(Fuocoammare, ITA/FRA, 2016)
Documentário
Direção: Gianfranco Rosi
Roteiro: Gianfranco Rosi
Duração: 114 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A ilha de Lampedusa, na costa sul da Itália, foi recentemente palco de uma tragédia e, com divulgação intensa dos noticiários, deixou questionamentos que afligem todo o planeta. “Um homem de verdade não pode ignorar isso”, como diz, num certo momento, um dos personagens filmados pelo diretor Gianfranco Rosi. São os barcos de refugiados vindos da África e Oriente Médio que tentam chegar à Europa através da Ilha de Lampedusa, e essa será a história contada pelo documentário Fogo no Mar, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano.

Contudo, não espere uma investigação sobre todas as consequências e a origem dessas ações, nem entrevistas com autoridades, sobreviventes ou familiares que perderam parentes e amigos nessas tristes jornadas. Gianfranco Rosi, opta por uma abordagem muito mais sutil do contexto. Como costuma dizer em entrevistas, ele se ocupa de pessoas e suas histórias, pois, se não houver essa ligação, não vale a pena levar à tela.

Com essa aproximação, Fogo no Mar documenta histórias banais e retrata o dia-a-dia de moradores da ilha, que mantém o ritmo de suas vidas, mesmo com sua tranquila rotina sendo vizinha da horrenda tragédia, fruto de horrores muito mais amplos do que qualquer análise cinematográfica ou mesmo jornalística possa encerrar.

A produção é elaborada e as imagens são são ricas e de uma poesia ímpar, mas é preciso deixar claro que, mesmo com essas características, Fogo no Mar não se resume a uma glamourização da pobreza. O ritmo das filmagens e a forma como as histórias são conduzidas é bastante lento, parecendo, em certos momentos, ignorar os acontecimentos que levaram a ilha aos principais jornais do mundo. Na verdade, o diretor propõe uma junção impensável: aproximar duas realidades conflitantes.

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Com a mesma lente que acompanha o dia de um garoto que constrói estilingues para caçar pássaros, vai ao oftalmo, e aprende a trabalhar no mar em suas primeiras remadas, Rosi retrata também os corpos resgatados pela guarda costeiras em barcos superlotados de refugiados. E o faz com a mesma aproximação, mas sem nunca participar ou influenciar nas cenas. Essas são algumas justaposições que o diretor nos apresenta.

Ele não iguala, mas demonstra o drama humano de cada pessoa que passe frente à câmera, sempre com contrapontos. Uma senhora que ouve notícias no rádio enquanto cozinha e sobreviventes da Nigéria que narram quase como uma prece sua saga pelo deserto e o mar. Um homem que mergulha durante a noite na mais absoluta solidão para pescar e homens desidratados agonizando, recebendo os primeiros socorros.

A força maior do documentário – e o serviço que presta – está na escolha do objeto documentado, pois, se não há nenhum julgamento a respeito de todo esse drama, certamente, ao apontar sua câmera para esse cenário, o diretor assinala politica e socialmente seu pedido de atenção ao tema.

Por outro lado, essa trajetória muda e “puramente” artística perde a oportunidade de ser mais enfática ou esclarecedora. De certo, esse não é o objetivo do longa, o que não o torna menor e, muito menos, cínico diante do que o cerca e aquilo que de fato mostra.

A abertura do documentário informa que pelo menos 15 mil pessoas morreram nessa travessia, e essa sombra acompanhará o espectador pelos 114 minutos de Fogo no Mar. Entre sequências de uma ilha bucólica, o jantar de uma família de pescadores ou a calmaria do mar, sabe-se que há algo de errado e trágico na aparente paz.

Um Grande Momento:
O interior de um barco repleto de cadáveres.

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