(Carnage, FRA/ALE/POL/ESP, 2011)

Comédia
Direção: Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly, Elvis Polanski, Eliot Berger
Roteiro: Yasmina Reza (peça), Roman Polanski
Duração: 80 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Todo mundo sabe que de médico e louco, todo mundo tem um pouco; que de perto, ninguém é normal e que quem perde as estribeiras pode ir longe demais. Mas não faltam tentativas de mostrar o contrário. Quase que por instinto, o ser humano passa a vida tentando convencer aqueles que o cercam de sua adequação, seu equilíbrio e, por que não, perfeição. Para isso, assume máscaras. São posturas, flexões verbais, sorrisos e atitudes que tentam relacionar a imagem que desejamos passar àquela que o nosso grupo deseja enxergar, levando-se em conta a situação, o momento, a posição e por aí vai.

Em seu texto, Yasmina Reza explora com muita ironia e algum sarcasmo os joguinhos sociais tão comuns na vida de qualquer um. Exagerando em algumas passagens, mantendo-se extremamente fiel em outras, ela não precisa ir muito além de palavras e nem exagerar no número de personagens para explorar satisfatoriamente a hipocrisia humana. Basta que dois casais se encontrem em um ambiente fechado e nele permaneçam por muito mais tempo do que desejariam. É o suficiente para que as capas fantasiosas desmoronem uma a uma até que o mais íntimo de cada um esteja exposto.

Dirigido por Roman Polanski (O Escritor Fantasma), Deus da Carnificina não faz nenhuma questão de esconder sua origem teatral (a peça de Reza foi encenada recentemente no Brasil) e, fora as externas no parque, cenas de abertura e final, a trama se desenvolve toda dentro de um apartamento. Detalhes sutis como cores e iluminação, que é a única demonstração de passagem do tempo, compõe o ambiente sem chamar a atenção, que é toda do quarteto central.

E não é qualquer quarteto, apesar da inegável qualidade do texto, deixar Deus da Carnificina na mão de atores menos entregues e mais dispersos poderia comprometer o resultado final. Ter Jodie Foster (O Silêncio dos Inocentes), Kate Winslet (Foi Apenas um Sonho), Christoph Waltz (Bastardos Inglórios), John C. Reilly (Magnólia) em cena é fundamental para a dinâmica do filme, que supera o ar teatral e se perde na afinidade dos dois casais.

Recheado de sentimentos tão comuns e conhecidos de todos e de situações que, por mais que pareçam esdrúxulas, são completamente plausíveis, dada a variedade de reações (físicas e emocionais) dos seres humanos, o filme atinge seu objetivo de envolver pela identificação.

Fica tudo tão claro que é difícil não concordar com Alan em sua crença no tal deus da carnificina, aquele que, segundo a mitologia, sempre acompanhado de Deimos, o terror, e Phobos, o medo, aparece junto com os deuses da discórdia ou da guerra para arrasar o que está no caminho. Pior, reconhecê-lo também dentro de nós mesmos, ainda que hipocritamente seja negado, maquiado e escondido por trás das muitas máscaras sociais, e ter a certeza de que, mesmo quando não desejamos ou tentamos esconder, ele pode aparecer.

No meio de tantos títulos menores e superficiais que invadem as salas de cinema, Deus da Carnificina prefere abordar um tema que sempre vai estar em voga e que sempre vai chamar atenção, afinal de contas, não há nada mais interessante do que o ser humano, não é mesmo?

Um Grande Momento

A bolsa.

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