(Mustang, FRA/ALE/TUR/QAT, 2015)

Drama
Direção: Deniz Gamze Ergüven
Elenco: Günes Sensoy, Doga Zeynep Doguslu, Tugba Sunguroglu, Elit Iscan, Ilayda Akdogan, Nihal G. Koldas, Ayberk Pekcan, Bahar Kerimoglu, Burak Yigit, Erol Afsin, Suzanne Marrot, Serife Kara, Aynur Komecoglu
Roteiro: Alice Winocour, Deniz Gamze Ergüven
Duração: 97 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Sempre que alguém fala de viajar para a Turquia, um aviso surge instantaneamente: mulheres não podem ir para lá sozinhas. Alguns avanços, seguintes a ações afirmativas e uma nova postura pelas feministas, aconteceram na legislação, com a criminalização de atos machistas violentos relatados constantemente por lá.

Embora as leis sejam boas, a aplicação nem sempre é eficiente e o machismo, também aquele que não se mostra de maneira violenta, continua existindo. Homens ainda vão à televisão dizer que uma mulher grávida não deve sair à rua por ser imoral e contrário ao bom gosto; não devem sorrir em público para protegerem os valores morais, e ainda há um presidente – Recep Tayyip Erdoğan – que afirma que a igualdade de gênero é contra a natureza humana. Tudo calcado nos dogmas do islã.

O problema, que aparece de maneira menos grave na cosmopolita Istambul, assume um caráter mais extremo e violento nas províncias do interior. É sobre esse machismo todo e a castração do feminino que trata Cinco Graças, filme que representa a França entre os cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

O longa-metragem conta a história de cinco irmãs órfãs que são criadas pela avó materna. Com autonomia e liberdade, vivem sua adolescência em passeios pela cidade e brincadeiras. É justamente uma dessas brincadeiras que muda por completo a vida das meninas.

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Com a intromissão de seu tio, um homem que justifica seus atos com os textos do alcorão, elas deixam de frequentar a escola e se tornam reféns em sua própria casa. Sem ter quase mais direito de escolha ou vontade, tornam-se criaturas a serem treinadas para cumprir o papel subserviente e inferior para que foram criadas.

O modo como a diretora Deniz Gamze Ergüven faz com que a opressão tome conta do filme é muito interessante. O surgimento progressivo de grades, muros, roupas e a preparação das meninas para a única função que a mulher deve ter segundo o pensamento extremista religioso: ser esposa e serva de um homem, faz com que se veja a beleza das meninas, exaltada e brilhante no começo do filme, dando lugar a uma existência desinteressante e quase sem cor.

Além de mostrar a falta de esperança em mudar a realidade em que vivem, Cinco Graças não esquece que é um filme adolescente e faz com que pequenas aprontações, como a fuga de Sonay (Ilayda Akdogan) para se encontrar com o namorado ou a louca ida ao estádio do futebol – um dos melhores momentos do filme pela cumplicidade do feminino -, para conferir a seu universo veracidade

Quem nos conta a história é a viva e esperta Lale, a caçula da família vivida por Günes Sensoy. Aquela voz infantil tentando compreender tudo o que está acontecendo e narrando o modo como percebe aqueles absurdos traz um contraste interessante à trama.

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Bem atuado e bem encenado, o filme ainda tem enquadramentos inspirados e um bom aproveitamento de elementos naturais pelos diretores de fotografia David Chizallet e Ersin Gok, além de uma trilha sonora interessante de Warren Ellis.

Porém, apesar de toda a importância da questão abordada e do modo como isso é feito, o filme perde muito de sua força em seu terço final, quando tenta inserir, sem muito sucesso, novos elementos na trama, ou persiste por tempo demais no desenvolvimento de uma única ação.

Cinco Graças é um filme interessante para conhecer a questão feminina. E, mesmo sendo uma obra que fala da realidade vinculada à religião islâmica, é muito possível fazer associações entre o que se vê na tela e o que acontece muito mais pero da gente.

Um Grande Momento:
Tia Emine.

Oscar-logo2Oscar 2016 (Indicações)
Melhor Filme em Língua Estrangeira

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