(Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, BRA, 2011)

Drama
Direção: Beto Brant, Renato Ciasca
Elenco: Gustavo Machado, Camila Pitanga, Zecarlos Machado, Gero Camilo
Roteiro: Beto Brant, Renato Ciasca, Marçal Aquino
Duração: 100 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios é um filme estranho. Me encantou na primeira vez que o vi, a despeito do desconforto da sessão de festival, e cansou na segunda, numa vazia, confortável e, dentro das possibilidades, bem-educada sessão. Talvez porque na primeira vez a cinéfila ansiosa por filmes vivos e pulsantes tenha falado mais alto e na segunda a leitora apaixonada pela obra tenha prestado mais atenção na adaptação do romance de mesmo nome de Marçal Aquino.

O que se vê na tela é o desenvolvimento do triângulo amoroso devastador entre o fotógrafo Cauby, a ex-prostituta Lavínia e o pastor evangélico Ernani. O palco não poderia ser mais adequado: uma cidade que tenta superar o abandono e assiste ao desmatamento da selva amazônica.

Conheci o romance, por acaso, graças ao próprio Beto Brant, diretor do longa ao lado de Renato Ciasca, depois de assistir ao seu filme/videoarte O Amor Segundo B. Schianberg. Benjamin Schianberg é um filósofo fictício do amor, criado por Aquino e citado durante a trama de Eu receberia… para acompanhar o amor louco e descontrolado vivido pelos protagonistas da trama. Toda a paixão que me fez comprar o livro e lê-lo de uma sentada, me fez aguardar com ansiedade o filme e pareceu adequado na primeira visita, agora, à segunda vista, pareceu deslocada, antinatural.

Claro que questões principais se mantiveram com a mesma força, como a relação entre uma história afetiva de posse e poder e o que acontece hoje na Amazônia; ou a incapacidade humana de conviver e compreender os seus próprios sentimentos, e mais outras escolhas que têm o poder de transformar tudo ou, ao contrário, deixar tudo na mesma.

A força da personagem criada por Camila Pitanga também permanceu inalterada. Ainda que bem ladeada por Gustavo Machado, como Cauby, e Zé Carlos Machado, como Ernani, ela está soberana, absoluta, estonteante e mais um monte de outros adjetivos. Um trabalho de construção de personagem realmente irrepreensível e que lhe valeu os prêmios de melhor atriz no Festival do Rio e no Amazon Film Festival.

Mas passagens alongadas ao extremo, como a conversão de Lavínia, as muitas elipses e a opção por excluir a maioria dos personagens secundários do romance na adaptação sobrecarregam boas passagens e as enfraquecem. Muito do caráter pulsante, vivo, do longa se perde ao encontrar um espectador que já tenha desvendado seus mistérios principais, mas isso não diminui o arrebatamento da primeira visita.

Por mais estranho que seja, por mais que não mantenha o vigor de um primeiro contato, Eu Receberia… é um trabalho corajoso e intenso, que tem a capacidade de deixar os espectadores pensando nele por muito tempo. Fruto coletivo de um trio que vem construindo um jeito novo e próprio de fazer cinema e, dessa vez, mais brasileiro do que nunca.

Vários Grandes Momento

Camila Pitanga.

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