(Pacific Rim, EUA, 2013)

Ação
Direção: Guillermo del Toro
Elenco: Charlie Hunnam, Diego Klattenhoff, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Charlie Day, Burn Gorman, Max Martini, Robert Kazinsky, Clifton Collins Jr.
Roteiro: Travis Beacham, Guillermo del Toro
Duração: 131 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Monstros gigantes já fazem parte da cultura popular japonesa há muito tempo. Natural que depois de um tempo surgissem máquinas também gigantescas controladas por humanos que fossem capazes de lutar com eles. Nos anos 80, seriados televisivos como Jaspion e Jiraya, o grupo de Super Sentai Changeman (ou sua versão mais recente Power Rangers) e outros popularizaram esse tipo de luta e acabaram tomando conta do Ocidente, atraindo a atenção de adoradores da cultura oriental, nerds e afins para descobrirem animes e mangás sobre o mesmo tema.

Saber que um filme de kaijus (os monstros) e mechas (as máquinas) seria produzido, com toda as possibilidades técnicas hoje disponíveis e pelas mãos de um fã confesso e cheio de capacidade como Guillermo Del Toro, animou bastante. Mas Círculo de Fogo não consegue ser tudo o que estavam esperando dele.

Há um certo desequilíbrio entre toda a qualidade técnica e visual de Del Toro e as muitas imposições da produtora que possibilitou o sonho da adaptação. Esse desarranjo pode ser notado durante todo o filme e, claro, compromete o resultado final que não se decide entre o cult de homenagem ou o comercial.

Porém, estamos falando de Guillermo Del Toro e, por mais que tudo saia meio esquisito, há muita coisa empolgante para ser vista. A primeira é a qualidade do 3D. Mania da atualidade, o efeito nem sempre é necessário e muitas vezes não faz diferença alguma. Não é o caso. Todo o trabalho com água, ácido, areia e neve é sensacional, assim como o uso da profundidade, que consegue dar uma nova vida a cenas simples.

Além disso, o filme tem passagens realmente interessantes, seja pela forma narrativa escolhida, como no prólogo que destaca os primeiros ataques dos kaijus e sua repercussão, ou pelo visual impressionante, como a caminhada de Mako para recepcionar Raleigh. Entre as qualidades também estão o som e uma trilha sonora que, por muitas vezes, sabe respeitar o que está acontecendo na tela.

Mas se tudo isso é bom, porque não funciona? Porque ele tem o pior defeito que qualquer filme pode ter: um roteiro ruim. Para começar, tudo o que está sendo visto na tela parece ter sido reciclado de outro filme, videogame ou anime. Em sua maioria, são títulos que também têm mechas (aqui chamados de jaeger) ou kaijus, mas nem sempre (tem até Ases Indomáveis na lista de referências acidentais).

Logo na primeira neuroconexão se percebe que sequências extremamente americanalhadas virão para complicar as coisas. Tramas fáceis que envolvem irmãos, órfãos, sacrifício, vingança, novas chances e cientistas malucos, entre outros, também. O drama do protagonista não consegue convencer, assim como a retomada do caminho. Não faltam frases feitas vazias e batidas, como “um novo jaeger, uma nova chance”, “isso é pela minha família” ou “hoje nós vamos cancelar o apocalipse”, e que deixam tudo menos interessante.

O desequilíbrio também pode ser sentido na distribuição da ação. As cenas de batalhas são fantásticas, mas, em sua maioria, duram muito mais do que o necessário. O problema fica mais evidente com a escolha de um alívio cômico que simplesmente não funciona. A falta de humor nas cenas com os cientistas, ou até mesmo na participação de uma figurinha carimbada na filmografia de Del Toro, é tão aguda que elas chegam a causar um certo constrangimento.

Outra passagem característica de filmes que estão no esquemão, a trama romântica (bem desnecessária num filme do gênero, diga-se de passagem) também não chega lá e não tem como único problema a antecipação de eventos próximos. A desconexão de algumas cenas, acontecimentos aleatórios e uma falta de empatia com o público incomodam um bocado.

Como se isso não fosse o bastante, o filme ainda precisa enfrentar uma vala profunda depois que resolve explicar e justificar não só os sentimentos de seus personagens, mas os ataques dos monstros. Neste momento, quando todas as coisas parecem tentar acontecer ao mesmo tempo na tela, com cenas que vão do mercado de restos de kaijus à base da resistência (e às memórias de um personagem) sem nenhuma preocupação, o filme se compromete de tal maneira que o resgate parece ser impossível. Nada que uma boa e cavalar dose de ação não resolva depois, mas é um tempo que demora muito a passar.

A cereja em cima do bolo fica por conta de uma das interpretações, quesito não tão importante assim em filmes de ação, mas que aqui ultrapassa todas as barreiras. Idris Elba está tão canastrão que já pode pensar em assumir o cargo do Tenente Horatio Caine num futuro próximo. A postura é tão marcada e tudo precisa tanto de caras, bocas e viradinhas de pescoço que dá até pra pensar que aquilo é de propósito. Porém, a culpa mais uma vez é do roteiro que, tão desamarrado, deixa aquilo que é ruim muito mais evidente.

Por fim, Círculo de Fogo é um filme que tem muita coisa boa e muita coisa ruim e não consegue achar um ponto de equilíbrio para que essas qualidades e defeitos convivam a ponto de fazer com que a experiência alcance toda a diversão que almeja. Pior do que isso, chega mais próximo do cansativo e exagerado.

Para complicar, ainda conta com um inimigo muito pior do que qualquer kaiju: a expectativa que o tema e o nome do diretor causam naqueles que compram ingressos para a sessão. Deixar esse sentimento fora da sala pode ser uma boa pedida para se divertir muito mais.

Um Grande Momento:
Gipsy Danger chega na praia.

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