(Habemus Papam, ITA/FRA, 2011)

Drama
Direção: Nanni Moretti
Elenco: Michel Piccoli, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Franco Graziosi, Camillo Milli, Roberto Nobile, Ulrich von Dobschütz, Gianluca Gobbi, Nanni Moretti, Margherita Buy
Roteiro: Nanni Moretti, Francesco Piccolo, Federica Pontremoli
Duração: 102 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A fumaça branca é o sinal de que um novo Papa foi eleito e é também o que indica o início do novo filme do diretor e também ator, Nanni Moretti. Habemus Papam passou pelo Brasil em 2011 durante a 35ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e retorna agora em exibição nacional.

À primeira vista, esta poderia parecer mais uma história sobre a Igreja Católica e os supostos segredos que envolvem o Vaticano da sua porta para dentro. As tomadas em plongée (de cima para baixo) mostrando a Praça de São Pedro lotada de fiéis de todo o mundo, a cobertura grandiosa da imprensa e toda a seriedade de um ritual de Conclave parecem ter sido colocadas propositalmente no começo do filme para nos passar esta impressão.

Porém, Moretti prefere seguir por outro caminho, sem precisar cair na tentação de abordar temas como pedofilia e escândalos na Igreja, e consegue falar sobre mistérios e segredos, principalmente os que envolvem a mente humana. Nada mais interessante do que falar da “caixa-preta’ do representante supremo de uma instituição que pouco expõe os hábitos e rotinas dos seus sacerdotes.

O ponto de partida do filme é a crise de pânico que o escolhido como novo Papa sofre no ato de subir até a sacada da Capela Sistina e saudar os fiéis. A frase que dá título ao filme, Habemus Papam (Temos Papa, em latim), é proferida pelo cardeal decano mas, ao invés do eleito se revelar e seguir o roteiro da posse, o novo Sumo Pontífice corre na direção contrária, deixando os cardeais atônitos e milhões de seguidores à espera. Numa tentativa de entender o que se passou com o escolhido, a Igreja resolve procurar um psicanalista para acalmar os nervos do Papa e ajudá-lo a cumprir a missão de que lhe foi dada por Deus e seus companheiros de Conclave.

A partir deste ponto, a trama se desenrola através das metáforas inteligentes criadas por Nanni Moretti que, além de dirigir o longa, atua como o psicanalista do Papa. Durante todo o filme nos deparamos com referências ao estilo de vida considerado moderno dentro do Vaticano: celulares, aparelhos de ginástica, remédio para insônia, jogos e um Papa angustiado que consegue escapar da sua moradia oficial e resolve passar uns dias entre as pessoas comuns.

A história transita entre a comédia e o drama. As cenas onde o terapeuta interage com os cardeais são sempre carregadas de humor e alfinetadas no estilo de vida dos sacerdotes. Diversas questões são despejadas ao longo de situações inusitadas, como um campeonato de vôlei intercontinental disputado pelos membros do colegiado, enquanto estes esperam pela “melhora” do Papa, numa clara demonstração do poder político dos países na escolha dos representantes religiosos. Também são nestas cenas que a dualidade entre alma (religião) e inconsciente (ciência) é abordada. As questões são bem divididas no filme.

A figura do Porta-Voz do Vaticano, interpretado por Jerzy Stuhr (A Igualdade É Branca), serve de ponte entre as autoridades eclesiásticas e o mundo exterior. As passagens onde o cardeal Melville (Michel Piccoli) é apenas Melville e não o Papa trazem carga dramática à obra, aproximando Sua Santidade do homem comum e moderno que tem desejos e vontades próprias.

A direção é eficiente e sabe se aproveitar de um roteiro claro, figurinos bem elaborados e uma trilha que serve de apoio para ilustrar o tom dos quadros. “Todo Cambia”, de Mercedes Sosa, cumpre bem esta função. É nítida a preocupação do diretor em não transformar as figuras religiosas em caricaturas. Mesmo nos momentos engraçados, ele sabe dar a medida certa para continuar conduzindo o filme com leveza, apesar dos temas já exaustivamente vistos: religião x ciência x política.

A intenção não é por dedo em feridas e aprofundar-se em questões. O filme quer provocar reflexões a cerca de modelos obsoletos de comportamento e de sentimentos comuns a todos os seres humanos, mesmo que este seja uma Santidade a ponto de liderar milhões de pessoas que depositam nele a sua fé.

Um Grande Momento

Os cardeais e a bolsa de aposta para o novo Papa.

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