(Circumstance, FRA/EUA/IRA, 2011)

Drama
Direção: Maryam Keshavarz
Elenco: Nikohl Boosheri, Sarah Kazemy, Reza Sixo Safai, Soheil Parsa, Nasrin Pakkho, Amir Barghashi, Fariborz Daftari, Keon Mohajeri, Sina Amedson
Roteiro: Maryam Keshavarz
Duração: 107 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Se ser mulher no Irã já é difícil, imagine como é para as mulheres que gostam de outras mulheres. Relembrando os fatos, desde a revolução iraniana, com a chegada do Aiatolá Khomeini ao poder, houve uma substituição da influência ocidental, mais especificamente norte-americana, por determinações radicais de fundo religioso.

Além da proibição de qualquer referência ou produto ocidental e cultural, as mulheres foram obrigadas a cobrir seus corpos com véus e proibidas de utilizar certos tipos de acessórios, roupas e maquiagens, tendo que viver de acordo com o que está escrito. Tratadas como objetos, com regras inclusive para pertencerem legalmente a um homem, elas obviamente não poderiam ter relações entre si. No Código Penal adotado pós-revolução, gays e lésbicas eram condenados a punições físicas e até à morte. Mais de trinta anos depois, as coisas mudaram um pouco, mas os preceitos básicos continuam sendo mantidos e a liberdade individual ainda não é respeitada.

Sabendo de tudo isso, Circunstâncias é um filme que já chega com uma expectativa não muito positiva acerca do desfecho de sua história. Mesmo que a montagem e a narrativa iniciais provoquem alguma esperança, enquanto acompanhamos uma dança sensual, sabemos que o caminho a ser traçado por Atafeh e Shireen não vai ser dos mais fáceis. O que é confirmado na próxima cena onde, durante uma chamada na escola, uma delas é discriminada por um suposto “caráter questionável”.

Como se não fosse suficiente estarem no Irã, o roteiro ainda faz questão de separar ainda mais as meninas. Atafeh é rica, extrovertida, tem uma família aparentemente estruturada e seu pai lutou ao lado dos xiitas na revolução. Shireen é pobre, tímida, solitária e órfã (seus pais foram mortos pelos revolucionários). Além das diferenças, há ainda a personagem de Mehran, irmão de Atafeh, que largou as drogas e passou a se dedicar à religião e está apaixonado por Shireen.

Mesmo com a bela e colorida fotografia de Brian Rigney Hubbard, que cria quadros belíssimos, e com o carisma do elenco, com destaque para Nikohl Boosheri vivendo a espevitada Atafeh, a quantidade de problemas acaba afetando a narrativa, que se perde ao ter que distribuir muito de seu tempo para essas questões secundárias, e fica cansativa, principalmente em suas representações do cotidiano. O ritmo incerto e a demora para a tensão, que só acontece aos 70 minutos, encontram um outro problema mais grave: o filme é travado. As palavras e situações são tão calculadas, que acabam não funcionando. A parte mais sexual da relação entre as duas meninas é ignorada e só tem permissão para acontecer nos momentos em que há ilusão dentro do filme. E isso é tão grave que a história do irmão, coadjuvante, acaba roubando o interesse.

Apesar dos problemas não deixa de ser uma tentativa válida e que traz algumas reflexões interessantes, como quando faz um paralelo entre a devoção à droga e a devoção à religião; quando aborda os efeitos da revolução até hoje presentes na cultura e na sociedade iraniana e a cobrança da nova geração e, claro, quando assume seu papel na defesa da liberdade individual.

Um Grande Momento

“Foram vocês que criaram esse mundo para nós…”

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