(The Fourth Kind, EUA/GBR, 2009)

Suspense
Direção: Olatunde Osunsanmi
Elenco: Milla Jovovich, Charlotte Milchard, Will Patton, Hakeem Kae-Kazim, Corey Johnson, Enzo Cilenti, Elias Koteas
Roteiro: Olatunde Osunsanmi, Terry Robbins
Duração: 98 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆
Vamos fazer um exercício de imaginação: acreditar que todos os registros vistos ao longo de Contatos de 4º Grau são verdadeiros e representam exatamente o que parecem. A brincadeira é justa, já que o longa do desconhecido Olatunde Osunsanmi trata-se, principalmente, de um interessante e, às vezes, eficaz exercício narrativo… e por isso é uma pena perceber que, logo no início (mesmo ignorando a ridícula introdução), tais experiências sabotam terrivelmente uma história cheia de potencial para se tornar um filme realmente assustador – e profundamente melancólico.

Mais um representante da nova onda de filmes sobre alienígenas que parece estar começando (já tivemos Distrito 9 e Avatar, e o criador de Atividade Paranormal está produzindo o terror Área 51), Contatos de 4º Grau conta a história da Dra. Abgail Tyler, psicóloga em uma cidadezinha do Alasca que percebe um preocupante fenômeno se repetindo entre seus pacientes e, ao explorar um dos casos utilizando hipnose, desperta memórias perturbadoras em um homem, levando-o a uma tragédia. A verdade que Tyler não demora a perceber é que não apenas todos os seus pacientes têm sofrido abduções alienígenas, como também cada um dos habitantes da pequena cidade parece ser uma vítima – incluindo ela mesma.

E foi para contar esta história da forma mais realista e assustadora possível que Osunsanmi decidiu transformá-la em um “semi-documentário” que mistura imagens de arquivo, com gravações de áudio e vídeo, e dramatizações extremamente fiéis. O que dá origem a transições atraentes, como nos minutos iniciais do longa, quando vemos registros da verdadeira Abigail Tyler sendo hipnotizada por um amigo psicólogo e, simultaneamente, vemos a atriz Milla Jovovich interpretando a médica.

As vozes das duas mulheres são sobrepostas e suas imagens alternadas enquanto assistimos a uma sessão de regressão que rapidamente leva a mulher ao pânico por reviver uma trágica experiência pessoal. E, por mais que a sequência seja auto-sabotada por sua própria essência (afinal, sabemos que parte daquilo é falso), acabamos perdoando o tropeço graças à elegância do momento.

Infelizmente, porém, Osunsanmi fica tão encantado com sua própria composição que decide repeti-la ao longo de todo o filme, nos fazendo lembrar a cada 3 minutos que estamos apenas assistindo a uma dramatização dos eventos – o que, nem preciso dizer, prejudica irremediavelmente nossa imersão na história

Mas, pelo menos, não nos priva da tensão e de alguns sustos bem vindos, já que a história original é intrigante por si só e, de qualquer forma, por acabarmos reconhecendo as imagens de arquivo como registros reais, conseguimos reagir aos momentos mais dramáticos da projeção (sofrendo pelo que já aconteceu àquelas pessoas) – como nas sessões de hipnose à que Tyler submete dois de seus pacientes.

Da mesma forma, a fragilidade da verdadeira Dra. Tyler acaba conquistando nossa simpatia, o que nos aproxima da personagem até mesmo quando está na pele de Jovovich (uma atriz eventualmente medíocre, mas de quem sempre gosto), que se sai muito bem especialmente no momento em que Tyler ouve uma assustadora gravação feita por ela mesma.

Por outro lado, é justamente a presença da Abgail Tyler original, associada ao terrível roteiro, que acaba condenando o filme. Embora todos os registros vistos ao longo da projeção não deixem dúvidas de que algo anormal está assolando a cidade, Tyler surge como uma verdadeira lunática – e a entrevista a que Osunsanmi submete a mulher mais parece uma dessas típicas explorações emocionais que vemos frequentemente em talk shows. O que é uma tremenda injustiça, afinal, a verdade é que Tyler é uma típica personagem dramática: vitima direta de experiências inexplicáveis, é antagonizada pelas autoridades locais que, seguindo o clichê, se recusam a aceitar os fenômenos. No final do processo, a mulher acaba perdendo tudo, da credibilidade à família – passando pela sanidade.

Assim, Contatos de 4º Grau se revela um filme terrivelmente decepcionante. Considerando a bela e dramática produção que poderia ser – assustador, angustiante, melancólico – o longa não é nada mais do que uma simples cobaia usada por um diretor interessado apenas em mostrar sua criatividade narrativa, esquecendo-se, no processo, do objetivo mais importante de seu trabalho: contar uma história.

Um Grande Momento

A gravação de Tyler dormindo.

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