(Harry Potter and the Half-Blood Prince, GBR/EUA, 2009)

Em muitos fãs, a ansiedade para conferir Harry Potter e o Enigma do Príncipe começou quando os créditos de A Ordem da Fênix começaram a subir nas telas. O sucesso do pequeno bruxo criado por J. K. Rowling, que vai virando homem para enfrentar o pior bruxo de todos os tempos, é tão grande que, além do sucesso de venda dos livros e da bilheteria dos filmes, todas as novidades sobre as adaptações para o cinema são acompanhados de perto através pela televisão, revistas e sites especializados no assunto (isso mesmo, especializados em Harry Potter).

Como livro, O Enigma do Príncipe é um dos mais sombrios da série e traz perigos cada vez mais assustadores a seus protagonistas já bem mais velhos. Um dos maiores méritos que identifico na obra de fantasia de Rowling é justamente a competência com que a escritora conseguiu avançar na história, adequando a evolução escolar, a adolescência e o desenvolvimento e definição da personalidade de cada um dos personagens mirins. Além, é claro, de colocar as crianças para ler novamente.

Mas o Cenas é de Cinema e não vou ficar aqui falando das qualidades e defeitos da obra da escritora britânica. O que interessa aqui, na verdade, são as adaptações, que ora funcionam, ora não têm tanta sorte assim. Do primeiro a este filme, o sexto, os resultados foram os mais variados. Do começo infantil e meio sem jeito, com atores inexperientes e vacilantes, ao filme atual muita coisa evoluiu, e para muito melhor.

Para mim, nenhum filme da série poderia, até agora, superar toda a criatividade e o bom uso de cores e referências de Alfonso Cuarón em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. A diferença estava justamente na presença de cinema de verdade por ali. Todos os outros filmes da série são muito divertidos e têm várias qualidades, mas eu sempre senti que faltava alguma coisa.

Quando saí do cinema após a exibição de A Ordem do Fênix estava bem descrente de que veria a quantidade de cinema do terceiro título novamente. Não gostei da direção do televisivo David Yates, achei pasteurizada e deslumbrada com as novas tecnologias demais, e ao saber que ele seria o responsável pelos próximos três títulos desanimei.

O Enigma do Príncipe veio para mostrar que eu estava enganada e assumiu com honras o título de melhor filme da série. Ao optar por destacar apenas uma das muitas características do livro, pesando a mão em todo o lado sombrio da história (abrindo mão da ação e usando o romance para o respiro do público), e deixando de lado outros elementos e detalhamentos de personagens secundários, o roteiro de Steve Kloves conta uma história completa e eficiente.

A direção de Yates é muito segura e inspirada. Nunca se viu tanta arte em um filme da série. Todo o risco assumido, com a mobilidade do cenário, os jogos de luzes, os vazios em cena e atuações fortes o bastante para, sozinhas, construírem o clima, valeu a pena.

Todo o trabalho com os enquadramentos e a duração dos planos merece elogios. A linha visual do filme, com iluminação precisa do diretor de fotografia Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Across the Universe) é toda fantástica e faz toda a diferença. Um bom exemplo está na contraposição entre os personagens de Harry e Draco, muito percebida por suas cores e sombras.

O elenco está muito bem. Os atores ex-mirins Emma Watson e Rupert Grint comprovaram suas qualidades com o amadurecimento e todo o elenco de coadjuvantes exerce bem sua função. Mas o filme é mesmo de Daniel Radcliffe e Tom Felton. Pela primeira vez, Radcliffe parece ter plena consciência do que está fazendo e convence e Felton chama muita atenção ao transformar seu Draco Malfoy em uma pessoa realmente perturbada.

Entre os professores, Alan Rickman mais uma vez consegue se destacar ao manter as mesmas e indefinidas características de seu personagem, sendo o mais regular em toda a série.

Como não poderia deixar de ser, a direção de arte, com desenho de produção e cenário assinados novamente por Stuart Craig e Stephanie McMillan respectivamente, mantém a mesma linha dos filmes anteriores. O som é impressionante, apesar de perder significativamente a qualidade na versão dublada.

Alguns elementos do livro que sempre funcionam, como o sempre movimentado jogo de quadribol, não foram desperdiçados. Assim como alguns detalhes dos relacionamentos dos personagens. Fácil ver todo mundo torcendo pelo romance de Rony e Hermione ou intrigado pelas semelhanças entre Potter e Riddle.

Claro que o filme, como sempre, causou muita polêmica e desagradou alguns por ser diferente do livro. É mesmo, falta muita coisa, mas ainda assim é um filme com começo, meio, fim e sentido. Para ter um filme com todas as informações do livro seria preciso, pelo menos, mais duas horas e meia de duração.

A trilha sonora continua presente demais e alguns momentos mais sombrios seriam muito mais eficientes no silêncio, mas talvez o filme ficasse muito mais pesado do que o indicado para a faixa etária do público.

Ainda assim, seguindo o movimento crescente de elementos assustadores, O Enigma do Príncipe tem cenas bem chocantes para os mais novos, como o feitiço em Cátia Bell ou o fim da briga de Harry e Draco no banheiro, e não deve ser visto por crianças muito pequenas.

Uma excelente surpresa para uma época em que fazer continuações e adaptações está tão batido que a criatividade e a arte já não precisam estar presentes no processo. Imperdível para os fãs do bruxo e um bom programa para aqueles que gostam de cinema também.

Um Grande Momento

São tantos, mas fico o confronto de Harry e Draco no banheiro.

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Aventura/Fantasia
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Bonnie Wright, Michael Gambon, Jim Broadbent, Julie Walters, Helena Bornham Carter, Dave Legeno, Helen McCrory, Timothy Spall, Alan Rickman, Tom Felton, Robbie Coltrane, Maggie Smith, Hero Fiennes-Tiffin, Frank Dillane, Freddie Stroma, Evanna Lynch, Matthew Lewis, Isabella Laughland, David Thewlis, Natalia Tena, Georgina Leonidas, Jessie Cave
Roteiro: J. K. Rowling (romance), Steve Kloves
Duração: 153 min.
Minha nota: 8/10