou os negros, segregou direitos fundamentais como  educação e saúde e, literalmente, tomou do povo a sua cidadania. Absurdo que durou quase 50 anos e só deixou de estar em vigor em 1994, com o primeiro pleito democrático multirracial que elegeu Nelson Mandela presidente, mas ainda guarda alguns resquícios.

Em terras americanas a história não foi muito diferente, principalmente nos Estados Unidos e mais especificamente nos estados do Sul daquele país. Com o fim da escravatura, tentativas frustradas de reintegração social dos negros se sucederam e culminaram na criação de pacotes de leis não menos discriminatórios do que as da África do Sul. Conhecidas como “Leis de Jim Crow” – nome dado pelo artista Thomas Rice a um de seus personagens, um negro perneta e deformado que, em forma de música, se descrevia como bobo e preguiçoso, e que acabou virando apelido para os escravos negros do país – ou “Códigos Negros”, as normas segregacionistas limitavam direitos civis. Na região onde uma organização como a Ku Klux Klan linchava, matava e perseguia para confirmar a inferioridade pelo medo, a discriminação era legitimada pelo Estado.

Havia hospitais e escolas de negros e brancos e o que era destinado a uma das instituições não poderia ser emprestado ou utilizado pelo outro, o casamento interracial era proibido, restaurantes eram exclusivos, o acesso aos locais era separado, assim como os assentos nos transportes públicos e até mesmo os banheiros públicos tinham que ser exclusivos.

É neste contexto que se passa a trama de Histórias Cruzadas, inspirado no romance “A Resposta”, de Kathryn Stockett, sobre as empregadas domésticas negras que trabalhavam em casas de brancos durante os primeiro anos da década de 60. Ambientado em Jackson, Mississipi, o filme conta a história de uma jornalista recém-formada que, após voltar a sua cidade natal e não concordar com as ações discriminatórias, convence duas empregadas a contar suas histórias e expor o seu modo de ver todo o racismo a que são submetidas durante o trabalho.

A sempre ótima Emma Stone (A Mentira) vive a jornalista é Skeeter Phelan, e suas colaboradoras, Aibileen Clark e Minny Jackson, são interpretadas pelas também brilhantes Viola Davis (Dúvida) e Octavia Spencer (Assalto em Dose Dupla), respectivamente. O integrado elenco encabeçado pelas três atrizes ainda conta com Bryce Dallas Howard (A Vila), Ahna O’Reilly (Ressaca de Amor), Allison Janney (Juno), Sissy Spacek (Carrie, a Estranha), uma inspiradíssima Jessica Chastain (A Árvore da Vida) e transpira intimidade e entrega.

Com elenco suficiente para um bom resutado, o roteiro se aproveita da força da(s) história(s) que tem e segue uma linha básica, quadradona, sem invenções e reviravoltas, e chega ao espectador quase de forma didática, mas alcança seus objetivos eficientemente. Ainda que vez ou outra escorregue no melodrama ou se renda a narrações em off.

Como no livro, a história privilegia o ponto de vista feminino (do lado discriminante e discriminado) e explicita a questão da segregação racial através de uma lente menos agressiva e mais “familiar”, diferente de outros títulos mais engajados como o violento Mississipi em Chamas, o tenso No Calor da Noite, o político Uma História Americana ou o biográfico Malcolm X. Um distanciamento que pode incomodar mas, ainda que não seja nenhum Freedon Riders, documentário sobre um grupo interracial de ativistas que percorreu os estados do Sul dos EUA de ônibus, a  história consegue levar sua mensagem anti-preconceito.

E é aí que ganha pontos. Ao contar, mesmo de forma colorida, uma parte tão triste da história humana e relembrar um passado tão absurdo, Histórias Cruzadas traz a tona ações e sentimentos tão comuns a esta raça única, como o pré-julgamento, o medo do desconhecido, o desejo de superioridade, e o quanto o homem consegue ser irracional em seus atos.

Um filme funcional, tecnicamente correto e que, fora interpretações fantásticas, não chega a ser nada demais, mas vai muito além do que está sendo projetado na tela. E talvez algo assim seja muito importante nos tempos de hoje, onde a rapidez e anonimato da internet fazem renascer, ou resplandecer, tantas manifestações de ódio, intolerância e falta de respeito com o próximo.

Um Grande Momento

“Sem abraço… sem abraço…”

Logo-Oscar1Oscar 2012
Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)

Links

No IMDb Site Oficial